Boa Midia

MT: Verso e reverso (54) – Transpantaneira

Eduardo Gomes

@andradeeduardogomes

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Quinquagésimo quarto capítulo da série Verso e reverso de Mato Grosso, com postagem de segunda a sábado, abordando aleatoriamente fatos dos municípios mato-grossenses e figuras da nossa história recente. Nesta data focalizando a rodovia Transpantaneira.

Esta rodovia seria parte do primeiro modal rodo-hidro-ferroviário brasileiro, mas somente avançou 147 km pelo município de Poconé chegando à margem direita do rio Cuiabá.

Pelo caminho 124 pontes de madeira, pequenas e médias, sobre corixos e rios mostram o grau de dificuldade que foi sua construção. A obra foi cumprida na parte que seria remanescente mato-grossense após a divisão territorial para a criação de Mato Grosso do Sul, instalado em 1979, mas não foi executada no trecho no vizinho Estado.

Em 2015 o governo estadual iniciou a construção de pontes de concreto e entregou dezenas ao tráfego. A pontes receberam nomes de famílias importantes no contexto histórico de Poconé: Campos, Ewbank, Botelho, Cunha, Arruda, Amaral, Gayva, Pitaluga, Costa Marques etc.

Todas são em pista única, com passagem em apenas um sentido, por vez. São chamada de cintura fina ou manga curta. No entanto, o modelo adotado contempla a condição de Estrada-Parque da Transpantaneira, que pela peculiaridade da fauna e flora em suas margens exige regras especiais, para evitar impactos ao meio ambiente.

No primeiro momento a meta com a Transpantaneira era a criação do multimodal pioneiro de transporte no Brasil interior, com três matrizes: ferroviária, da capital de São Paulo a Corumbá (MS); hidroviária, de Corumbá a Porto Jofre, no Baixo Pantanal, pelos rios Paraguai e seu afluente Cuiabá; e rodoviária, de Poconé a Cuiabá. Num segundo passo a ligação rodoviária se estenderia de Poconé a Corumbá sendo alternativa para o transporte fluvial no trajeto.

O plano da construção era parte do Programa de Integração Nacional idealizado pelo governo militar instalado em 1964. Porém, por falta de visão do governo federal – financiador do projeto – Brasília o inviabilizou.

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Transpantaneira é a MT-060 entre Poconé e Porto Jofre, rodovia construída sobre aterro e que cruza incontáveis. Nesse trajeto ela é Estrada-Parque e recebeu a denominação de Rodovia José Vicente Dorileo – Zelito Dorileo, por uma lei de autoria do deputado estadual Paulo Moura sancionada em 21 de janeiro de 1999 pelo governador Dante de Oliveira. e que tem um curto trecho pavimentado nas imediações de Poconé. A Transpantaneira é reverenciada em suas margens por piúvas, angicos, carandás, cambarás, aroeiras, lixeiras, palmeiras, bocaiuveiras, pequizeiros e por uma gama de outras espécies vegetais. Em suas margens e não raramente cruzando seu leito, incontáveis antas, jacarés, pacas, quatis, tatus, jaguatiricas, veados, capivaras, talhamares e macacos, além dos tuiuiús, garças, araras, papagaios, canários, tucanos, colhereiros, curicacas, biguás, jaçanãs, andorinhas e outros pássaros que pousam no trajeto cruzado por carros.

A construção da Transpantaneira começou em 5 de setembro de 1972 quando Mato Grosso era governado por José Fragelli. A obra foi executada pela Companhia de Desenvolvimento de Mato Grosso (Codemat), uma estatal presidida por Gabriel Müller e que mais tarde foi extinta. Trabalharam sob a liderança de Gabriel Müller os engenheiros Enzo Perri, Hilton Campos (foi deputado estadual e prefeito de Juína), Kikuo Ninomiya Miguel (foi deputado estadual) e outros.

Em 1974, o governo federal inaugurou a ligação asfáltica de Cuiabá a Campo Grande (BR-163) e a Goiânia (BR-364). Em paralelo a isso, a Transpantaneira foi concluída, mas perdeu importância pela natural opção pelo transporte rodoviário nas rodovias federais recém-construídas. Ou seja, o Milagre Brasileiro aconteceu parcialmente no Pantanal.

Ao contrário das rodovias brasileiras, nas margens das quais surgem vilas e cidades, a Transpantaneira cruza uma área de grande vazio demográfico, por conta de seu mosaico fundiário formado por grandes fazendas voltadas à pecuária, que geram poucos empregos da porteira para dentro. Não há uma vila sequer em seu trajeto.

Até 2018, à noite era intensa a movimentação de turistas na Transpantaneira em carrocerias de caminhões de pousadas da região para contemplação com potentes lanternas que focadas nos jacarés espalhados pelos corixos e baías proporcionavam um belo espetáculo, refletindo o brilho dos olhos daqueles répteis, como se formassem a iluminação de uma cidade. Com a redução das chuvas e após os grandes incêndios florestais de 2020 as águas minguaram e sua fauna também.

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Desvio na estiagem

SABEDORIA – Até 2015 havia apenas duas pontes de concreto, e agora elas chegam a um terço do total. Usuários da rodovia colaboravam com a conservação dessas pontes. Nas águas altas a usavam, mas nas águas baixas, quando alguns corixos secam, se desviavam das mesmas por uma passagem paralela. Com essa prática a vida útil da ponte era maior.

As pontes são bons exemplos para se avaliar as mudanças em curso no Pantanal. Abril é o fim do período das águas altas e até recentemente nessa época os veículos cruzavam as pontes de madeira. Agora, na maioria delas é possível optar pelas passagens paralelas que ou estão secas ou se transformaram em filetes d’água.

A estiagem se aproxima. Não é preciso estudo científico para saber que de agora até o final do ano a tendência é a diminuição das águas no Pantanal. Sem água não há peixe, o que causa o desequilíbrio ecológico na medida em que quebra a cadeia alimentar dos jacarés, lontras, ariranhas, alguns pássaros e até mesmo da onça. Sem peixe não há pescaria, que é a grande motivação ao turismo nacional e internacional pelo fato de o Pantanal ser um dos principais destinos do turismo de pesca no Brasil.

Possibilidade de enchentes neste ano está totalmente descartada. Sem enchente não haverá reposição das baías, corixos e do volume de água dos rios, porém, essa situação evitará que o Pantanal receba cargas poluidoras dos esgotos em Cuiabá, Várzea Grande, Cáceres e outras cidades, resíduos das lavouras mecanizadas no chapadão e rejeitos de mineração.

Destino natural das águas de dezenas de municípios mato-grossenses o Pantanal convive com o dilema: se a estiagem for prolongada o fogo torna-se perigoso inimigo; caso chova muito sua superfície será contaminada com o esgoto e o agrotóxico arrastados pelos rios que o banham; e se a chuvarada for fraca permanece a penúria de agora no limbo ambiental em que se encontra.

PS – Continuem acessando a série. Amanhã (24) o capítulo 55.

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