No quinquagésimo segundo capítulo da Série Verso e reverso de Mato Grosso – com postagem de segunda a sábado, abordando aleatoriamente fatos dos municípios mato-grossenses e figuras da nossa história recente – o focalizado é o deputado estadual Dilmar Dal Bosco (UP) que tentará a reeleição.
Companheiro é companheiro… com Dilmar Dal Bosco é assim, desde que o companheiro seja o governador. Quanto a isso seu histórico parlamentar se encarrega de mostrar: companheiro, votou até de olhos fechados a aprovação de todas as contas do governo Silval Barbosa; do governador Pedro Taques, foi líder na Assembleia Legislativa, e o mesmo fez com o governador Mauro Mendes. Com o então mandachuva da Assembleia, José Riva, também foi assim. Só que a recíproca não tem sido verdadeira. Silval o delatou por suposto recebimento de propina e Riva o incluiu à lista de seus mensaleiros.
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Dilmar Dal Bosco é um catarinense que ainda criança trocou sua terra pelo Nortão, a exemplo de milhares de outros brasileiros. De infância humilde, vendeu picolés e engraxou sapatos em Sinop, a cidade onde reside e tem domicílio eleitoral. Adolescente estudou em Cuiabá e jogou, sem vínculo profissional, pelo Dom Bosco. Jovem conseguiu emprego em um banco, onde trabalhou de office boy a gerente, até voltar para Sinop, onde se tornou sócio do irmão Dilceu Dal’Bosco em uma empresa que atua no setor de energia elétrica.
Em Sinop, Dilmar sempre participou de campanhas eleitorais, tanto de seu irmão Dilceu, que foi deputado estadual, quanto de Nilson Leitão.
Dilmar atuava nos bastidores, mas em 2010 Dilceu (DEM) era deputado estadual se lançou candidato a vice-governador na chapada encabeçada pelo tucano Wilson Santos, agora deputado estadual pelo PSD. Wilson e Dilceu foram derrotados: receberam 245.527 votos. A eleição foi vencida por Silval Barbosa (PMDB) com o vice Chico Daltro (PP), em primeiro turno (759.805 votos). Em segundo lugar ficou a dobradinha Mauro Mendes/PSB e Otaviano Pivetta/PDT com 472.475 votos.
Dilceu perdeu, mas Dilmar se elegeu deputado estadual pelo Democratas com 22.284 votos. Com o resultado de Dilmar os irmãos Dal’Bosco continuaram ocupando uma cadeira na Assembleia.
Em 2014 Dilmar se reelegeu com 38.920 votos. Sua votação aumentou muito. Afinal, ele fazia coro com a chamada Corrente Moralizadora de Taques, que defendia a eleição do senador Pedro Taques (PDT) ao governo. Naquela altura do campeonato, Dilmar havia jogado o amigo Silval – que tanto defendeu na Assembleia – pra escanteio.
No governo Taques, Dilmar foi um leão fiel ao governante. Nos momentos mais agudos do enfrentamento do Palácio Paiaguás com servidores em greve e com mobilização nas ruas, Dilmar era da linha de frente. Pisava o funcionaalismo para defender Taques. Isso, segundo analistas, foi a principal razão para sua votação despencar em 2018, quando baixou para 28.827 votos.
Morto o rei, viva o rei! Dilmar saltou do colo político de Taques para o colinho de Mauro Mendes, seu correligionário. Liderou seu governo, defendeu Mauro contra as críticas do Fórum Sindical pelo calote da RGA, pelo escalonamento salarial e a quitação da folha fora do mês trabalhado. Com ele é assim: Companheiro é companheiro…
Mauro instalou um governo arrecadador, que a cada dia queria mais e mais tributos, alíquotas maiores, arrocho fiscal. Dilmar permaneceu com ele.
Mauro adotou uma política de segurança pública voltada para o fechamento de delegacias de polícia e centros de detenção provisórias (CDPs) – Dilmar avalizava tudo. Companheiro é companheiro….
Situação complicada com mensalinho
Em 31 de março de 2017, num depoimento na 7ª Vara Criminal à então juíza Selma Rosane Arruda, numa das ações a que respondia, ente o ex-presidente da Assembleia, José Riva, espontaneamente revelou que deputados e ex-deputados teriam recebido propina entregue por ele, em troca de apoio ao governador que estivesse no cargo.
À época Riva se comprometeu em revelar detalhes sobre o pagamento do mensalinho. Depois de demorada negociação com o Ministério Público, o ex-deputado apresentou a lista com detalhes, e posteriormente o desembargador Marcos Machado (TJ) a homologou. José Riva assumiu que liderou um esquema que furtou 175 milhões dos cofres públicos.
Na lista de Riva, Dilmar figura como recebedor de R$ 3,2 milhões. Seu irmão, Dilceu, também relacionado, teria embolsado R$ 4,16 milhões. Da mesma fazem parte dezenas de políticos.
Em 2017 o ministro do Supremo Tribunal Federal, Luiz Fux, homologou uma delação premiada de Silval, que sustenta haver pagado mensalinho a deputados estaduais. Um dos delatados por recebimento de mensalinho é Dilmar, que, claro, negou. O mimo seria para o deputado fazer vistas grossas às obras para a Copa do Mundo de 2014 e o programa rodoviário MT Integrado.
Dilmar foi réu numa ação por improbidade administrativa. O Ministério Público o acusou e pediu o ressarcimento de R$ 266.136,26 corrigidos, pela proeza que foi a contratação da enfermeira Lucineth Cyles Evangelista para cargo comissionado na Assembleia, quando a mesma em boa parte do período de sua contratação trabalhava e cumpria carga horária em Sinop, distante 500 quilômetros de Cuiabá. Essa ação, como tantas outras em que deputados são réus, simplesmente foi volatilizada.
Sempre pelo poder
Dilmar presidiu o Democratas em Mato Grosso, mas em março de 2018 os irmãos Jayme e Júlio Campos, indicaram o deputado federal Fábio Garcia para o cargo de Dilmar, que não gostou e com a devida cautela demonstrou descontentamento, mas os Campos o mantiveram longe da direção partidária.
Blindagem
A Assembleia sempre blinda os deputados. Dilmar é beneficiário dessa prática. Um dos maiores escândalos recentes envolvendo deputados foi revelado pela Operação Rota Final, que apontou um esquema de propinas pagos por empresários do transporte de passageiros aos deputados Dilmar e Pedro Satélite – já falecido. Segundo as investigações, reveladas em 2021, os dois deputados criavam barreiras na Agência de Regulação dos Serviços Públicos Delegados do Estado de Mato Grosso (Ager), para assegurar linhas intermunicipais aos que os subornavam e impediam a implantação do Sistema de Transporte Coletivo Rodoviário Intermunicipal de Passageiros do Estado de Mato Grosso. Para assegurar eventuais ressarcimentos, o juiz Bruno D’Oliveira Marques determinou o bloqueio da fazenda Carlito, de 2.577 hectares, em Campos de Júlio, de propriedade de Dilmar. A área foi avaliada em 7,8 milhões.
Em 2024, Dilmar fez um acordo de não persecução penal com o Ministério Público. Dentre os entendimentos, Dilmar repassou 60 mil para a Casa de Apoio do Hospital do Câncer, em Cuiabá, e abriu mão de 150 mil para a mesma destinação – essa dinheirama foi apreendida em sua casa, durante cumprimento de mandado de busca e apreensão. Diante disso, o desembargador Marcos Machado (TJ) extinguiu sua punibilidade.
Cabe a pergunta: Onde estava a Comissão de Ética e Decoro Parlamentar da Assembleia, que se fingiu de morta? Dois deputados, Dilmar e Pedro Satélite no epicentro de um escândalo daquele tamanho, não deveriam ser submetidos àquela comissão? Lamentável o corporativismo parlamentar, que de tão silencioso não consta uma vírgula sequer sobre isso nos anais da Assembleia, onde aquele assunto foi tabu.
RESUMO – Com o nome nas listas de mensaleiros de Silval e Riva, e personagem central na Operação Rota Final, Dilmar é pré-candidato a deputado estadual na esperança de permanecer por mais quatro anos na Assembleia.
PS – Continuem lendo a série. Amanhã (22), o capítulo 53.
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