Terceiro capítulo do livro sobre a vida pública de Júlio Campos
EDUARDO GOMES
@andradeeduardogomes
eduardogomes.ega@gmail.com
PREÂMBULO – Posto o terceiro dos 10 capítulos do livro que escrevi narrando a vida pública do deputado estadual Júlio Campos (União) – que em boa parte se funde e se confunde com a própria existência dele.
Nove capítulos estão editados e revisados. O décimo e último depende do desenrolar dos fatos políticos, sobretudo quanto à pretensão do seu irmão, o senador Jayme Campos (União), em concorrer ao governo. O governador Mauro Mendes e a cúpula que verdadeiramente dá as cartas no União Brasil não apoia Jayme e defende o nome do vice-governador Otaviano Pivetta (Republicanos) para o Palácio Paiaguás. Aparentemente, quanto ao sonho de Jayme, Inês é morta. Porém, para o complemento e título da obra não basta a crença de que Jayme dançou: é preciso citar o caminho que os irmãos Campos tomarão e qual será o papel político de Jayme e Júlio.
No cenário de agora não é possível concluir a obra, mas em breve teremos o fim do impasse, o que me permitirá escrever o décimo capítulo e dar o nome ao livro. Aguardem!
Sugiro que leiam o primeiro e o segundo capítulos neste blog buscando o título: Livro narra a vida e obra de Júlio Campos, o aniversariante de hoje (o primeiro) e Segundo capítulo do livro sobre a vida pública de Júlio Campos.
Observo que o terceiro capítulo é ilustrado por sete fotos, mas que nesta amostragem há somente quatro – e lamentavelmente sem o tratamento que lhes foi dado para a obra.
Terceiro capítulo
Malária, garimpo e gargalos

Cuiabá, quarta-feira, 16 de março de 1983. Às 7 horas, com o Palácio Paiaguás quase vazio, cheguei ao meu gabinete. Fui tomado por um sentimento que misturava felicidade, conquista e muita responsabilidade. Começava naquele momento uma corrida contra o tempo para atender às demandas. Uma hora depois o Paiaguás era um corre-corre com os servidores procurando saber como trabalhar com o novo governante e com uma romaria de políticos à espera de uma audiência de última hora.
Passei uma lista com os nomes dos colonizadores do Nortão e do coronel José Meirelles, que comandou o 9 BEC na abertura da BR-163, para que minha assessoria os contatasse. Dessa relação faziam parte Guilherme Meyer, Zé Paraná, Ariosto da Riva, Ênio Pipino, Norberto Schwantes, Claudino Francio, Felinto Corrêa da Costa, Benedito Tenuta, Sérgio Leão Monteiro, José Aparecido Ribeiro, o garimpeiro Cacheado, José Humberto Macedo, Hermínio Ometto, Raimundo Costa Filho, José Kara José, Manoel Cavalcante, Gervásio Azevedo, Daniel Meneguel e os Irmãos Adelino, Ildo e Ivo Bedin. A comunicação era limitada e nem todos compareceram à audiência. dois dias depois.
Ouvi demoradamente o que disseram os colonizadores e Meirelles. Em suma o Nortão precisava de cidades e infraestrutura para poder receber os ‘aventureiros’ dispostos a enfrentarem o isolamento e a malária. Mas não somente essas duas demandas estrangulavam a região: poucos antes, a descoberta do ouro arrastou milhares de garimpeiros para os garimpos em Peixoto de Azevedo, Alta Floresta, Paranaíta, Apiacás, Matupá e outros municípios no Nortão. A verdadeira invasão afetou duramente a agricultura e a pecuária, com reflexos urbanos. O fazendeiro ou sitiante não conseguia contratar trabalhador rural ou peão, por conta da concorrência do garimpo, que podia fazer fortuna do dia para a noite. Todos pediam infraestrutura e a criação de cidades. E a uma só voz demonstravam preocupação com o garimpo de ouro e a hiperendemia da malária, e pontuavam demandas comuns às comunidades em formação.
Com excelente localização geográfica, o Nortão é o elo entre Mato Grosso e o Oeste paraense. Seu acesso era feito por avião e pela BR-163, encascalhada e recém-inaugurada. Sua pavimentação era imprescindível e com ela seria criada a chamada espinha de peixe alimentadora das vilas fora de suas margens.
O Nortão é estratégico e há muito tempo autoridades buscavam transformá-lo em uma rota que ligasse Cuiabá aos portos paraenses; a BR-163 foi construída com esse propósito, mas era preciso pavimenta-la gradualmente nos dois estados para estimular e facilitar a ocupação do vazio demográfico numa considerável faixa da Amazônia Oriental.
Em 1819, o tenente da Polícia Militar Antônio Peixoto de Azevedo chefiou uma expedição pelos rios Teles Pires e Tapajós tentando estabelecer uma rota fluvial para escoar ao porto de Belém o diamante extraído em Diamantino e adjacência. Peixoto de Azevedo alcançou a patente de coronel e sua memória é reverenciada no Nortão com seu nome dado a um rio e a um importante município.
Em 1866, quando estava em curso a guerra do Brasil, Argentina e Uruguai contra o Paraguai, o militar, político, jornalista, poliglota, escritor e folclorista José Vieira de Couto Magalhães foi nomeado governador mato-grossense. Couto Magalhães fundou Várzea Grande e idealizou a abertura de uma rodovia ligando Cuiabá a Santarém, cruzando o Nortão. A rota sonhada pelo estadista voltou à cena dos planos oficiais em 1957 quando o presidente Juscelino Kubitschek a incluiu ao seu Plano de Metas, mas sua construção somente aconteceu a partir de 1971, quando o presidente Emílio Garrastazu Médici delegou ao Ministério do Exército sua execução, o que foi feito por dois batalhões de engenharia de construção, o 9º BEC em Cuiabá e o 8º BEC em Santarém.
Em Mato Grosso a BR-163 é chamada de Cuiabá-Santarém, e no Pará, de Santarém-Cuiabá. Sua conclusão aconteceu em outubro de 1976, quando a ela não passava de uma rodovia quase fantasma pela pequena movimentação de veículos e o vazio populacional em suas margens nos dois estados.
NORTÃO – Para melhor entendimento, Nortão é a área da Amazônia Mato-grossense compreendida abaixo do Paralelo 14 até as divisas com Pará e Amazonas e delimitada pela margem esquerda do rio Xingu e alguns de seus formadores, e pela margem direita do rio Arinos até sua foz no Juruena, prosseguindo por esse rio em sua margem direita até o encontro das águas com o Teles Pires. No tocante aos municípios banhados pelo Arinos, para efeito de limites consideram-se como parte integrante do Nortão somente os que têm sede em sua margem direita.
A área do Nortão é de 233.674 km² e corresponde a 25,87% do território mato-grossense (903.208 km²). A média da extensão de seus municípios é de 6.490,94 km². Juara, com 22.641,187 km² e Apiacás com 20.379,906 km² são os dois maiores municípios, ao passo que Novo Horizonte do Norte, com 879,662 km² é o menor. Quando assumi o governo a maior parte daquela área pertencia a Chapada dos Guimarães, Nobres e Aripuanã, que não fazem parte do Nortão. Em razão disso torna-se difícil quantificar sua população à época. Porém, com a criação e consolidação de cidades na região, sua população em 2025, segundo o IBGE, era de 970.591 habitantes, o que representa 24,92% dos mato-grossenses, que somam 3.893.659 residentes.
Em 1983 a base territorial do Nortão tinha cinco municípios: Porto dos Gaúchos, Sinop, Colíder, Alta Floresta e Juara. Atualmente são 36 municípios: Alta Floresta, Apiacás, Boa Esperança do Norte, Carlinda, Cláudia, Colíder, Feliz Natal, Guarantã do Norte, Ipiranga do Norte, Itanhangá, Itaúba, Juara, Lucas do Rio Verde, Marcelândia, Matupá, Nova Bandeirantes, Nova Canaã do Norte, Nova Guarita, Nova Monte Verde, Nova Mutum, Nova Santa Helena, Nova Ubiratã, Novo Horizonte do Norte, Novo Mundo, Paranaíta, Peixoto de Azevedo, Porto dos Gaúchos, Santa Carmem, Santa Rita do Trivelato, Sinop, Sorriso, Tabaporã, Tapurah, Terra Nova do Norte, União do Sul e Vera.
Um olhar especial sobre o Nortão
Quando da minha posse no governo a população de Mato Grosso era de 1.142.427 habitantes, com cinco bolsões populacionais em Cuiabá, Várzea Grande, Rondonópolis, Cáceres e Barra do Garças. Juntas, essas cidades tinham 510 mil habitantes. Era necessário a realização de obras em todas as regiões e isso meu governo fez. Mas, uma região em recente processo de ocupação precisava de um olhar especial. Tratava-se do Norte de Mato Grosso, que a sabedoria popular apelidou de Nortão.
Instalei um governo ousado e planejado para retirar Mato Grosso do marasmo, da estagnação populacional. Percorri o Brasil vendendo meu Estado. Por onde passava, destacava nosso potencial agrícola. A conjugação do cerrado com a topografia, luminosidade e a regularidade hídrica. Minhas exposições levavam os auditórios aos melhores sonhos com um amanhã de produção e produtividade. Porém, não bastava somente isso, nem os atrativos de nossos três biomas, nem a localização privilegiada no centro do continente, com o Estado cercado por todos os lados pela América do Sul. Meu governo tinha que oferecer algo mais, o quê diferenciado.
Em termos orçamentários éramos um cobertor curto, pois a produção industrial era praticamente zero e a agricultura mecanizada ensaiava seus primeiros passos ao lado de uma pecuária bovina de criação extensiva. Os fundos compulsórios que ora abarrotam os cofres públicos sequer eram sonhados.
O olhar especial sobre o Nortão não canibalizava as demais regiões. Meu governo esteve presente em todos os rincões. Tratava-se apenas de lutar pela incorporação do vazio demográfico nas calhas dos rios Teles Pires e Juruena, ao processo produtivo, onde a presença do Incra era acanhada e a colonização estava basicamente a cargo de empresários do setor.
O processo de ocupação urbana e o desenvolvimento do Nortão seria retardado se meu governo não adotasse a política municipalista que foi uma de suas marcas.
Quando se desmembra um município, o chamado município-mãe transfere maquinário rodoviário, veículos e até móveis de escritório para a cidade que surge. No Nortão não foi assim e o Estado agiu usurpando no melhor sentido da palavra, atribuições das prefeituras.
Dos cinco municípios instalados na região, somente Porto dos Gaúchos tinha uma infraestrutura mínima. Alta Floresta, Colíder, Juara e Sinop enfrentavam dificuldades no campo administrativo.
Em 1971, com o início da construção da BR-163 surgiram vilas em suas margens e eixo de influência tanto no Nortão quanto no vizinho Pará. Vera, seu primeiro núcleo urbano foi o ponto de partida para a colonização pela Colonizadora Noroeste do Paraná (Sinop) liderada por Ênio Pipino, na Gleba Celeste, e que resultou nas cidades de Vera, Sinop, Santa Carmem e Cláudia.
Em 1979 o governador Frederico Campos sancionou as leis que emanciparam Sinop, Colíder e Alta Floresta, todas de autoria do deputado Osvaldo Sobrinho. Em 1981, o mesmo governador criou Juara, por uma lei de autoria de Osvaldo Sobrinho em coautoria com o deputado Professor Oscar Ribeiro.
À época do meu governo a área do Nortão era a mesma de agora, mas com sua base territorial com apenas Porto dos Gaúchos e as quatro cidades mais novas, além de territórios que pertenciam a Nobres, Diamantino e Chapada dos Guimarães. No começo daquele período, Porto dos Gaúchos era administrado por Jair Pereira Duarte; Juara, por José Riva; Alta Floresta, por Edson dos Santos; Colíder, por João Guedes; e Sinop, por Geraldino Dal Maso.
Nenhum dos municípios tinha receita por tributos municipais e não havia parâmetros para as transferências da União e do Estado para as prefeituras. Naturalmente todos se socorriam com o governador e essa realidade levou-me a uma política municipalista jamais implementada e nunca mais repetida.
Entre construir uma moderna sede para a Secretaria de Estado de Fazenda (Sefaz) ou destinar recursos para completar a folha salarial de um município e assegurar medicamentos em seus postinhos de saúde, ficava com a segunda opção.
PORTO DOS GAÚCHOS – A colonização de Porto dos Gaúchos começou em 3 de maio de 1955 tendo à frente o empresário gaúcho Guilherme Meyer, numa área então pertencente a Diamantino. Em 11 de novembro de 1963 aconteceu a emancipação política e Guilherme Meyer foi eleito o primeiro prefeito. Diamantino e o governo estadual não colaboraram com a nova cidade, mas seu colonizador e prefeito lançando mão de recursos próprios equipou a prefeitura e colocou a seu serviço máquinas e veículos de sua frota. A pequena população apresentava pouca demanda por serviços públicos e a localidade permaneceu estagnada por décadas.
Havia um vácuo da presença da Justiça em Porto dos Gaúchos. Atendendo a uma reivindicação do prefeito Jair Pereira Duarte criei e instalei a Comarca de Porto dos Gaúchos.
ALTA FLORESTA – Edson dos Santos administrava um município recém-instalado com área de 46,3 mil km², do tamanho do Espírito Santo, pois a ele pertenciam Apiacás, Paranaíta, Carlinda e Nova Monte Verde, e parte de Nova Bandeirantes e nenhum deles era distrito. À grande dimensão territorial somavam-se ainda os problemas resultantes do garimpo do ouro. O aeroporto de Alta Floresta tinha o maior número de pousos e decolagens do Brasil, mas o intenso vaivém dos aviões praticamente não resultava em receita para o município.
O prefeito Edson dos Santos foi meu adversário quando disputei o governo, mas passada o pleito e com nós dois eleitos a questão partidária saiu de cena. Atendia suas reivindicações, porque todas eram de interesse coletivo, e uma delas foi a construção de uma rodovia com 75 km ligando a sede do município à Pista do Cabeça. Em 1985 entreguei essa rodovia ao tráfego e com ela retirei de cena os aviões que ligavam Alta Floresta àquela pista.
Pista era o nome dado ao garimpo de ouro que somente tinha acesso por avião. Seu nome, Pista do Cabeça era referência ao seu dono e detentor dos direitos minerários para a explotação do ouro, o paraibano Eliézio Lopes de Carvalho, que todos chamavam de Cabeça.
Em 1981, o médico paranaense Mário Nishikawa inaugurou o Hospital Geral de Alta Floresta, que se transformou na principal maternidade daquele município. No meu governo, Mato Grosso assinou vários convênios com ele, para atendimento à população carente, sobretudo nas áreas de ginecologia, pediatria, ortopedia e no tratamento de vítimas da malária e das armas de fogo.
COLÍDER – O Ciclo do Ouro, de meados dos anos 1970 a 1995 fez fortunas e vítimas, e ainda deixou um passivo ambiental em áreas degradadas. A vila de Peixoto de Azevedo, que pertencia a Colíder, chegou a uma população de 47 mil habitantes, mas sofreu drástico esvaziamento com a saída dos garimpeiros e dos demais integrantes de sua cadeia de extração e comércio. Aos poucos Peixoto encontrou outro estilo de vida, e em 2025 , segundo o IBGE, sua população era de 33.754 residentes.
A movimentação do ouro tinha sua concentração na rua do Comércio, em Peixoto. Levemente sinuosa e em declive no sentido cidade-BR-163, aquela via era cercada por duas fileiras de construção em madeira, boa parte com dois pisos. Suas portas se abriram para a compra do ouro, hotelaria, bares, restaurantes, lojas de equipamentos para garimpo e a vida noturna em boates onde o sexo era pago principalmente pelo grama do ouro. Quem cruzasse por ela, independentemente do dia ou horário, ouvia do começo ao fim do trajeto, sucessos de Amado Batista, Waldick Soriano, Sula Miranda e Walter Basso.
O prefeito João Guedes frequentava meu gabinete e sempre tinha duas demandas: segurança e saúde para Colíder e Peixoto de Azevedo, vila dividida ao meio pela BR-163.
Àquela época havia um reduzido efetivo policial e boa parte da tropa era deslocada para o Nortão pelo 7º Batalhão da Polícia Militar em Rosário Oeste. Transcorridos pouco mais de 40 anos, posso afirmar com certeza que proporcionalmente as vilas e cidades do Nortão àquela época tinham mais policiamento ostensivo do que agora.
SINOP – Sinop era a síntese do Nortão e ao mesmo tempo uma pequenina cidade encoberta ora pela poeira ora pela chuvarada. Sua porta de entrada era a avenida que a ligava à BR-163. Ênio Pipino e Geraldino Dal Maso me procuraram. Buscavam um atrativo para os que cruzavam a rodovia rumo ao Pará ou em direção a Cuiabá. Garanti aos dois que meu governo pavimentaria aquela via.
Pouco tempo depois inauguramos o asfalto. A avenida acanhada, que sempre era coberta pelas águas da chuva, ganhou imponência. Agradecida, Sinop deu meu nome a ela. Essa homenagem sempre toca meu coração quando a atravesso. Com a pavimentação a cidade ganhou novo visual, despertou interesse de investidores e de moradores locais. A churrascaria de Plínio Callegaro, pioneira e quarto imóvel construído na cidade de Ênio Pipino, não enfrentava mais o problema com a poeira, que assustava sua freguesia.
Plínio Callegaro foi vereador por Sinop quando aquela cidade era vila pertencente à Chapada dos Guimarães. A mais bela praça do lugar, no leito da avenida que leva meu nome, foi batizada de Plínio Callegaro.
Meu governo sempre esteve presente em Sinop atuando em todas as áreas. Acompanhei o início da carreira médica de Jorge Yanai, que mais tarde foi deputado estadual e o primeiro senador brasileiro de origem japonesa. Meu governo sempre firmou convênios com Jorge Yanai na área da saúde.

Em Sinop experimentei uma das mais fortes emoções do meu governo, quando ao lado do presidente João Figueiredo, do casal colonizador Nilza e Ênio Pipino, e de outras figuras ilustres, descerrei a placa de bronze pela pavimentação da BR-163, de Várzea Grande a Nova Santa Helena.
Ao interligar Sinop à malha rodoviária nacional pavimentada meu governo despertou ainda mais as atenções do Brasil para aquela região e hoje aquela cidade é reconhecida no país e cada vez mais assume a condição de metrópole regional e sua população ultrapassa 223 mil habitantes.
JUARA – O colonizador e político José Pedro Dias, o Zé Paraná, é uma das referências mato-grossenses. Além de fundar Juara, Zé Paraná criou Tabaporã e trabalhou com Guilherme Meyer na colonização de Porto dos Gaúchos.
Zé Paraná foi nomeado prefeito de Juara até a realização da primeira eleição, na qual o vencedor foi José Geraldo Riva. Quando assumi o governo, Riva era o prefeito e seu município era maior do que Sergipe. Riva buscou investidores Brasil afora, mas a prefeitura, com poucos recursos, sempre se socorria no governo estadual.
Em Juara, mais do que uma colonização estava em curso uma luta por espaço, por dias melhores, travada com coragem e amor. Quando do começo da ocupação populacional da Gleba Taquaral que deu origem a Juara, Zé Paraná sonhava com uma linha de ônibus que a ligasse a Cuiabá. Nessa luta, o colonizador prometeu que o primeiro ônibus que chegasse à sua vila ele o lavaria com cerveja. Emocionado, Zé Paraná cumpriu a palavra.
Juara desenvolveu-se. Com mais de 36 mil habitantes, é uma das principais cidades do Nortão e o rebanho bovino daquele município é um dos maiores do Brasil. Meu governo cumpriu seu papel na consolidação de Juara.
SAÚDE – A referência regional em saúde era Matupá, onde o Hospital da Malária dirigido pela irmã Adelis, que se entregava de corpo e alma no atendimento às vítimas da malária, dos tiroteios e as da ‘balária’ – feridos a bala e com a febre malária.
Meu governo fez da obra humanitária da irmã Adelis uma fonte permanente de destinação de recursos, de medicamentos e equipamentos. Naquela área do Nortão, com pequena população fixa, mas milhares de garimpeiros nômades, a saúde era explorada criminosamente por inescrupulosos donos de farmácias, que vendiam soro de combate a malária, que tinham o preço determinado por sua cor: se azulado era bem mais caro, sendo que sua coloração era feita com anilina; se amarelado, o preço era médio – essa cor era proveniente da mistura com Ki-Suco de laranja.
Um dos poucos laboratórios na região funcionava na Drogaria Ramos, de Maurindo Ramos, em Novo Mundo. Com seu microscópio Maurindo fazia lâmina e atendia a comunidade garimpeira daquela então vila, fundada pelo garimpeiro piauiense Antônio Alves da Silva, o Cacheado, analfabeto que construiu as duas primeiras escolas do lugar.
Municipalismo nas veias
Para efeito administrativo, internamente dividi Mato Grosso em seis áreas de atuação: Região Metropolitana de Cuiabá, Fronteira, Vale do Araguaia, Chapadão do Parecis, Polo de Rondonópolis e o Nortão, já focalizado. Nesse contexto, o Nortão era a região mais vulnerável e que não contava com fatores iguais àqueles que poderiam desenvolver as demais regiões. Não podia ver essa realidade como uma sentença com trânsito em julgado. Assumi um compromisso comigo mesmo que prepararia o Nortão para o Brasil dando a ele condições de desenvolver sua vocação agrícola, o que aconteceu e o faz um dos pilares da política de segurança alimentar mundial.
CUIABÁ – Quando começou meu governo Mato Grosso tinha um déficit habitacional muito grande e paralelamente a esse cenário recebia levas e mais levas de migrantes. Meu governo construiu 35 mil moradias, que em média abrigavam, cada, uma família com cinco componentes. Ou seja, propiciamos teto para 175 mil cidadãos, que representavam 15,9% da população mato-grossense. Um dos exemplos dessa obra de grande alcance social é o Conjunto Habitacional Centro Político e Administrativo (CPA), na nossa capital.

A Saúde desafiava os governos. Após analisar com o secretário de Saúde Gabriel Novis Neves, o quadro da prestação de saúde no Estado, e estimulado por ele, iniciei a construção do Hospital Central de Cuiabá, e ao término de meu governo 40% estavam prontos. Porém, os sucessivos governos não deram continuidade e somente agora, o governador Mauro Mendes concluiu a obra, que também teve uma parcela executada pelo ex-governador Pedro Taques.
Na Região Metropolitana de Cuiabá todas as áreas foram contempladas com investimentos, que modernizaram a região e estimularam um fluxo migratório intenso. No começo do meu governo Várzea Grande tinha 85 mil habitantes, e ao término, 130 mil. No período, a capital saltou de 250 mil para 400 mil residentes. Coincidentemente com meu mandato no Palácio Paiaguás, meu irmão Jayme Campos era prefeito várzea-grandense. Juntos criamos o título de Cidade Industrial para a sede daquele município que é nosso berço.
FRONTEIRA – Nos 983 km na faixa da fronteira com a Bolívia, de Poconé a Comodoro, situa-se a bicentenária Cáceres, uma grande cidade; Porto Esperidião e Vila Bela da Santíssima Trindade, nossa primeira capital, que tem em sua formação populacional intelectuais e descendentes de nobrezas africanas. As cidades recém-emancipadas e as vilas eram habitadas por pioneiros oriundos de todas as regiões e que chegavam trazendo recursos financeiros.
Em Araputanga, no ano de 1975, o então padre Erminio Celso Duca à frente de um grupo de 31 produtores de arroz criou a Cooperativa Agropecuária do Noroeste de Mato Grosso (Coopnoroeste), que mais tarde seria um dos principais laticínios do Centro-Oeste e uma grande produtora de lácteos. Além da Coopnoroeste esse religioso também fundou a Faculdade Católica Rainha da Paz (FCARP). Por sua missão evangelizadora e a atuação social, a igreja católica concedeu ao padre Erminio Celso Duca o título honorífico de monsenhor.
Na região da fronteira a pecuária sempre foi um dos pilares econômicos. Cáceres, Vila Bela, Porto Esperidião e Jauru têm grandes rebanhos bovinos. Pontes e Lacerda é um município que apresenta grande taxa de crescimento.
Com financiamento pelo Banco Mundial, em 1981 o governo federal lançou e iniciou a implantação do Programa Integrado de Desenvolvimento do Noroeste do Brasil (Polonoroeste) para pavimentação da BR-364 ligando Mato Grosso a Rondônia e contemplando projetos de assentamento numa área de quatro milhões de hectares nos dois estados e beneficiando diretamente os municípios à margem e no eixo de influência da rodovia, que no trecho mato-grossense se estendia de Cáceres a Comodoro incluindo Glória D’Oeste, Porto Esperidião, Pontes e Lacerda, Vila Bela da Santíssima Trindade, Conquista D’Oeste e Nova Lacerda. Ao tomar posse no governo estabeleci uma parceria com a União e Mato Grosso assumiu a obra da pavimentação de Cáceres à divisa com Rondônia. Hoje, o trecho de Cáceres a Comodoro é da BR-174, e partir daquela cidade retoma a nomenclatura de BR-364.
O Polonoroeste foi planejado para cobrir o curso da antiga BR-29 rebatizada BR-364 e em Mato Grosso implantada no trajeto das linhas telegráficas construídas na primeira década do século passado pelo Marechal Cândido Mariano da Silva Rondon, no Chapadão do Parecis tendo por base os municípios de Diamantino e Vila Bela. Porém, sua base territorial para efeito de financiamentos foi redirecionada para a faixa de fronteira, pois a ligação pavimentada entre os dois estados foi deslocada para a BR-174, de Cáceres a Comodoro.
Antes do governo, na Câmara dos Deputados, lutei muito pela BR-174 porque ela integraria uma vasta região mato-grossense ao processo desenvolvimentista, além, é claro, de cumprir seu papel na esfera da segurança nacional na fronteira com a Bolívia. O deslocamento da ligação Mato Grosso-Rondônia, não prejudicaria o Chapadão do Parecis, que é a maior extensão contínua de terra agricultável do mundo, com 22 milhões de hectares em Mato Grosso, Rondônia e Amazonas. Ao contrário, ela abriria o leque do desenvolvimento. As cidades na fronteira e em sua faixa atestam essa afirmação.
Também chamada de BV-8, pois o marco 8 da fronteira Brasil-Venezuela é seu ponto mais ao Norte. Essa rodovia começava em Cáceres e anos depois seu ponto mais ao Sul foi deslocado para Santo Antônio das Lendas, em Cáceres. Seu percurso avança para Glória D’Oeste, Porto Esperidião, Pontes e Lacerda, Conquista D’Oeste, Nova Lacerda e Comodoro, onde passa a ser trecho coincidente com a BR-364 até Juína. Na cidade rondoniense de Vilhena a BR-174 segue rumo à direita, entra em Mato Grosso e cruza as cidades de Juína, Castanheira, Juruena e Colniza. Na sequência atravessa o Amazonas e Roraima alcançando a fronteira venezuelana no marco BV-8 próximo a Santa Elena do Uairén.
ARAGUAIA – No Vale do Araguaia, Barra do Garças sempre foi uma referência urbana. No vazio demográfico o colonizador e pastor luterano gaúcho Norberto Schwantes criou as cidades de Água Boa, Canarana e Querência. Instalada em São Félix do Araguaia, a Prelazia de São Félix do Araguaia então liderada pelo bispo Dom Pedro Casaldáliga promoveu ações com enfoque na posse da terra seguindo a orientação da Igreja Progressista, da qual Casaldáliga foi um dos líderes continentais.
Outros projetos de colonização impulsionavam o Araguaia. Em 1974 a Colonizadora Frenova Sapeva (Confresa) loteou a vila Tapiraguaia. e iniciou a venda de áreas rurais em seu entorno, numa ação coordenada por seus executivos José Augusto Leite de Medeiros e José Carlos Pires Carneiro. Tapiraguaia é a junção das palavras Tapirapé e Araguaia, os principais rios da região. A população não gostou da denominação e o pequeno núcleo urbano ganhou a simpatia popular sendo chamada de Confresa.
Pouco tempo após meu governo, Confresa foi o município brasileiro que apresentou a maior taxa de crescimento populacional. De 1991, o ano de sua emancipação, a 1996, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), Confresa registrou uma taxa de crescimento anual de 39,96%, muito acima da mato-grossense, de 1,9%, e da brasileira, de 1,53%. Portanto, o vazio demográfico seria superado naturalmente.
Com incentivos fiscais concedidos pela Superintendência do Desenvolvimento da Amazônia (Sudam), grandes grupos empresariais, a exemplo do Frigorífico Bordon, Wagner Canhedo (VASP), Lojas Tamakavy do apresentador Sílvio Santos e outros adquiriram imensas áreas no Araguaia, onde a pecuária bovina extensiva sempre foi expressiva.
CHAPADÃO – Em 1975 o governo federal criou o Programa Nacional do Álcool (Proálcool), que contemplou empresários no Chapadão do Parecis e seu entorno. A produção do combustível limpo e que não lança metais pesados na atmosfera criou um parque industrial sucroalcooleiro em Barra do Bugres, Nova Olímpia e São José do Rio Claro, e um mar verde de canaviais em Nova Olímpia, Barra do Bugres, Denise, Tangará da Serra, Porto Estrela, Diamantino, São José do Rio Claro e Tangará da Serra.
Também em 1975 o Ministério de Minas e Energia iniciou o Projeto Radam, que mais tarde seria RadamBrasil, e que foi a maior pesquisa mineral no Brasil em todos os tempos. O levantamento estampava que Aripuanã além de grandes reservas de ouro, escondia minerais estratégicos em seu subsolo. A região, rica em madeira que era commodity explorada livremente à época, também tinha as terras brasileiras mais férteis, o que lhe rendeu o apelido de Ucrânia Mato-grossense.
No meu governo construi a Rodovia Transmato-grossense ligando Tangará da Serra a Juína e com ela criei o primeiro corredor de Aripuanã a Cuiabá cruzando Mato Grosso; antes o percurso era feito via Vilhena, e em suas margens e raio de influência brotaram e se consolidaram as cidades de Campo Novo do Parecis, Brasnorte, Castanheira, Juruena, Cotriguaçu e Colniza.
RONDONÓPOLIS – Meu governo teve forte presença em Rondonópolis. O programa habitacional que criamos, construiu 35 mil moradias em Mato Grosso, e Rondonópolis foi bem contemplado nessa área.
No setor de transporte a MT-130 foi pavimentada no trecho de Rondonópolis a Primavera do Leste à margem da BR-070, que também foi pavimentada pelo meu governo. Esse trajeto contempla Poxoréu, município-mãe dessas duas cidades. A essa rodovia dei o nome de Osvaldo Cândido Pereira – Moreno, reverenciando sua memória. Moreno foi prefeito de Poxoréu, deputado estadual e meu amigo.
Meu governo pavimentou a BR-070 em toda sua extensão em Mato Grosso, de Pontal do Araguaia/Barra do Garças a Cáceres, seu percurso contempla o polo de Rondonópolis, pois a mesma cruza as áreas urbanas de Primavera do Leste e Campo Verde. Essa rodovia integra a malha rodoviária que liga Cuiabá a Porto Velho (BR-070/174/364). Portanto, meu governo pavimentou 1.270 km no trajeto de Pontal do Araguaia, na divisa com Goiás, a Vilhena (RO), numa extensão equivalente ao trajeto de Paris a Madri.
SAÚDE – A referência regional em saúde era Matupá, onde o Hospital da Malária dirigido pela irmã Adelis, que se entregava de corpo e alma no atendimento às vítimas da malária, dos tiroteios e as da ‘balária’ – feridos a bala e com a febre malária.