Boa Midia

Série Verso e reverso de Mato Grosso (14)

Eduardo Gomes

@andradeeduardogomes

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Herculano no meio do povo, como ele gostava

Décimo quarto capítulo da Série Verso e reverso de Mato Grosso, com postagem de segunda a sábado, abordando aleatoriamente fatos dos municípios mato-grossenses e figuras da nossa história recente.

Poxoréu sempre quis ser a Poxoréu do garimpo e sua população sente orgulho desta opção. Nem todos os baianos que vieram para Mato Grosso eram garimpeiros ou queriam garimpar. Herculano Muniz de Melo Filho, baiano de Mutuípe, engenheiro civil com especialização no Canadá, mestrado e doutorado, se elegeu prefeito daquele município, mas a cultura local não lhe permitiu dar ares de modernidade à cidade, mantendo-a no ritmo que nunca mudou desde sua criação.

Baiano bom não morre. Morre não, oxente! Vai para o colo da Mãe Menininha e da Santinha Dulce dos Pobres. Herculano Muniz fez essa viagem. Partiu na segunda-feira, 21 de dezembro de 2020, de Primavera do Leste Foi para junto das grandes divindades de sua Boa Terra. Lá do alto contempla Poxoréu, sua paixão.

O Herculano Muniz de Melo Filho é tema de fácil abordagem, por tratar-se de um grande homem, figura pública respeitável e que fechou os olhos para sempre aos 87 anos, de causas naturais. Porém, deixo de lado o currículo de Herculano. Fico com aquilo que havia de melhor em sua alma, em seu coração: a capacidade de compreender o semelhante e, sempre que possível, ampará-lo.

Em 1988 Poxoréu não respirava ares democráticos. Nesse cenário Herculano venceu a eleição para prefeito tendo em sua chapa o vice Valtércio Teixeira de Oliveira. Além das cinzentas nuvens políticas o município agonizava com o diamante dando sinais de exaustão para o garimpo manual e desesperava-se diante das fortes pressões ambientais e das embrionárias ONGs que se descabelavam tentando marcar território.

Prefeito de uma cidade estagnada e cercada por progresso em Rondonópolis, Primavera do Leste e Campo Verde, Herculano tinha as mãos praticamente atadas: sem orçamento, com o município amargando redução populacional e o diamante em crise. Somente o Senhor Bom Jesus da Lapa pra um jeito naquilo.

O município estava inquieto e a população blefada. Os capangueiros escafederam-se. Meia-praça dormia na calçada. Do dicionário local foram riscadas as palavras: brilhante, pedra sem jaça, bamburrou, xibiu. A única lembrança do garimpo era o vaivém dos garimpeiros ociosos ao gabinete do prefeito. Invariavelmente todos pediam a mesma coisa: um carro para transportar sua mudança. Com o olhar vendo além do transporte em si, Herculano deixou um caminhão dos garimpeiros, para levá-los de um canto para outro, de um barraco insalubre para outro ainda pior. A dor garimpeira expressava-se sobre pneus nos solavancos dos buracos. As mudanças passavam pra lá e pra cá.

Bons tempos aqueles em que os garimpeiros lavavam o chão dos cabarés da Rua Bahia com cerveja Brahma do casco escuro. A opulência do ontem dava espaço ao desarranjo pelos bolsos vazios.

Solidário, de mão sempre estendida, mas sem um escorregão sequer de clientelismo, Herculano ficou ao lado da população garimpeira. Por seu perfil, era um deles. A porta de sua casa jamais se fechou aos atingidos pela crise do garimpo. O fogo de seu fogão nunca se apagou. A mesa de sua mulher, a assistente social Dulcelina, a Dona Dudu era farta para todos.

Mesmo sem grandes obras, Herculano foi marco administrativo em Poxoréu, por sua opção preferencial pelo que há de melhor no município: sua gente. Asfalto, esgoto, patrolamento, tudo pode ficar para depois, menos o alimento que sacia a fome, o calor humano que mantém viva a esperança de dias melhores, a mão amiga que afaga.

O papel humano de Herculano no momento mais crítico de Poxoréu não é de domínio público fora daquele município, e até mesmo lá nem todos sabem o que era feito pelo prefeito para impedir o aniquilamento do garimpeiro em todos os sentidos.

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Prefeito é figura poderosa. Tem os municípios aos pés. Tanto pode estender a mão quanto fingir que não vê o sangramento de seu próximo. Nem todo governante é suficientemente sensível para entender que além de seu gabinete um irmão esteja se debatendo para sobreviver. Herculano deixava a redoma administrativa e se tornava aliado dos homens das bateias.

Eu o vi ao lado de esfarrapados garimpeiros, dos quais foi verdadeiro irmão.

Espero, Herculano, que os prefeitos de Poxoréu mirem em você, que saibam respeitar e amparar o próximo, que não façam de seus cargos, o trampolim da arrogância, da prepotência e arma para ferir o irmão mais fraco.

Fique na paz da baianidade espiritual, com a Santinha Dulce dos Pobres e Mãe Menininha. Não se esqueça de pedir que elas intercedam junto ao Bom Jesus da Lapa pela Capital dos Diamantes, que mesmo tendo diversificado sua economia permanece mergulhada em problemas sociais, com a desvantagem de enfrentar a falta do Dr. Herculano, cabra bom demais, seo menino!

PS – Continuem lendo a série. Na segunda-feira (9), o capítulo 15.

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