O Fusca nosso de cada dia
Eduardo Gomes
@andradeeduardogomes
eduardogomes.ega@gmail.com

– Ele ofusca a gente. Reclama um dos jovens na mesa da cervejada depois da pelada domingueira num ensolarado domingo no final dos anos 1960.
– Ofusca muito. Concorda outro peladeiro com um copo firme na mão.
Quem ofuscava?
– Claro que era o dono do Volkswagen, aquele carrinho miudinho que dividia a população em dois blocos: quem tinha um e aqueles que sonhavam com o danadinho.
Essa é a versão que ouvi sobre a origem do apelido Fusca, dado ao automóvel mais famoso e amado no mundo, o Volkswagen sedã que a sabedoria popular chama carinhosamente de Fuscão, Fuca, Fuquinha, Fusquinha, mas, sobretudo de Fusca, a apelido derivado do poderio do garotão que tinha um, e que ofuscava os demais jovens daquele grupo peladeiro da grande cidade mineira dividida quase ao meio pelas águas vermelhas do rio Doce, aos pés do bico do Ibituruna, onde o trem a Vale apita e o Nordeste descia em paus-de-arara pra tentar a sorte em São Paulo ou no Rio, oxente!.

Inventado na Alemanha com seu motor refrigerado a ar, pra suportar o calorão do deserto transportando soldados do poderoso exército nazista no Norte de África.
O Fusca nasceu germânico em 15 de agosto de 1940, da prancheta do projetista Ferdinand Porsche, por ordem do ditador nazista Adolf Hitler, que lhe encomendou um carro pra transportar três soldados e uma metralhadora.

Mas, verdadeiramente brasileiro desde 3 de janeiro de 1959, quando pela primeira vez saiu da linha de montagem e ofereceu um passeio ao presidente Juscelino Kubitschek, numa versáo conversível especialmente criada para aquele evento.

Tão brasileiro que homenageou os seios da diva paraense da voz rouca, sedutora e o sorriso sem igual, com o Fuscão Fafá de Belém. Tão político que ressuscitou pra agradar o presidente Itamar Franco, o pai do Plano Real, que deu identidade monetária ao país. Tupiniquim com tanto status que foi o grande prêmio escolhido pelo prefeito paulistano Paulo Maluf, pra presentear os craques Canarinhos que faturaram o tricampeonato no México em 1970. Tão íntimo dos brasileiros que vai (continua indo) além do carro em si: virou filme e músicas; é paixão.

Foi o grande carro na interiorização nos anos 1970 e na década seguinte, quando rodovia pavimentada era luxo em parte da malha rodoviária federal.
Trabalhou duro na abertura de cidades e no Ciclo do Ouro no Nortão.
Viatura militar e policial, ambulância, veículo oficial e carro preferido pelos colonizadores, o Fusca foi onipresente àquela época.
Até meados dos anos 2000 os jornais usavam o carrinho para o deslocamento de suas equipes.
Injustas, as forças políticas e econômicas mato-grossenses não o reverenciam nessa terra onde há município chamado Comodoro e vila com nome de Del Rey, em Carlinda.
