Quadragésimo capítulo da Série Verso e reverso de Mato Grosso, com postagem de segunda a sábado, abordando aleatoriamente fatos dos municípios mato-grossenses e figuras da nossa história recente.
O garimpeiro, por essência, é alegre, comunicativo, festeiro. Nos anos 1940 Guiratinga vivia o esplendor do diamante e sua elite tinha à disposição roupas, calçados, joias para os cardápios mais requintados igual aos moradores do eixo Rio-São Paulo. Os aviões em que voavam os compradores de diamante e os pesadões da frota do Rodoviário Nêgo Amâncio se encarregavam de garantir o suprimento da demanda dos poderosos e das madames.
A bela guiratinguense que nadava em dinheiro, deixava um rastro de fragrância por onde passava que somente se diferenciava das madames parisienses, pelo endereço, pois a essência era a mesma: o Chanel Nº 5. Seu vestido de seda chinesa sobre o sutiã de algodão do Nilo a fazia uma rainha. Rainha do Garças. Rainha dos Diamantes. Uma diva exige tratamento diferenciado e os donos do lugar não permitiam que ela se comunicasse com a massa garimpeira.
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Assim, a casta social guiratinguense promovia bailes de carnaval com reserva de mesas e acesso popular limitado, o que mantinha a maioria da população fora dos salões.
O lado da alegria do garimpeiro cobrava por diversão, festa. Em 1945, os irmãos Leogino, Altino e Jonas Moreira fundaram o bloco carnavalesco Os Caretas, que começou tímido, mas que transcorridos 81 anos é a maior manifestação cultural de rua mato-grossense.
Os participantes dos Caretas arrastam multidão no carnaval guiratinguense. Os foliões com os rostos cobertos por máscaras artesanais simbolizando figuras mitológicas, imaginários monstros, bichos e vultos caricatos invadem a cidade.
Tum-dum, tum-dum, tum-dum, tum-dum… A batida do bloco é forte, cadenciada e se confunde e se confunde com o batidão do tambor em alguns ritos africanos; é conhecida por todos na cidade e vizinhança. Ela se faz ouvir no carnaval. Seu som ecoa pelas ruas apinhadas de moradores locais e turistas. Todos querem ouvir e, principalmente, ver os Caretas. Isso mesmo, os Caretas, o mais antigo bloco carnavalesco mato-grossense, que se ganhasse forma humana seria um respeitável e grisalho senhor octogenário.
Hoje, Caretas é referência no carnaval mato-grossense. De tanto sucesso surgiu o Caretinhas, formado pela criançada, que também saí às ruas, e a exemplo dos pais, e acompanhado por eles. Todos, grandões e pequenininhos usam o mesmo estilo de máscaras e de roupas. É uma paixão em todas as faixas etárias.
O que aconteceu em Guiratinga, com os garimpeiros assumindo protagonismo, em outras circunstâncias e regiões também marcou a relação social brasileira.
Na escravidão o negro não podia comer carne nobre de porco. A casa-grande lhe dava miúdos, toucinhos, pés e outras partes. Assim surgiu um dos pratos nacionais de dar água na boca: a feijoada.
Em Cuiabá os negros eram impedidos de entrar na Igreja do Rosário. Eles, então, em anexo, construíram em anexo a Capela São Benedito. Esse templo foi construído em volta de 1730 e o IPHAN o tombou.
Do mesmo modo nasceram a capoeira, a roda de samba etc.
Tum-dum, tum-dum, tum-dum, tum-dum… Guiratinga repete com convicção: somos todos Caretas!
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