Boa Midia

MT: Verso e reverso (129) – Érico Piana, rasteira política e uvas para Primavera do Leste

Eduardo Gomes

@andradeeduardogomes

eduardogomes.ega@gmail.com

 

Capítulo 129 da série Verso e reverso de Mato Grosso, com postagem de segunda a sábado, abordando aleatoriamente fatos dos municípios mato-grossenses e figuras da nossa história recente. O texto mostra como o Projeto Uva foi parar em Primavera do Leste pelas mãos de Érico Piana.

Que no passado Primavera do Leste recebeu o rótulo de “Capital da Uva”, muitos sabem, e sabem ainda que foi o então secretário de Agricultura, Érico Piana, quem levou o Projeto Uva para aquele município. Só que a população não tem conhecimento da rasteira em Clóves Vettorato, que jogou a secretaria no colo de Piana.

Abril de 1994. Secretários do governador Jayme Campos anunciam que deixarão os cargos, de olho em candidaturas no mês de outubro. Aréssio Paquer, da Agricultura, estava nessa relação, sonhando em ser deputado federal pelo PFL de Jayme.

Lideranças ruralistas e grupos empresariais do agronegócio se alvoroçaram depois que Jayme lavou as mãos sobre o nome para suceder Aréssio. Lavou, cruzou os braços e mandou que os interessados indicassem alguém de consenso, mas, se isso não fosse possível, que se fizesse uma eleição setorizada para sacramentar o sortudo.

Três nomes entraram em cena querendo a secretaria. Ricardo Arioli, de Tangará da Serra, representando os produtores do Chapadão do Parecis; Clóves Vettorato, empurrado por Blairo Maggi e a Fundação de Apoio à Pesquisa Agropecuária de Mato Grosso (Fundação MT); e  Érico Piana, que era um dos seis vice-presidentes da Federação da Agricultura e (agora Pecuária, também) – Famato.

 Zeca D’Ávila presidia a Famato e queria o cargo para Piana, antes mesmo que Jayme lavasse as mãos. Pensando na secretaria, percorreu sindicatos rurais e prefeituras administradas por agropecuaristas pedindo cartas de apoio ao seu protegido. Quando soube que a escolha seria em eleição, por pouco não jogou fora as cartas.

Chegou o dia da eleição, que aconteceu na antiga sede da Famato, na avenida Getúlio Vargas, perto do Choppão, em Cuiabá. Vettorato e Piana fizeram pronunciamentos defendendo suas candidaturas. Arioli saiu do páreo, num louvável gesto de verdadeira paternidade: tinha um filho com problema renal que necessitava de transplante e ele seria o doador; desde aquele dia passei a admirá-lo.

Vettorato esmagou Piana. O clima no ambiente era o mais fraternal possível, apesar do cutucão que Adilton Sachetti deu em Zeca, que estava em negociação com a Concremax, para dar o prédio onde ocorreu a eleição como parte do pagamento pela construção da nova sede da Famato. Adilton é arquiteto e à época era sócio de uma construtora. Sua fala desmontou Zeca com uma proposta que a diretoria da entidade fingiu não ter ouvido, embora se tratasse de algo comercialmente irrecusável.

Menos pela proposta de Adilton, que foi prontamente abafada, mas pela vitória de Vettorato, Zeca estava em frangalhos. Mesmo assim se preparou para divulgar o resultado. Pedi que aguardasse porque acreditava que algo poderia ser feito. Mesmo sem entender, ele concordou. Enquanto isso os vencedores comemoravam nas mesas do vizinho Choppão.

Reservadamente disse a Zeca que poderíamos transformar as cartas de apoio a Piana em votos, porque a eleição foi disputada sem regras claras. Seria algo assim: produtores rurais impedidos de comparecerem mandaram suas escolhas por meio da papelada. “E a imprensa?” – quis saber Zeca. Disse a ele para segurar o resultado até passar o horário dos telejornais locais, porque nos jornais a gente daria um jeito (e demos). Por sorte, naquela época não havia sites.

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Não deu outra: Zeca mandou o secretário da Famato somar a votação presencial com os votos a distância. Piana deu uma surra eleitoral em Vettorato. Passamos os números aos editores de Economia e Política dos jornais (passamos mais do que isso). Enquanto os vencedores bebiam, as redações botavam no papel o resultado do pleito que escolheu o vice-presidente da Famato, ex-prefeito de Primavera do Leste e ex-presidente da Associação Mato-grossense dos Municípios (AMM) secretário de Agricultura.

Na data da eleição Jayme estava em Brasília. No dia seguinte voou pra Cuiabá e no avião leu os jornais. Os vitoriosos ainda dormiam embalados pelo chope quando o governador desembarcou, abraçou Piana e o levou ao seu gabinete para empossá-lo.

O resultado foi o melhor possível para Zeca, mas muitas portas se fecharam para mim, inclusive a da Secretaria da Agricultura, onde Piana nunca me recebeu. Para Primavera do Leste foi ótima a nomeação de seu ex-prefeito por Jayme. Afinal, ele canalizou ao município um projeto de viticultura, que criou um ciclo da uva por lá e irrigou muitas contas bancárias de plantadores de soja, que de uma hora para outra viraram viticultores e vinicultores.

UVA – O governo federal criou o Projeto Uva financiado pelo Fundo Constitucional do Centro-Oeste (FCO) e cabia ao governo estadual, por sua secretaria de Agricultura, definir a área para sua concretização, Piana não pensou duas vezes e o mandou para Primavera. Assim, a cidade ganhou o título de “Capital da Uva” e passou a produzir em escala, sobretudo a variedade de mesa Red Globe, que no auge do programa espalhou parreirais por dezenas de propriedades numa área estimada em mais de 100 hectares incluindo as vizinhas Santo Antônio do Leste, General Carneiro e Novo São Joaquim. A viticultura levou produtores rurais à criação da Associação Primaverense dos Vitifruticultores (Apriviti) e resultou numa cadeia econômica que inclui o vinho de mesa e doces.

PS – Continuem lendo a série. Amanhã (21 de agosto), o capítulo 130.

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