Boa Midia

Em Cuiabá, projeto conecta dança, educação e ancestralidade

Túlio Paniago – Especial para o blog

CUIABÁ

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A Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) será palco de manifestações artísticas regionais e reflexões entre os dias 19 e 21 de agosto, quando acontece a 25ª edição do Encontro Interescolar de Dança e Cultura da Cidade Educadora (EIDANCCE). O projeto propõe um encontro entre educação, cultura e ancestralidade, tendo a dança como instrumento de aprendizagem, convivência, combate ao racismo e valorização da diversidade.

A programação inclui oficinas de siriri, dança afro, lambadão e maracatu – agbê (20 vagas por oficina para estudantes da rede pública), além de mesas temáticas, rodas de conversa e apresentações artísticas dos grupos escolares participantes. Ao longo dos três dias, pesquisadores, artistas e representantes da cultura popular também participam de discussões sobre dança, corpo, identidade, ancestralidade e educação. O evento reúne estudantes de escolas públicas do ensino médio durante as manhãs e recebe o público geral no período da tarde, sempre na Faculdade de Comunicação e Artes (FCA) da UFMT. A inscrição pode ser realizada neste link.

A história do EIDANCCE começou no ano 2000, na Escola Municipal Marechal Cândido Mariano da Silva Rondon, em Cuiabá. Na ocasião, a professora de educação física, Sueli Xavier, percebeu gestos discriminatórios contra crianças negras no cotidiano da escola. Então, pensou numa estratégia pedagógica mais ampla para lidar com a questão, que envolvia uma maneira de aproximar os estudantes das manifestações culturais regionais e transformar a relação dos jovens com os próprios movimentos corporais.

“A partir dessas observações do cotidiano, do diálogo com as famílias e da oportunidade de trazer as manifestações culturais regionais para o espaço da escola, venho construindo uma estratégia pedagógica contra o preconceito. Trago um diálogo para construir novas possibilidades de cooperação e relação entre os colegas, porque a dança tem muitas maneiras de agregar”, explica Sueli.

A metodologia parte do princípio que reconhecer saberes e práticas culturais presentes nas comunidades tradicionais, em especial as de raízes afroindígenas, também é uma forma de combater o racismo e valorizar diferentes formas de conhecimento. Nesse sentido, a proposta logo extrapolou os muros da escola.

“Depois de vivenciar danças no espaço da escola, como o siriri, a dança do chorado, a dança do mascarado e o rasqueado, nós criamos o projeto ‘Beleza tem raízes’ para ir até os espaços onde acontecem essas danças. Se estamos falando de siriri, vamos conhecer o siriri de Mata Cavalo, o de São Gonçalo. Se falamos de Chorado, vamos conhecer a dança em Vila Bela da Santíssima Trindade. Assim foi sendo criada, desde 2000, essa metodologia de trabalho”, relembra Sueli.

Assim, mais do que apresentações de dança, o EIDANCCE busca conectar essas manifestações culturais com o cotidiano escolar para estimular novas formas de convivência. A ideia é fortalecer práticas pedagógicas voltadas à diversidade cultural, além de ampliar o acesso de estudantes à formação artística e cultural.

Realizado por meio do Edital Viver Cultura, integrante da Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura (PNAB), do Governo do Estado de Mato Grosso, via Secretaria de Estado de Cultura, Esporte e Lazer (Secel-MT) e com apoio da Faculdade de Comunicação e Artes (FCA), do Laboratório de Estudos e Pesquisa da Diversidade da Amazônia Legal (LEAL) e do Núcleo de Extensão em Desenvolvimento Territorial da Baixada Cuiabana (NEDET).

Da escola para o mundo

O projeto “Beleza tem raízes”, como foi chamado inicialmente, era desenvolvido ao longo do ano na escola onde Sueli trabalhava. Posteriormente, a professora decidiu criar um evento de encontro e celebração para dar visibilidade às experiências construídas com os estudantes ao longo do ano. Foi assim que surgiu o EIDANCCE, a princípio realizado na própria escola, em novembro, com a participação de outras unidades de ensino convidadas.

Com o passar dos anos, o encontro cresceu e passou a ocupar outros espaços públicos de Cuiabá, como o Parque Estadual Mãe Bonifácia, onde foram realizadas diversas edições. A experiência ampliou o alcance da proposta. Em 2016, o projeto ganhou também uma dimensão acadêmica. Durante o mestrado, Sueli passou a investigar a própria metodologia desenvolvida com os estudantes e buscou compreender os impactos daquela experiência em suas trajetórias. Após a conclusão do mestrado, o EIDANCCE foi levado à UFMT como uma iniciativa de extensão.

Essa trajetória explica como se deu a idealização e consolidação do projeto durante esses 25 anos. Afinal, o EIDANCCE não nasceu como um evento isolado, mas como resultado de uma prática pedagógica que encontrou na dança uma maneira de colocar corpos, culturas e histórias em diálogo. E assim, ao longo de mais de duas décadas, foi crescendo junto com estudantes, escolas, parceiros e a comunidade.

Foto: Divulgação

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