Boa Midia

BR-163 – Rodovia sonhada, planejada e executada por mineiros

EDUARDO GOMES

@andradeeduardogomes

eduardogomes.ega@gmail.com

 

Com a BR-163 Mato Grosso ocupou o vazio demográfico nas calhas do Juruena e Teles Pires, ganhou um corredor para chegar ao Atlântico, criou um importante bolsão para a política de segurança alimentar mundial e um grupo de belas cidades com boa qualidade de vida no Nortão – que em breve será Mato Grosso do Norte. Com ela o polo paraense de Santarém, banhado pelo Tapajós, saiu do isolamento e se integrou ao Brasil. Rodovia de integração nacional, a BR-163 tem as digitais de brasileiros de todas as regiões, mas, sua espinha dorsal foi sonhada, planejada e executada por três mineiros.

Antes de escrever sobre a BR-163 ao Norte de Cuiabá é preciso abordar seus idealizadores, os mineiros de Diamantina, Couto Magalhães e Juscelino Kubitschek – o JK. De igual modo é imprescindível focalizar o coronel José Meirelles, também nascido em Minas, que foi o comandante militar responsável pela implantação do maior trecho daquela rodovia.

José Vieira Couto de Magalhães foi um grande estrategista. Jornalista, historiador, poliglota, advogado e militar governou as capitanias de Goiás, São Paulo e Mato Grosso (02 de fevereiro de 1857 a 13 de abril de 1868). Antes de combater os paraguaios na retomada de Corumbá,

Couto Magalhães criou uma logística para transportar combatentes paraenses ao teatro da guerra que o Brasil juntamente com a Argentina e o Uruguaio travavam com o Paraguai (1864/1870). Ele construiu navios em Cuiabá, mandou desmontá-los e transportá-los em lombo de burros e carros de bois até Araguaiana, onde seriam remontados e navegariam até o território paraense.

Couto Magalhães sentiu a necessidade de se criar uma rota segura entre Cuiabá e Santarém.

Juscelino Kubitschek, o maior estadista brasileiro, abraçou esse projeto e em 1957 anunciou o plano para criar uma cruz rodoviária na Amazônia ligando o Brasil de Leste a Oeste e de Norte a Sul. Em suma JK sonhava com a construção da Transamazônica (BR-230) e a Cuiabá-Santarém (BR-163). Essa cruz mais tarde ganharia forma rodoviária no município paraense de Itaituba, onde as duas rodovias se cruzam.

2006 – Ouvindo o coronel Meirelles

Meirelles foi o segundo comandante do 9º Batalhão de Engenharia de Construção (9º BEC), unidade militar criada em 29 de julho de 1970 em substituição ao 3º Batalhão Rodoviário instalado em Carazinho, no Rio Grande do Sul.

O 9º BEC foi instalado no dia 31 de janeiro de 1971, em Cuiabá, mas desde setembro do ano anterior seus efetivos e funcionários civis trabalhavam na construção da 163.

A obra da BR-163 foi delegada ao Exército pelo Ministério dos Transportes e sua execução era considerada estratégica dentro do Plano de Integração Nacional para a ocupação do vazio demográfico amazônico. Dois bordões a inspiravam “Integrar para não entregar” e “Terra sem homens para homens sem terra”. Meirelles deveria executá-la numa extensão de 793 quilômetros, do Trevo do Lagarto, em Várzea Grande, à divisa com o Pará, onde o 9º BEC se encontraria com o 8º BEC, de Santarém. Porém, o ritmo dos trabalhos foi tão intenso que a frente da obra rumo Norte estendeu seu trecho ao córrego Santa Júlia, no Pará, 321 quilômetros à frente, perfazendo a extensão de 1.114 quilômetros.

Mãos à obra

Discreto, Meirelles evitava citar nomes importantes na construção. Porém, numa de nossas conversas em sua casa, revelou-me que o topógrafo civil Antônio Nunes Severo Gomes foi exemplar. No comando, o coronel defendeu junto ao Incra a regularização fundiária do eixo da rodovia e colaborava com os projetos privados de colonização no Nortão.

Sobre a obra, Meirelles falava pouco. Mesmo assim arranquei duas informações dele que julgo importantes: foi a companhia aérea Cruzeiro do Sul a executora do serviço de aerofotogrametria da BR-163. Os acampamentos eram montados às margens dos rios, o que contribuía para o aumento da incidência da malária. Isso o levou a construir carroções montados sobre chassis e os rebocava na medida em que a frente de serviço avançava. As geringonças foram apelidadas de “Circo do Meirelles”, mas reduziram a taxa da doença. O 9º BEC estava no auge da popularidade. Para evitar possíveis ciumeiras por parte do 16º Batalhão de Caçadores (rebatizado 44º Batalhão de Infantaria Motorizado) em Cuiabá, mineiramente ele criou o conciliador slogan “Integração é com o 9º BEC e Segurança com o 16º Batalhão de Caçadores”.

O “Circo do Meirelles”

Quantos tombaram na construção da BR-163 em Mato Grosso? Não há resposta precisa. Uma placa à margem da rodovia em Novo Progresso (PA) relaciona 21 militares e civis mortos vítimas de acidentes, malária e outras causas. Porém esse número pode ser muito maior, porque soldados e trabalhadores na obra contraíram malária e após seus desligamentos do 9º BEC não há registros sobre cura ou óbito.

Tributo aos que tombaram

Em 1992 Dante de Oliveira se elegeu prefeito de Cuiabá com Meirelles de vice. Em meados de 1994 Dante deixou a prefeitura para disputar e vencer a eleição ao governo e Meirelles assumiu o cargo. Certa feita ele me confidenciou que esteve a um passo da renúncia, diante das pressões de vereadores por dinheiro sujo. Legalista e avesso à corrupção, planejou deixar a prefeitura, mas sua mulher Zulmira Meirelles não permitiu que o fizesse, para não macular sua biografia. Em 28 de agosto de 2012, aos 89 anos, quando fechou os olhos pela última vez, vencido por um choque hemorrágico causado por um aneurisma, Meirelles levou para o túmulo seu desencantamento com a Câmara Municipal de Cuiabá, que segundo ele, era abominável.

Em 20 de outubro de 1976, na Cachoeira do Curuá, área que foi litígio entre Mato Grosso e Pará, mas sob tutela paraense, o presidente Ernesto Geisel inaugurou a rodovia. Geisel estava acompanhado pelos ministros Sílvio Frota (Exército) e Dirceu Nogueira (Transportes), e dos governadores Garcia Neto e Aloísio da Costa Chaves (Pará).

PS – O texto acima foi extraído deste livro que publiquei em 2016, sem apoio das leis de incentivos culturais, focalizando os 46 anos do começo da construção da BR-163.

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