Uma rainha nos ceús do Nortão

 

EDUARDO GOMES

@andradeeduardogomes

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Imponente. Absoluta. Linda. Livre, totalmente livre. Senhora dos ares e dengo na terra. Mancho (pronuncia-se mantcho) era uma arara singular. Exuberante no vermelho predominante em sua plumagem pontilhada pelo verde e azul. Não se deixava urbanizar embora vivesse numa vila agitada pelo vaivém dos carros e tratores agrícolas. De vez em quando batia asas, sumia do seu dono em longas e demoradas revoadas em bandos. Assim como ia, voltava.

Chuva, muita chuva. Estrada com atoleiros. Chego à Santa Rita no final do ano de 1996. O compromisso é a cobertura de um mutirão rural do Sistema Famato (da Federação da Agricultura e Pecuária de Mato Grosso). Porém, ao entrar na vila tiro de pensamento a razão da minha viagem. Sou recebido por Mantcho, que num quá-quá-quá-quá de algazarra sobrevoa meu Gol. Depois dessa apresentação a ave posiciona-se sobre o carro como se fosse um guardião aéreo me escoltando sem adiantar nem atrasar. Faz um voo sincronizado com o carro. Acho aquilo fenomenal.

Cheguei ao local do Mutirão e fui apresentado a Edgar Matschinske, o dono de Mancho. Edgar era apaixonado por sua ave, que seu filho Adilson Matschinske encontrou filhotinho num ninho caído nas matas do rio Teles Pires e o levou para casa.

Com carinho Edgar criou Mancho sem jamais botá-lo na gaiola ou cortar suas asas. A paixão era recíproca – isso posso atestar – pois alguns minutos após o início da nossa conversa a ave entrou no recinto, localizou seu protetor, pousou em seu ombro e em silêncio ofereceu a cabeça pedindo um cafuné.

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Edgar e Mancho não estão mais entre nós. Ele tombou cheio de vitalidade durante uma partida de futebol, vítima de um infarto traiçoeiro e fulminante. Mancho fechou os olhos para sempre quando um trator o esmagou.

Ilson Matschinske, irmão de Edgar, era vereador por Nova Mutum, município ao qual a vila de Santa Rita pertencia, e tratou de batizar a via principal do lugar de Rua da Arara. Depois, com a emancipação, Ilson foi eleito o primeiro prefeito e se reelegeu. Ilson, também não está mais entre nós: ele, Edgar e Mancho voltaram ao Criador.

PS – Trecho do capítulo dedicado a Santa Rita do Trivelato no livro (foto) que publiquei em 2016 sem apoio das leis de incentivos culturais,.

A obra reverencia os 46 anos da rodovia Cuiabá-Santarém (BR-163) e o Nortão, a região que ela incorporou a Mato Grosso e que tornou-se um dos sustentáculos da política de segurança alimentar mundial com as lavouras em Sorriso, Nova Mutum, Lucas do Rio Verde, Sinop, Marcelândia, Vera, Cláudia, Santa Carmem, Tapurah, Juara, Peixoto de Azevedo, Santa Rita do Trivelato, Nova Ubiratan, Boa Esperança do Norte, Porto dos Gaúchos, Novo Mundo, União do Sul, Feliz Natal, Ipiranga do Norte, Itanhangá, Nova Canaã do Norte, Alta Floresta e outros.

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