Quinto capítulo da Série Verso e reverso de Mato Grosso, com postagem de segunda a sábado, abordando aleatoriamente fatos dos municípios mato-grossenses e figuras da nossa história recente.
No começo dos anos 1970, no trecho entre Itumbiara (GO) e Rondonópolis, comi poeira dos caminhões do Nêgo Amâncio. Havia um vaivém intenso dos Chevrolet com motorização Perkins, daquela empresa, que faziam o trajeto de Uberlândia (MG) a Mato Grosso. Nas tampas traseiras das carrocerias, em letras pretas garrafais, a inscrição: Nêgo Amâncio. Não conhecia a história da transportadora e de seu dono. Sem que soubesse, trafegava entre uma frota que pela visão de seu proprietário escreveu a mais importante página do transporte rodoviário mato-grossense.
Nêgo Amâncio foi um homem muito além de seu tempo. No final da década de 1920 e o começo dos anos 1930, o Sudoeste Goiano era rota de passagem dos baianos que caminhavam rumo aos garimpos no Vale do Garças, em Lageado, e adjacências, em Mato Grosso. Residente em Uberlândia e com negócios na região por onde a caminhada acontecia, Nêgo Amâncio interessou-se por expandir os roteiros de sua pequena frota de caminhões até Lageado. Seria uma aventura, pois sua ousadia faria seus possantes chegarem antes mesmo da abertura das estradas.
Com a visão empresarial de Nêgo Amâncio, a região interligou-se a Goiás e Uberlândia e surgiu o primeiro corredor rodoviário entre Mato Grosso e Minas Gerais.
No começo do século passado, Lageado, na calha do rio Garças, região Leste Mato-grossense, fervilhava com o diamante, mas enfrentava problema por falta de produtos básicos. Isto acontecia em razão da inexistência de estradas, o que mantinha àquela e as vizinhas comunidades garimpeiras na dualidade da abundância de dinheiro, mas sem ter o que comprar. Essa situação mudou em 1934, quando seis caminhões brotaram na curva da estradinha carroçável, carregados com tudo que se possa imaginar. A proeza de organizar a frota foi de Nêgo Amâncio. Desde então o lugar nunca mais enfrentou crise de desabastecimento.
Frota de Nêgo Amâncio em Guiratinga nos anos 1940
Também no começo do século passado, Lageado trocou o nome para Guiratinga. Nêgo Amâncio era o apelido do mineiro de Uberlândia, Joaquim Amâncio Filho, um homem talhado para liderar e vencer.
No começo da década de 1940, em Guiratinga, Nêgo Amâncio tinha de oito a 10 tropeiros, cada um com seu lote de burros, para a redistribuição das mercadorias, que passaram a alcançar Poxoréu, São José do Planalto (Birro) e a vila de Rondonópolis.
Nêgo Amâncio criou a integração do comércio com o transporte. Montou em Guiratinga a primeira logística de distribuição de armarinhos, medicamentos, secos e molhados com base em Minas Gerais e pontos de distribuição em Mato Grosso. Rumo a Guiratinga seus caminhões transportavam querosene, gasolina de aviação, sal, macarrão, tecidos rústicos, seda, organdi, sandálias, botinas, lanternas, perfumes, quinino para curar malária, rouge para enfeitar madames e prostitutas, Água Velva, pilhas para rádio, trigo, facão, Enxada Tarza, Chapéu Ramenzoni, Brahma Chopp, Antarctica, filtros, louças, talheres, leques, sombrinhas, galochas e tudo mais que se possa imaginar que coubesse numa carroceria para quatro toneladas. Em sentido inverso os possantes eram carregados com arroz em casca, couro bovino curtido e charque. Além desse vaivém que demorava em torno de 20 dias por viagem nos dois sentidos, seus motoristas eram carteiros informais, pois carregavam correspondências entre os extremos da rota e seus pontos intermediários.
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Com a regularidade do transporte no final dos anos 1930, tornou-se mais fácil garimpar, pois não faltavam os itens básicos ao garimpeiro e aos moradores de Guiratinga, o mesmo acontecendo em relação às demais localidades da região.
O comerciante Orlando Xavier de Souza, nascido em Tesouro e residente em Guiratinga desde 1962, foi motorista de Nêgo Amâncio. Seo Orlando participou da integração do Vale do Garças e recorda de suas andanças sem fim pelas estradinhas abertas no cerrado. Pelo caminho e em Uberlândia, que era o começo da rota, divulgava a riqueza de sua região e motivava famílias a se mudarem para lá.
Nos primeiros anos da operacionalização da rota Uberlândia-Guiratinga, Nêgo Amâncio utilizava caminhões Chevrolet com pequena capacidade de carga. A demanda na região garimpeira era enorme, o que criava grande fluxo de veículos nos dois sentidos. À época praticamente não havia serviços de saúde em Guiratinga e os motoristas davam carona para Uberlândia a quem precisasse de atendimento médico. Desse modo criou-se vínculo afetivo entre a população e a transportadora mineira.
A logística de transporte e de distribuição de produtos de consumo e duráveis criada por Nêgo Amâncio foi importante para o suprimento dos garimpos na região. Nêgo Amâncio teve destacado papel na consolidação de Guiratinga, Tesouro, Alto Garças, Barra do Garças, General Carneiro, Rondonópolis, Dom Aquino, Torixoréu e Poxoréu. Mesmo assim, seu nome sequer é citado pelas autoridades. Naquela região há muitas rodovias e nenhuma recebeu o nome do pioneiro da logística de transporte em Mato Grosso.
A empresa cresceu, expandiu suas rotas para outras regiões mato-grossenses e para vários estados. Ganhou o imponente nome de Rodoviário Nêgo Amâncio. Sua atuação foi importante para o desenvolvimento de Rondonópolis e as cidades de seu polo, na medida em que o vaivém dos seus caminhões assegurava a entrega de materiais de construção, medicamentos, roupas, calçados, peças automotivas etc.
ADEUS – Em 22 de julho de 1990 Deus percorreu o céu procurando um grande motorista para transportar bênçãos no firmamento. Não o encontrando mandou seus anjos buscarem Nêgo Amâncio, que desde então transferiu ao Paraíso sua rota do rio Garças.
PS – Continuem lendo a série. Na quinta-feira, 26, será postado o sexto capítulo. Boa leitura.