Pedro Casaldáliga vive também no samba

EDUARDO GOMES
@andradeeduardogomes
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Vulto mato-grossense mais conhecido no exterior. Missionário católico. Pensador e questionador. Referência da Igreja Progressista na América Latina, o espanhol mais são-felixcense do mundo Pere Casaldàliga i Pla, o Dom Pedro Casaldáliga ou simplesmente Pedro, terá sua memória reverenciada na segunda-feira (16), o povo de São Félix do Araguaia, sua cidade, representado por seus três blocos carnavalesco, irá à Orla, para um desfile carnavalesco sob o tema “Dom Pedro Parte da Nossa História”.

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Pedro nos deixou aos 92 anos, em 8 de agosto de 2020, na cidade de Batatais (SP) quando fechou os olhos, mas ele permanece vivo, para sempre, em São Félix do Araguaia – que adotou, defendeu e amou.

“Para descansar eu quero só esta cruz de pau

Com chuva e sol.

Estes sete palmos e a Ressurreição”

Sagração episcopal de Pedro

Os irreverentes blocos Há Jacu no Pau, Tropa Loka e Dim… Terim… Bebim… soltarão a voz no ritmo do samba de suas baterias exaltando Pedro. Oficialmente o desfile será uma competição com direito a premiação, como observa o secretário-adjunto de Turismo e Cultura de São Félix do Araguaia, Vinícius Salvino Spolaor, mas sentimentalmente serão gritos para que a memória do pastor que defendia o trabalhador rural, o sem terra, o indígena, o pobre e todos os excluídos não seja volatilizada pelas novas gerações cada vez mais distantes da realidade e mergulhadas na virtualidade.

Parabéns, São Félix do Araguaia, pela merecida homenagem. Pedro era como as águas do Araguaia, que banham a cidade e passam ficando. Sua trajetória é digna de todas as citações e do reconhecimento. Catalão de Balsareny, província de Barcelona (Espanha), nascido em 16 de fevereiro de 1928, sua ligação com o Brasil começou em 27 de abril de 1970, quando de sua designação para administrar a Prelazia de São Félix do Araguaia. Até seu adeus, Pedro foi a voz dos invisíveis. Sua atuação impediu assassinatos e assegurou o direito à vida com dignidade para excluídos do processo social no Vale do Araguaia, onde predominavam grandes grupos empresariais beneficiados pela dinheirama dos incentivos da Sudam.

Em 27 de agosto de 1971 Pedro foi nomeado bispo prelado pelo papa Paulo VI e no dia 27 daquele mês, o bispo por Dom Tomás Balduíno, titular da Diocese de Goiás (GO), fez sua ordenação episcopal, sagrando-o bispo à margem do Araguaia diante de São Félix do Araguaia. Naquela data surgiu uma luz que iluminou uma vasta e abandonada região, onde o Estado somente chegava com seus órgãos arrecadadores e a violência policial.

Nos anos de chumbo da ditadura militar, o regime planejou prendê-lo ou expulsá-lo, mas recuou temendo a repercussão internacional. Mesmo monitorado, Pedro permaneceu acolhendo trabalhadores, que trocavam seus lugares de origem, fora de Mato Grosso, pelo sonho com a terra para plantar, colher e viver em paz. Graças a ele surgiu a vila de Estrela do Araguaia – chamada de Posto da Mata – nos municípios de São Félix do Araguaia e Bom Jesus do Araguaia; essa localidade foi demolida em 12 de dezembro de 2012, por forças policiais cumprindo mandado de desintrusão para transformá-la na Terra Indígena Marãiwatsédé da etnia Xavante.

Pedro e um indiozinho amigo

No dia a dia e até 2 de fevereiro de 2005, quando foi alcançado pela expulsória canônica aos 75 anos e o transformou em bispo emérito, Pedro permaneceu celebrando na Catedral Prelatícia Nossa Senhora da Assunção, em São Félix do Araguaia. Nesse longo período, seus olhos somente se encheram de lágrimas uma vez. Pedro chorou o assassinato do padre João Bosco Penido Burnier, que o acompanhava numa viagem a Ribeirão Cascalheira, onde um policial disparou um tiro em sua cabeça, em 11 de outubro de 1976; removido para Goiânia, o sacerdote morreu no dia seguinte. O assassinato foi a resposta do policial ao pedido feito por Pedro e Burnier, para que ele parasse de torturar duas mulheres em busca de confissão sobre um homicídio.

Pedro era a referência do povo que ora reverencia sua memória. Também foi referencial Brasil afora. A comunidade acadêmica o contemplou com os títulos de Doutor Honoris Causa pela Universidade Estadual de Campinas, Pontifícia Universidade Católica de Goiás e pela Universidade Federal de Mato Grosso – o primeiro a receber tal distinção naquela universidade.

Em 2026 São Félix do Araguaia celebra 50 anos de emancipação por uma lei de autoria do deputado Ladislau Cristino Côrtes sancionada pelo governador Garcia Neto. A homenagem a Pedro acontece no cinquentenário da criação do município, fundado em 23 de maio de 1941, pela visão de

Um dia a idade chegou

Severiano Neves. Portanto, numa data importante nada melhor do que reverenciar alguém especial, despojado de vaidade, que escolheu para seu sepultamento um antigo cemitério de peões e prostitutas, em São Félix, diante da Ilha do Bananal, ao lado do seu Araguaia, que sua alma não se cansa em contemplar.

Pedro pediu que seu funeral não tivesse pomba. O caixão que recebeu seu corpo era simples e foi levado pelas mãos de indígenas, pelos quais ele sempre lutou.

Creio que invisível aos olhos humanos, Pedro estará à margem do Araguaia os abençoando e rogando a Deus que eles sigam os caminhos que tantas vezes lhes mostrou em sua missão e com seus versos:

“Não ter nada.

Não levar nada

Não pedir nada.

E, de passagem, 

não matar nada.

Somente o Evangelho, 

como uma faca afiada.

E o pranto e o riso no olhar.

E a mão estendida e apertada” 

 

Fotos: CNBB

Diante da homenagem carnavalesca, resta pedir a Deus que o descanso da alma de Pedro seja festivo ao longo do desfile, porque festa somente é festa quando o dono se faz presente.

 

 

 

 

 

 

 

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