Padre Nazareno, vítima sim, mas mártir da fé, não
Eduardo Gomes
@andradeeduardogomes
Neste mês de junho, Jauru celebra a beatificação do padre Nazareno Lanciotti. Motivos de sobra o município tem para essa celebração. Além de pregador do Evangelho, o sacerdote italiano de 61 anos era um ardoroso defensor da população e da região. Nazareno foi vítima de uma quadrilha especializada em roubar casas paroquiais. O tiro que tirou sua vida foi disparado num ato de sadismo com os bandidos fazendo roleta-russa com ele e os convidados em sua casa. O crime não teve conotação de ódio à fé, como sustentou a igreja católica em 14 de abril do ano passado, ao classificá-lo como tal.
Padre Nazareno, do Movimento Sacerdotal Mariano, celebrava na Igreja Nossa Senhora do Pilar, em Jauru. Em 11 de fevereiro de 2001 num jantar que ele oferecia a amigos, sua residência foi invadida por dois bandidos encapuzados, que pediam dinheiro e que ele abrisse o cofre para eles. Não havia cofre e os criminosos ameaçaram psicologicamente os presentes fazendo roleta-russa; a arma foi apontada para sua cabeça, o marginal puxou o gatilho e a bala atingiu seu cérebro. Trazido para Cuiabá o sacerdote recebeu o primeiro atendimento, foi removido para São Paulo, onde morreu em 22 de fevereiro de 2001.
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Fui a Jauru duas vezes para escrever sobre o crime. Testemunhei muitas lágrimas. Marido e mulher casados por Nazareno, crianças batizadas por ele, enfim, uma comunidade entrelaçada com a igreja católica e seu sacerdote, chorava seu adeus. Em anos anteriores tive a felicidade de participar de missas celebradas por ele na Igreja Nossa Senhora do Pilar.
A vida religiosa de Nazareno foi exemplar. Suas lições de amor ao próximo, incontáveis. Porém, seu assassinato não teve nada a ver com a fé que professava nem por sua conduta no campo social.
Até 2017, a beatificação era muito restrita e basicamente voltada para quem era martirizado em razão de sua fé. O Papa Francisco, no entanto, ampliou o leque dos beatificáveis e Nazareno é um deles.
O assassinato de Nazareno ganhou repercussão nacional, e outros dois, também. A execução à queima-roupa do padre João Bosco Penido Burnier, em Ribeirão Cascalheira; e a tocaia que custou a vida do padre Ezequiel Ramin, em Rondolândia.
O padre jesuíta mineiro João Bosco Penido Burnier, 59 anos, foi vítima de um tiro na cabeça, disparado pelo policial militar Ezy Ramalho Feitosa; em 11 de outubro de 1976, o sacerdote foi à delegacia de Ribeirão Cascalheira em defesa de duas mulheres que estavam sendo torturadas para que revelassem o paradeiro de um homem acusado pelo assassinato do cabo PM Félix Pereira de Castro, na região; Burnier disse ao PM que se ele continuasse a agredir as mulheres o denunciaria aos seus superiores, em Cuiabá – o PM sacou o revólver e desferiu um tiro em sua nuca; levado para Goiânia, o sacerdote morreu no dia seguinte.
O padre comboniano Ezequiel Ramin, italiano, 32 anos, foi fuzilado numa tocaia nas proximidades da fazenda Catuva, em Rondolândia, à margem da rodovia que liga aquela cidade a Ji-Paraná (RO); sua morte foi debitada a fazendeiros da região, onde ele atuava em defesa de sem terra e posseiros.
Nazareno, Burnier e Ezequiel Ramin foram vítimas da violência que se manifesta das mais diversas formas. Nenhum, no entanto, foi vítima do ódio à fé. Deus os tenha!