MT: Verso e reverso (44) – Irmã Adelis

Eduardo Gomes 

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Quadragésimo quarto capítulo da Série Verso e reverso de Mato Grosso, com postagem de segunda a sábado, abordando aleatoriamente fatos dos municípios mato-grossenses e figuras da nossa história recente.

Os motores dos tratores ainda fumegavam após a abertura da clareira para fundar Vera, no Nortão, quando Irmã Adelis ali chegou em 28 de agosto de 1972 pelas mãos do colonizador da região, Ênio Pipino, que em 27 de julho daquele ano inaugurou aquela vila.

Ali, Irmã Adelis iniciou a ímpar trajetória humanitária no Nortão cuidando de doentes, onde a malária e as balas das armas de fogo matavam implacavelmente, a ponte de surgir a máxima popular, “Aqui se morre de bala ou malária, ou ainda de balária”.

Adelheid Helena Schwaenen era o nome civil dessa religiosa alemã da Ordem Missionária do Santo Nome de Maria, que chegou ao Nortão acompanhada por outras irmãs de sua congregação

Era lento o processo de ocupação de Vera, por seu modelo econômico alicerçado na extração vegetal e na agricultura. No entanto, três anos depois que Irmã Adelis iniciou seu trabalho na vila criada por Ênio Pipino começou o Ciclo do Ouro no Nortão, com epicentro em Peixoto de Azevedo e sua vizinha Matupá. O garimpo arrastou milhares de pessoas para aquela área.

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Garimpeiros acometidos pela malária morriam sem nenhum tipo de assistência médica e Irmã Adelis e as demais freiras de sua congregação compreenderam que seria preciso estender as mãos àquelas vítimas da aventura garimpeira. Assim, em 12 de fevereiro de 1986, as religiosas passaram a atuar no Centro de Atendimento de Matupá – que virou Hospital da Malária – e que foi construído num terreno doado pela Agropecuária Cachimbo, colonizadora do lugar.

Garimpeiros ardendo em febre recorriam à Casa da Malária e o nome de Irmã Adelis virou referência na região. Seu trabalho humanitário reforçado com uma equipe médica salvou muitas vidas, numa área caracterizada pelo vácuo do Estado, inclusive na saúde, e onde donos de farmácias exploravam a tragédia humana vendendo quinino e aplicando soro em vítimas da malária, cobrando de acordo com a coloração do medicamento: o azul era o mais caro; em ordem decrescente, o amarelado, e finalmente o incolor. A cor azul era obtida com anilina no soro; o amarelado, por mistura do refresco em pó Tang, sabor tangerina – não havia respeito à vida.

Extremamente religiosa, Irmã Adelis encarava seu trabalho como missão divina a serviço da vida. Em 1989 a entrevistei e fiquei impressionado. A religiosa contou que um garimpeiro maranhense, já velho e desiludido, contraiu malária e teve rápida recuperação, depois de ficar com um pé na cova e outro na vida, período em que a Irmã Adelis foi onipresente na cabeceira de seu leito, e de mãos dadas com ele pedia a Deus para livrá-lo daquela doença tropical. Às vésperas de deixar o leito, ele contou que pretendia voltar para Carolina (MA), sua terra, mas que antes queria presenteá-la com o que tinha de mais valioso: um revólver Taurus calibre 38. Irmã Adelis não demonstrou o susto que levou. O paciente pegou a arma em seu bucho* jogado num canto da enfermaria. A freira aceitou o trêsoitão e o garimpeiro deixou o hospital. Uma hora depois o trabuco estava em poder da Polícia Militar. “Não podia recusar o presente; afinal, via naquele ato de generosidade de um homem rude a possibilidade de tirar uma arma de circulação”, comentou.

Irmã Adelis foi bálsamo, consolo e enfermeira de milhares de garimpeiros e dos moradores do Nortão, vítimas da malária, a doença tropical transmitida pela fêmea do mosquito anofelino.

Enferma e muito debilitada, Irmã Adelis foi para Maringá, no Paraná. Fechou os olhos em 24 de fevereiro de 1998.

Na terra, Irmã Adelis foi anjo de luz. Ao fechar os olhos virou estrela. Brilha no céu.

*Bucho é um saco amarrado pela boca e que substitui a mala.

PS – Continuem lendo a série. Na segunda-feira, 13, o capítulo 45

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