MT: Verso e reverso (131) – Professor Paulo Rikbatktsa
Eduardo Gomes
@andradeeduardogomes
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Capítulo 131 da série Verso e reverso de Mato Grosso, com postagem de segunda a sábado, abordando aleatoriamente fatos dos municípios mato-grossenses e figuras da nossa história recente. O texto destaca o professor Paulo Martinho Skiripi Nambiquara, o professor Paulo Rikbaktsa.
Beleza era aquele espetáculo da natureza. A forte correnteza das águas escuras do encachoeirado rio Juruena num passar ficando sem fim. Piau, pacu, pintado, matrinxã, o peixe era farto. Os cantos tribais, alegres. A Dança da Chuva e a Dança da Seca, com suas flautas características ao ritmo do bater dos pés descalços na terra. A doçura do sorriso inocente do menino Paulo Martinho Skiripi Nambiquara, na aldeia Palmeirinha na Terra Indígena Erikpatsa, então município de Diamantino e agora Brasnorte, no Chapadão do Parecis.
Palmeirinha é o berço afetivo. Mas, Paulo Martinho Skiripi Nambiquara nasceu na Terra Indígena Tirecatinga do povo Nambiquara, etnia à qual pertence seu pai, José Martinho Nambiquara, e localizada no município de Sapezal. Sua veia Rikbaktsa é materna, de dona Mônica Neydy Rikbaktsa, que casou com José Martinho num rito intertribal num internato católico da Terra Indígena Utiariti.
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A força materna deu a Paulo o modo de ser dos Rikbaktsa. Mesmo assim, ele é um entre tantos nascidos de casamentos entre noivos de povos distintos.
O mundo do menino Paulo mudou. Com os olhos adultos, arraigados aos costumes de sua gente, com formação acadêmica que lhe descortina o universo muito além das águas do Juruena e de sua mata protegida, ele agora vê o mundo sob outro prisma, muito além do rio de sua infância. Blindado pela legalidade que assegura a inviolabilidade das terras indígenas até mesmo contra o avanço do agronegócio, mas ao mesmo tempo recebendo impactos negativos pela poluição das águas pelas usinas de energia e o cultivo mecanizado nas áreas de amortecimento ciliar, presenciando animais e aves morrendo por contaminação e respirando um ar nada recomendável.
A busca pelo saber universitário o levou mundo afora, mas sem perder os vínculos com os Rikbatksa. Qual o futuro de sua gente cercada pelo desenvolvimento alardeado nas cidades e que se manifesta por pavimentação de rodovias, construção de prédios nas cidades da região e de usinas nos rios Juruena, Dos Peixes e Arinos, o consumo alimentar de enlatados, o avanço das lavouras e da pecuária, a internet nas aldeias, o inevitável choque cultural que bota de um lado um menino criado na cidade grande, e outro, de aldeia.
O povo Rikbaktsa tem que absorver ensinamentos externos, mas preferencialmente repassados por algum de seus indivíduos. Isso o levou mundo afora em busca do saber acadêmico. O menino passou pela adolescência e juventude. Virou professor Paulo Rikbatksa, que é graduado em Ciências Sociais pela Universidade do Estado (Unemat) no campus de Barra do Bugres e pós-graduado em Educação Escolar Indígena pela mesma instituição. Leciona na Escola Estadual Indígena Myhyinymykyta Skiripi, na aldeia Barranco Vermelho, em sua terra indígena em Brasnorte, onde procura levar aos 30 alunos o saber curricular tradicional nas disciplinas matemática, história, ciências sociais geografia, química, português, educação artística e educação física da rede estadual de educação, mas sem permitir que esse conhecimento interfira em sua crença, cultura e costumes, que procura manter ao lecionar políticas culturais indígenas, tecnologia indígena e língua indígena Rikbaktsa. “São dois mundos diametralmente opostos, mas não irreconciliáveis. É possível aprender sobre um sem desaprender sobre o outro e vice-versa”, avalia.
Seus alunos sabem que é preciso manter harmonia com os vizinhos envolventes, mas todos são conscientizados sobre a realidade. O peixe não tem mais a abundância de ontem, mas continua importante no cardápio alimentar nas aldeias. O que acontece com a redução do pescado:
O que será o amanhã Rikbatksa? E o amanhã do menino Paulo que agora é o Professor Paulo Rikbaktsa?
A sociedade envolvente enfrenta dilemas por conta dos problemas que a mesma cria. A população aldeada os enfrenta ainda mais seriamente, por não saber exatamente quais reflexos que terão nas aldeias os descompassos ambientais, sociais, políticos e internacionais. O Professor Paulo Rikbaktsa aborda essas questões com sua gente, e com cautela tenta mostrar esse cenário aos alunos.
O Professor Paulo Rikbaktsa é casado há 33 anos com Genildes Zazikba Rikbaktsa e o casal tem 11 filhos, sendo oito mulheres e três homens, e 17 netos: Junivelton, Riquelmer, Halifer, Noan, Yuri, Maria Júlia, Yohan, Yasmin, Isabela, Gabriele, Eloá, Milena, Matheus, Cecilie, Helna, Yara e Amanda.
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.PS – Continuem lendo a série. Amanhã (24 de julho ), o capítulo 132.