MT: Verso e reverso (104) – Itaipu Binacional
Eduardo Gomes
@andradeeduardogomes
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Capítulo 104 da série Verso e reverso de Mato Grosso, com postagem de segunda a sábado, abordando aleatoriamente fatos dos municípios mato-grossenses e figuras da nossa história recente. O texto revela que a usina Itaipu Binacional nasceu em Rondonópolis.
Presidente da República, Jango Goulart recebeu seu colega paraguaio general Alfredo Stroessner em janeiro de 1964. O tema tratado por eles: a construção da grande hidrelétrica no rio Paraná. Isso mesmo! Jango era dono da fazenda Três Marias, de 10 mil hectares, no Pantanal, no entorno de Rondonópolis, mas pertencente a Santo Antônio de Leverger.
Em Três Marias os dois presidentes alinhavaram o acordo binacional para aquela que seria a maior obra do setor energético mundial. A Presidência da República, em nota, confirmou o encontro: “Dia 19 (de janeiro de 1964), reuniram-se os presidentes Goulart e Stroessner, na fazenda Três Marias, em Mato Grosso, cujo entendimento foi o mais fraterno, tendo ambos chegado à maior sintonia de pensamentos, com integral respeito à soberania das duas nações, reafirmando mais uma vez a sincera amizade entre os dois povos. Nos próximos dias, o presidente Goulart enviará a Assunção representantes do governo brasileiro, a fim de assentarem as normas que orientarão as bases definitivas para a construção da maior usina de energia elétrica do mundo”.
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Jango era socialista nas ideias, mas capitalista na prática. A fazenda em Rondonópolis, adquirida antes que fosse presidente, foi um de seus investimentos e ele também a usava enquanto refúgio, sem que isso impedisse que continuasse a investir naquela área, inclusive utilizando a estrutura do governo. Segundo denúncias à época, aviões cargueiros da Força Aérea Brasileira (FAB) teriam transportado bovinos, carneiros e equinos do Rio Grande do Sul, a terra de Jango, para Três Marias.
A obra de Itaipu se estendeu de 1975 a 1982 e sua capacidade de geração é de 14 gigawatts (GW), que foi a maior do mundo e que somente foi desbancada em 2003 com a entrada em operação da hidrelétrica Três Gargantas, na China. Stroessner, um de seus idealizadores, participou de sua inauguração juntamente com o colega brasileiro marechal Castelo Branco; à época Jango estava exilado no Uruguai.
Além de aumentar a oferta energética nos dois países, Itaipu contribuiu para a ocupação do vazio demográfico em Mato Grosso. Em 1978 e nos anos seguintes parte das famílias de atingidos pela formação do lago daquele hidrelétrica foi levada para uma vila chamada Gaúcha, na Gleba Gaúcha, que a Imobiliária Gaúcha, do Grupo Casa Gaúcha, de Cascavel (PR) colonizou e que mais tarde foi transformada na cidade de Gaúcha do Norte.
Ainda sobre Três Marias, o mafioso Tommaso Buscetta tentou comprá-la e a negociação com Jango avançou, mas foi derrubada pelo general de divisão Ernesto Bandeira Coelho, que chefiava a Superintendência de Desenvolvimento da Amazônia (Sudam). Bandeira Coelho não tinha conhecimento da ligação de Buscetta com a máfia, mas preventivamente o descartava enquanto investidor na Amazônia Legal temendo que o mesmo fosse agente comunista. Mais tarde, Buscetta moraria em Rondonópolis. Na fase de negociação, Jango e Buscetta chegaram a se encontrar na estância do ex-presidente em seu exílio no Uruguai. O capo ficou de olho na fazenda por razão logística para o narcotráfico: tinha boa pista de pouso e se localiza próxima ao Paraguai e Bolívia, situação essa que a deixa em posição estratégica para o tráfico aéreo de cocaína. Tenham em conta que à época o Brasil não contava com monitoramento do espaço aéreo.
PS – Continuem lendo a série. Na segunda-feira (22), o capítulo 105.