Bruno Bocchini com fotos – Agência Brasil
SÃO PAULO
Duas novas exposições abertas na capital paulista estão trazendo à tona o protagonismo das mulheres no graffiti. Com obras realizadas predominantemente por artistas femininas, as mostras reconfiguram a lógica histórica de predominância masculina nesta arte urbana.
Grafiteira pela Vida das Mulheres, do coletivo Mulheres Urbanas e Na Cena Semeando Resistência, da curadora Ju Costa, ocupam o térreo e o primeiro andar do prédio da Ação Educativa, na região da Consolação, em São Paulo.
Os trabalhos apresentam questões ligadas ao cotidiano das mulheres e abordam principalmente temas como a violência, a autonomia e a liberdade.
“A gente tem acompanhado bastante o que tem acontecido em todos os lugares, que é a questão da violência contra as mulheres. Infelizmente, não era mais para isso acontecer, e parece que só cresceu. Então resolvemos trabalhar com esse tema”, destaca Francine Fernandes Rosa, a artista visual Frosa, do Coletivo Mulheres Urbanas, grupo que desenvolveu a mostra Grafiteira Pela Vida das Mulheres.
Instaladas no centro da capital paulista, as exposições também procuram abrir espaço de visibilidade para uma arte que comumente é relegada e restrita às periferias.
“A Ação Educativa atua como um espaço de reconhecimento dessa linguagem artística. É fundamental garantir que esses artistas tenham visibilidade e acesso a espaços institucionais, sem perder a conexão com seus territórios de origem”, ressalta a coordenadora de cultura da Ação Educativa, Fernanda Nascimento.
Para Frosa, o deslocamento da arte produzida nas periferias para o centro é uma maneira de confrontar o distanciamento entre esses “dois mundos”. A artista ressalta que, embora a periferia e o centro sejam partes da mesma cidade, muitas vezes operam como universos apartados.
“Trazer a realidade dessas pessoas para elas serem vistas e lembradas é de extrema importância. É uma forma de aproximar esses mundos que, embora existam no mesmo local, estão distantes”, afirma a artista.
Sororidade
Ju Costa, curadora da mostra Na Cena Semeando Resistência, destaca a união feminina na construção da exposição. Segundo ela, a estrutura social muitas vezes estimula a fragmentação entre as mulheres, mas a prática do graffiti tem trilhado o caminho inverso.
“A gente percebe que, quando estamos fortalecendo umas às outras, todas ganham. Não tem perda. Quando trazemos luz para várias, todas brilhamos juntas”, diz.