Mato Grosso e a hora de dividi-lo em quatro
Eduardo Gomes
@andradeeduardogomes
Criada em 9 de maio de 1748 a Capitania de Mato Grosso transformou-se em Estado. Quanto a isso basta consultar o Google, livros históricos ou buscar informações na sabedoria popular. Porém, o impulso mato-grossense que o retirou da condição de Estado periférico, lhe concede o título de campeão do agronegócio e lhe confere a condição de um dos pilares da política da segurança alimentar mundial não é resultado de ações políticas nem tem a influência de Cuiabá. Essas conquistas literalmente brotaram da terra pela força da migração, sobretudo sulista, que lutou para colonizar novas regiões numa área de vazio demográfico reconfigurada política e administrativamente. Mato Grosso do Sul foi desmembrado em 1977. Transcorrido quase meio século é preciso discutir mais divisões territoriais em nome da lógica federativa e para que cada região emancipada desfrute de sua economia ao invés de continuar carregando o peso da inchada e viciada máquina pública estadual basicamente lotada em Cuiabá. O aniversário de 278 anos merece ser comemorado com um bolo em quatro fatias: Mato Grosso, com a capital em Cuiabá, Mato Grosso do Norte, Araguaia e Aripuanã.
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A divisão territorial que criou Mato Grosso do Sul aconteceu em 1977. A área dividida tinha melhor infraestrutura do que a remanescente. Até então, Mato Grosso era o segundo maior estado brasileiro, mas caiu para terceiro; de sua superfície com 1.260.353 km² restaram 903.208 km². A população global que era de 1.597.890 habitantes em 1970, depois de uma década caracterizada por grandes levas migratórias baixou para 1.138.691, em 1980. Porém, a divisão motivou a abertura de frentes de colonização e no final dos anos 1970 e começo de 1980 colonizadores e o governo fundaram Sinop, Sorriso, Lucas do Rio Verde, Nova Mutum, Alta Floresta, Colíder, Peixoto de Azevedo, Marcelândia, Guarantã do Norte, Apiacás, Paranaíta, Terra Nova do Norte, Campo Verde, Nova Brasilândia, Cláudia, Vera, Santa Carmem, Nova Guarita, Santa Rita do Trivelato, Tapurah, Juara, Juína, Comodoro, Água Boa, Canarana, Querência, Vila Rica, Campinápolis, Gaúcha do Norte, Ribeirão Cascalheira, Feliz Natal, Primavera do Leste, Confresa, Novo Mundo, União do Sul, Novo São Joaquim, Sapezal, Campos de Júlio, Brasnorte, Campo Novo do Parecis, Colniza, Cotriguaçu, Nova Bandeirantes, Nova Maringá, Nova Monte Verde, Nova Santa Helena, Alto Boa Vista, Canabrava do Norte, Curvelândia e outros municípios. Dentre os colonizadores e servidores públicos a serviço da colonização ganharam destaque Ênio Pipino, Norberto Schwantes, Ariosto da Riva, Claudino Francio, André Maggi, José Humberto Macedo, Sinjão Capilé, Hilton Campos, Zé Paraná, José Aparecido Ribeiro, Antônio Debastiani, Rubens Rezende Peres, Alair Álvares Fernandes, Lindomar Bett, Otávio Eckert e Raimundo Costa Filho.
O surgimento das novas cidades foi facilitado pela abertura da BR-163, a Rodovia Cuiabá-Santarém; pelas rodovias BR-158, BR-174, BR-070 e BR-080. Moradores antigos em São José do Xingu contam que na fase de construção da BR-080 ligando Mato Grosso ao Pará, cruzando o rio Xingu, via Matupá – onde a mesma se juntaria à BR-163 – um impreciso cálculo de engenharia no agora entroncamento conhecido como Bituca, ao invés de direcionar o picadão à esquerda (no sentido Sul/Norte) o manteve reto e o levou adiante até a área onde mais tarde seria criada a cidade de Santa Cruz do Xingu. Por conta desse erro a sabedoria popular apelidou aquela mancada de Estrada Perdida. Graças a esse erro Mato Grosso ganhou uma estrada para interiorizar sua colonização.
A abertura e consolidação de rodovias, o surgimento de cidades do dia para a noite e a migração iniciada em 1970 reconfiguraram Mato Grosso. A divisão, portanto, foi boa para Mato Grosso e para Mato Grosso do Sul. Porém, mesmo com a redução territorial a quase continentalidade mato-grossense impede a uniformização populacional. Somos um Estado com bolsões de regionalismos, com estilos próprios de vida. Sinop, com quase 250 mil habitantes e cercada por cidades importantes, tem tudo para ser capital de Mato Grosso do Norte. O mesmo ser verifica em Barra do Garças, que não tem nenhum traço de identidade com Mato Grosso, e que é o polo de desenvolvimento do Vale do Araguaia. A criação do Estado de Aripuanã, com a capital na cidade do mesmo nome, será importante para o Brasil ocupar o vazio demográfico numa das províncias minerais mais importantes do país.
A classe política embora minada por nulidades e corruptos, precisa atuar no sentido da divisão territorial. Não é concebível que em nome de afagos bairristas se tente construir um ramal ferroviário da Rumo ligando Juscimeira a Cuiabá, quando os trilhos para cobrirem esse trajeto poderiam ter sido direcionados para o percurso entre Lucas do Rio Verde e Sinop, estendendo o corredor ferroviário do Centro-Oeste que escoa commodities para Santos.
Não se faz bairrismo nem romantismo com ferrovia. O Pará escoa minério de ferro para São Luís, no Maranhão, e os trilhos da ferrovia Vale não cruzam Belém. Minas alimenta usinas siderúrgicas japoneses embarcando minério de ferro em Itabira para Vitória, no Espírito Santo, sem que Belo Horizonte escute o apito do trem. Com Mato Grosso não deveria ser diferente no tocantes às comodities agrícolas.
Por novos estados e a reconfiguração federativa brasileira. Que vem Mato Grosso do Norte, Araguaia, Aripuanã, Tapajós, Carajás, Triângulo etc.
Parabéns, Mato Grosso. A criação de Mato Grosso do Sul, e bem antes a de Rondônia facilitaram e anteciparam seu crescimento. Está na hora de novas divisões, por outros crescimentos e por mais regiões desenvolvidas.