Primeiro um distrito. Depois um município com o nome de Gilmarlândia. Este é o projeto de Eraí Maggi Scheffer, para reverenciar seu amigo e ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Gilmar Ferreira Mendes, nascido em Diamantino, onde o projeto ganha raízes. A Lei 6.454 de 24 de outubro de 1977, sancionada pelo presidente Ernesto Geisel que regulamenta homenagens é clara: “É proibido, em todo o território nacional, atribuir nome de pessoa viva ou que tenha se notabilizado pela defesa ou exploração de mão de obra escrava, em qualquer modalidade, a bem público, de qualquer natureza, pertencente à União ou às pessoas jurídicas da administração indireta”. Gilmar Mendes, aos 71, esbanja saúde e não dá sinais fúnebres, o que aborta o projeto de Eraí, que precisa ser levado com transparência a Mato Grosso.
No sábado, com a presença de Gilmar, Mauro Mendes, Otaviano Pivetta, Max Russi, Fábio Garcia e outras figuras do poder em sua amplitude, o projeto foi apresentado ao seleto grupo de convidados que compareceu a uma fazenda do ministro, em Diamantino, onde Eraí detalhou para eles o que pretende. Nos sites, Gilmar aparece em ritmo de felicidade de sambista na avenida, para falar sobre sua cidade.
Eraí quer criar um distrito. Primeiro construirá uma vila, o que é legal. Depois essa povoação será elevada a Distrito de Diamantino, num processo político burocrático que passa inclusive pela Assembleia Legislativa. O nome definido: Gilmarlândia – que Eraí queria que fosse Gilmar Mendeslândia – esbarra na lei, pois a figura homenageada continua entre nós bebendo água.
O projeto de Eraí soa estranho. Gilmar é um dos principais constitucionalistas e melhor – muito melhor – do que eu, sabe que seu nome não pode ser dado a um distrito, mas mesmo assim – pelo que mostra o video gravado por Eraí sobre o tema – permitiu que o caso avançasse e que sua fazenda recebesse figuras políticas em pleno ano eleitoral e todas pré-candidatas.
A Gilmarlândia vai dar o que falar na Imprensa nacional, pois a mesma revela uma desconfortante intimidade entre o ministro e a cúpula política dominante em Mato Grosso, além, é claro, de sua forte ligação com Eraí. Por aqui tudo foi recebido com normalidade, como de costume.
É preciso se aprofundar na informação contida no vídeo de Eraí: como ele convida autoridades para uma surpresa a Gilmar, em sua própria fazenda? Eraí teria negócios agrícolas com o ministro, de tal modo que lhe permita entrar na propriedade e ali lançar as bases de uma cidade?
…
Blogs que não recebem recursos públicos aceitam colaboração. Este blog, pelo PIX 13831054134 do editor Eduardo Gomes de Andrade
…
Todos ao Gilmar
Em 2002, logo após Gilmar assumir o STF o entrevistei em Cuiabá. Educado, o ministro pediu que o texto não o citasse como sendo ministro de Mato Grosso. Achei prudente o pedido e, confesso, senti uma pitada de amiração por ele. Porém, com o passar do tempo o ministro que não queria rótulo de mato-grossense virou endereço para delegações políticas de sua terra. Sempre que a barriga dói, forma-se uma delegação ou mesmo isoladamente alguém o procura em Brasília. Recentemente a deputada estadual Janaína Riva (MDB) liderou um grupo que foi até ele, para expor um pleito: uma sentença do STF com trânsito em julgado, definiu que a área do contestado de 22 mil km² de Mato Grosso e Pará pertence ao nosso vizinho ao Norte: mesmo assim a parlamentar foi “ao Gilmar” expor o caso. Mais recente ainda, o senador Wellington Fagundes (PL) distribuiu uma foto ao lado do ministro informando que o procurou em busca de prisão domiciliar humanitária para o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), que cumpre pena de 26 anos na Papudinha, em Brasília.
Se a barriga dói, o remédio é Gilmar
Espero continuar acompanhando a presença de Gilmar no STF até que a expulsória aos 75 anos o mande para Diamantino. Que o ministro tenha vida longa e toda ela pautada pela lei, que está acima de todos, quer não tenham ou tenham toga. Lá na curva do tempo, da qual ninguém escapa, espero que Mato Grosso o reverencie e que surjam ruas, vilas e até uma cidade com seu nome, mas agora, não, e aguardo uma manifestação do Ministério Público nesse sentido, pois esse caso é delicado, expõe Gilmar e o STF, e vulgariza ainda mais a classe política xomana – isso sem falar na Imprensa que vê tudo com olhar de candura.
Mato Grosso tem dezenas de municípios, distritos e vilas que receberam nomes de políticos e outras figuras, de junção de nomes ou que derivam de nomes ou sobrenomes. Algumas das homenagens são justas e calcadas na legalidade, porém há outras, ilegais e imorais, que reverenciam figuras tão vivas quanto Gilmar. Essas localidades estão espalhadas por todas as regiões e abrangem diversas faixas populacionais, desde a pequena Couto Magalhães a Rondonópolis, senão vejamos: Cláudia, Luciara, Nova Lacerda, Dom Aquino, General Carneiro, Campos de Júlio, Barão de Melgaço, Santo Antônio de Leverger, Marcelândia, Araguaiana, Rondonópolis, Peixoto de Azevedo, Cáceres, Zé Reis, Couto Magalhães, Adrianópolis, Irenópolis, Celma, Porto Esperidião, Pedro Neca, Cardoso, Rondolândia (nada a ver com Rondon), Marechal Rondon, Denise, Pontinópolis, Vera, Pontes e Lacerda, Figueirópolis D’Oeste, Nova Ubiratã, Freitas, Carlinda e Juscimeira. Não relacionei Chapada dos Guimarães, pois há dúvida quanto ao real sentido de sua denominação.
Portanto, Gilmarlândia, agora, não! Vida longa ao Gilmar e que prevaleça a lei.