Colapso silencioso na saúde pública de Cuiabá: quando o “ajuste técnico” ignora vidas

Adeildo Lucena*
CUIABÁ

A saúde pública de Cuiabá atravessa um momento extremamente delicado, que exige responsabilidade, transparência e, acima de tudo, compromisso com a vida. Nos últimos dias, temos acompanhado declarações do prefeito Abílio Brunini classificando mudanças no atendimento das unidades de saúde e UPAs como um “ajuste técnico”. No entanto, o que se observa na prática está muito distante de qualquer conceito técnico aceitável na gestão da saúde.

O modelo adotado pela atual gestão prioriza o volume de atendimentos em detrimento da qualidade. Essa lógica transforma o cuidado em números frios e ignora a complexidade dos pacientes que dependem do Sistema Único de Saúde (SUS), especialmente a população mais vulnerável, que não possui alternativa fora da rede pública.

Na ponta, o impacto é imediato e preocupante. Médicos estão sendo retirados das unidades, escalas estão sendo reduzidas e turnos inteiros operam com número insuficiente de profissionais. Isso compromete diretamente a capacidade de resposta das UPAs e unidades básicas, sobretudo em situações de urgência e emergência. Não se trata apenas de gestão: trata-se de vidas em risco.

Cuiabá vive hoje o que podemos chamar de um diagnóstico perigoso: um colapso silencioso. As estruturas ainda funcionam, mas de forma precária, sobrecarregadas e sem condições adequadas de garantir um atendimento digno. O resultado é o aumento do tempo de espera, a sobrecarga dos profissionais remanescentes e, inevitavelmente, a queda na qualidade assistencial.

É importante destacar que a medicina não se faz por produtividade isolada. Atender mais pessoas em menos tempo, sem as condições adequadas, não representa eficiência — representa negligência institucionalizada. O SUS foi concebido para garantir acesso universal, mas também atendimento humanizado e resolutivo.

Diante desse cenário, o Sindicato dos Médicos do Estado de Mato Grosso (SINDIMED-MT) não poderia se omitir. Ingressamos com ação judicial para assegurar condições mínimas de trabalho e atendimento à população. A Justiça já reconheceu a gravidade da situação e determinou que a Prefeitura apresente, no prazo de 15 dias, documentos que comprovem a eventual redução de médicos nas unidades e justifique tal decisão.

Essa decisão judicial reforça aquilo que temos denunciado: não há transparência nem fundamentação técnica clara para as mudanças implementadas. Reduzir profissionais em um sistema já sobrecarregado não é ajuste — é um retrocesso.

Reafirmo que não se trata de uma disputa política, mas de uma defesa inegociável da saúde pública e da dignidade humana. Médicos não são números substituíveis, e pacientes não podem ser tratados como estatísticas.

Seguiremos vigilantes, atuando dentro da legalidade e do compromisso ético que rege nossa profissão, para garantir que a população de Cuiabá tenha acesso a um atendimento seguro, digno e de qualidade. A saúde não pode esperar — e tampouco pode ser tratada com improviso.

Porque, ao final, toda decisão na saúde pública tem um impacto direto: a vida de alguém.

*Adeildo Lucena é médico e presidente do Sindimed-MT

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