SÉRIE – Verso e reverso de Mato Grosso (9)

Eduardo Gomes

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Nono capítulo da Série Verso e reverso de Mato Grosso, com postagem de segunda a sábado, abordando aleatoriamente fatos dos municípios mato-grossenses e figuras da nossa história recente.

 

Cidade do Vaticano, quinta-feira 6 de maio de 2010. O papa Bento XVI eleva as mãos aos céus, dá graças e sorri logo após chancelar a concessão honorífica de Monsenhor ao sacerdote Ermínio Celso Duca, o padre Celso Duca, italiano radicado na cidade mato-grossense de Araputanga, na faixa de fronteira com a Bolívia, onde há 35 anos evangelizava, realizava obras, criava mecanismos de geração de renda e emprego, e promovia desenvolvimento econômico e social. Monsenhor Celso Duca foi incorrigível sonhador e a região de Cáceres, que é o polo regional de Araputanga, deve muito a ele.

Nascido no dia 24 de novembro de 1928 em Talamona, na Lombardia, Itália, Ermínio Celso Duca tinha vocação sacerdotal desde a infância. Em 12 de junho de 1954 foi ordenado padre e pouco depois enviado para a cidade de Montanha, na Diocese de São Mateus, no Espírito Santo.

Em meados dos anos 1970 Araputanga era uma das glebas de Cáceres – nome dado às vilas na região, e dentre elas a Gleba Paixão, bem pequena e cuja economia era sustentada pelo cultivo do arroz secundado pela pecuária. Gleba Paixão foi rebatizada com o nome de Araputanga.

Na década de 1970 era intenso o fluxo migratório de mineiros e capixabas para Jauru, Figueirópolis D’Oeste, Indiavaí, Lambari D’Oeste, Rio Branco e Salto do Céu; e de paulistas e paranaenses para Mirassol D’Oeste, São José dos Quatro Marcos, Reserva do Cabaçal, Glória D’Oeste, Porto Esperidião e Pontes e Lacerda, além da própria Araputanga. Os caminhões trucados que transportavam mudanças para essas vilas que começavam, compravam arroz em casca ou beneficiado em máquinas de benefício, na região, para que tivessem retorno – no jargão rodoviário a carga no sentido inverso do frete que originou a viagem.

Máquina de benefício de arroz ou simplesmente máquina de benefício quase sempre era o principal endereço comercial nas glebas. Os produtores de arroz acompanhavam o vaivém dos caminhões, e por força das circunstâncias entregavam seu produto a preço de banana e ainda enfrentavam viciadas classificação do produto por maquinistas ou motoristas atravessadores.

Em 23 de março de 1975 padre Celso Duca chegou em Araputanga e viu a exploração sobre os produtores de arroz. Diante disso, promoveu reuniões para fundar uma cooperativa que estancasse aquela situação e que permitisse lucro aos donos das lavouras, então de toco, com o cereal sendo plantado com a utilização de máquinas manuais chamadas matracas.

Em 19 de outubro de 1975 padre Celso Duca à frente de um grupo de 31 produtores de arroz fundou a Cooperativa Agropecuária do Noroeste de Mato Grosso (Coopnoroeste). O arroz entrou em queda, engolido pela pecuária, mas o espírito cooperativista foi mantido e a Coopnoroeste viu na pecuária a melhor linha para movimentá-la.

Em Araputanga, padre Celso Duca instalou uma plataforma para receber leite de cooperados da Coopnoroeste, que entrou de sola no mercado de lácteos em Mato Grosso e num segundo passo nacionalmente.

Coopnoroeste é uma sigla feia, sem apelo para oferecer produto, e assim surgiu a linha de leite e lácteos Lacbom, hoje nas gôndolas de frios de supermercados e padarias em Mato Grosso e boa parte do Brasil.

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A Coopnoroeste cresceu e gera mais de 350 empregos diretos. Instalou postos de resfriamento de leite em vários municípios no seu entorno, montou loja agropecuária e fábrica de ração, passou a prestar assistência veterinária e agronômica aos associados. Com ela a pecuária da região de Araputanga transformou-se em importante bacia leiteira nos vales dos rios Jauru, Branco e Paraguai, com pecuaristas cooperados nos municípios de Araputanga, Reserva do Cabaçal, Indiavaí, Figueirópolis D’Oeste, Jauru, Vale de São Domingos, Pontes e Lacerda, Porto Esperidião, Glória D’Oeste, Mirassol D’Oeste, São José dos Quatro Marcos, Curvelândia, Lambari D’Oeste, Rio Branco e Salto do Céu.

Paralelamente à Coopnoroeste padre Celso Duca fundou a Faculdade Católica Rainha da Paz (FCARP), em Araputanga, onde também instalou uma gráfica, construiu centro social, criou a Escola de Educação Básica Padre José de Anchieta e em 10 de julho de 1989 botou no ar a Rádio Difusora Arco Íris AM, naquela cidade.

Com 24 horas o dia sempre ficava pequeno para o padre Celso, que mais tarde seria monsenhor Celso Duca. Onipresente na sua cooperativa e em outras atividades, o religioso não abria mão das celebrações católicas na Matriz Nossa Senhora do Rosário de Fátima, que pertence à Diocese de Cáceres.

Líder nato, respeitado, admirado e exigente, o monsenhor Celso não precisava gritar e às vezes nem mesmo falar. Bastava que olhasse com o rabo do olho, para que as coisas funcionassem do modo que queria

Na quinta-feira, 20 de janeiro de 2022, aos 93 anos, o monsenhor Celso Duca fechou os olhos para sempre em Araputanga para somente voltar a abri-los no céu, junto a Deus, ao qual serviu ao longo de sua vida sacerdotal por mais de 67 anos. O velório aconteceu na Matriz Nossa Senhora do Rosário de Fátima, onde celebrava, e o sepultamento, no dia seguinte, naquela cidade.

ARAPUTANGA – Município com 15 mil habitantes e sede de comarca, Araputanga é um dos principais polo do agronegócio na faixa de fronteira. A vila (Gleba) Paixão, que mais tarde se transformaria na cidade de Araputanga, nasceu em 23 de maio de 1963, por iniciativa de Shigeyoshi Sato (o João Sato), na Gleba Paixão. A área, nos anos de 1957 e 58, sediou o fracassado projeto de colonização Ituinópolis implantado por imigrantes sul-coreanos que vieram para o Brasil fugindo da Guerra da Coreia, e japoneses.

Parte da área onde mais tarde seriam os municípios de Araputanga e Indiavaí, no entorno do projeto Ituinópolis, pertencia ao agrimensor Nelson Costa Marques, que a recebeu do governo em pagamento por serviços topográficos. Costa Marques iniciou a venda dessas terras no final dos anos 1950. Com isso surgiu o processo de povoamento na zona rural que acabou desembocando na criação da vila Paixão, por Sato.

Em 1958, antes que Sato implantasse o núcleo urbano, um dos pioneiros do lugar, Zé Cearense, abriu um bolicho naquela área. Foi efetivamente o passo inicial para a formação da cidade. O acesso à vila, em seus primeiros anos, era penoso, até que em 29 de maio de 1970, foi entregue ao tráfego a rodovia que a ligava a Cáceres.

O nome Araputanga foi sugerido por Costa Marques, pela abundante quantidade dessa madeira também conhecida por mogno, que havia nas matas da região e, hoje, praticamente extinta naquela área.

Araputanga dista 330 km de Cuiabá a Oeste, por rodovia pavimentada via São José dos Quatro Marcos, Mirassol D’Oeste, Cáceres e Várzea Grande.

 

PS – Continuem lendo a série. Na terça-feira (3) será postado o décimo capítulo.

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