Dois dedos de prosa com Pivetta e Cáceres

Eduardo Gomes

@andradeeduardogomes

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A aliança de um governador vingativo com um poderoso deputado corrupto prejudica a população cacerense e da fronteira como um todo

A bicentenária Cáceres

Lamentavelmente a Imprensa mato-grossense (com as exceções que não enchem Kombi) não sugere aos governantes e parlamentares, e – sem trocadilho – cumpre o papel de porta-voz regiamente remunerada pelos gordos cofres do Palácio Paiaguás, da Assembleia e das principais prefeituras. Fujo do lugar-comum e sugiro ao governador Otaviano Pivetta (Podemos) que instale um city gate em Cáceres e que leve o gás à Zona de Processamento de Exportação Engenheiro Adilson Domingos dos Reis (ZPE) daquela cidade.

Acredito que Pivetta, por sua visão que vai além da linha do horizonte e a vontade de fazer acontecer que demonstra antes mesmo de esquentar a cadeira de governador, abraçará as sugestões – se é que não as tem em mente.

O gasoduto Bolívia-Mato Grosso, com 645 km, que traz o gás boliviano entra no Brasil pela nossa bicentenária Cáceres, mas aquela cidade ficou privada de um city gate, que uma vez instalado permitirá a distribuição do Gás Natural Veicular (GNV) para cidades da região, por gasodutos virtuais – o transporte rodoviário – que segundo estudiosos é lucrativo num raio de 300 km.

Ou seja, com o embarque do GNV em Cáceres, ele poderá ser transportado para Vila Bela da Santíssima Trindade, Nova Lacerda, Salto do Céu, Vale de São Domingos e cidades no trajeto e nos eixos de influência das rodovias utilizadas para tanto. Não é necessário dizer sobre a importância comercial e ambiental dessa matriz energética.  A ZPE, recém-inaugurada e praticamente inativa exige ser contemplada com o gás. Pivetta precisa estender um gasoduto até ela, para que suas futuras indústrias tenham a vantagem que é dada ao parque industrial em Cuiabá, com o gás.

O que aconteceu para que o city gate fosse implantado em Cáceres?

O gasoduto começou a ser construído da Bolívia para o Brasil em 1999, mas seu planejamento aconteceu alguns anos antes, quando Dante de Oliveira era governador e Márcio Lacerda – o mais cacerense entre os cacerenses adotados – era vice-governador. Dante estava rompido com Márcio e como forma de vingança não permitiu a instalação de um city gate naquela cidade. Em 1998 Dante foi reeleito, mas trocou o vice: tirou Márcio e botou Rogério Salles. Em 2001 a obra foi concluída, mas a inauguração somente aconteceu em 7 de março de 2002, como parte da programação de despedida de Dante do governo, para disputar o Senado. Em 6 de abril daquele ano, Rogério assumiu o governo e o concluiu.

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Tanto quando do planejamento para o gasoduto, quanto de sua conclusão e inauguração, o deputado estadual José Riva controlava a Assembleia Legislativa. Riva, porém, não defendeu Cáceres e região, permanecendo calado, o que significava que seus pares o acompanhavam ou eram silenciados; quando do corte simbólico da fita a legislatura tinha a seguinte composição: Riva, Humberto Bosaipo, Emanuel Pinheiro, Pedro Satélite, Alencar Soares, Silval Barbosa, Chico Daltro, Eliene Lima, Serys Slhessarenko, Carlos Brito, Renê Barbour, Moacir Pires, Romoaldo Júnior, Dito Pinto, Joaquim Sucena, Hermínio Barreto, Carlão Nascimento, Amador Tut, Jair Mariano, Nico Baracat, José Carlos de Freitas, Wilson Dentinho, Zé Carlos do Pátio e Gilney Viana.

Riva tinha motivos pessoais para não defender Cáceres. Em 2002, o ano da inauguração do gasoduto, sua mulher Janete Riva foi companheira da chapa tucana de Antero Paes de Barros ao governo. A chapa Antero/Janete Riva foi derrotada por Blairo Maggi, e se tivesse vencido Riva teria expandido seu poderio político familiar que incluía seus irmãos Priminho Riva e Paulo Rogério Riva, o primeiro prefeito de Juara, e o outro, de Tabaporã.

Dante quis perseguir Márcio, mas a perseguição atingiu foi a população cacerense e da região. Imaginem o tamanho do desembolso ao longo de 24 anos, para os abastecimentos dos carros que poderiam ter sido convertidos para o combustível GNV? Se na presidência da Assembleia estivesse um político que defendesse o interesse público ao invés de sua voracidade por cargos eletivos para sua família, haveria manifestação, o que inevitavelmente levaria Dante a ceder.

Riva ao invés de cumprir o papel do verdadeiro parlamentar, juntou-se ao governador Dante numa aliança sem registro documental, mas com sérias consequências financeiras para quem é proprietário de veículo passível de conversão para o GLT numa área com dezenas de municípios. A aliança entre eles, que prejudicou os municípios da fronteira e da faixa de fronteira é uma das facetas de parte do período de maior corrupção nos cofres públicos mato-grossenses: em delação premiada homologada pelo desembargador Marcos Machado, do Tribunal de Justiça, Riva reconheceu que esteve à frente de um esquema que surrupiou 175 milhões dos cofres públicos.

A bancada federal em 2002, quando da inauguração, era fraca e mesmo tendo o cacerense Pedro Henry na Câmara, nada falou. A representação na Câmara era feita por Henry, Wellington Fagundes, Wilson Santos,  Teté Bezerra, Lino Rossi, Murilo Domingos, Celcita Pinheiro e Antônio Joaquim; no Senado, por Antero, Jonas Pinheiro e Carlos Bezerra.

Que ninguém ache exagerado o que digo. Pivetta foi prefeito de Lucas do Rio Verde e enfrentou uma vingança política de Dante: o governo estendeu o linhão de energia de Cuiabá a Alta Floresta. A energia foi rebaixada em todas as cidades do trajeto, menos em Lucas, por pirraça para prejudicar o prefeito que era adversário do governador. O rebaixamento somente aconteceu após uma silenciosa revolta popular, que resultou na derrubada de torres de transmissão, por duas vezes, o que levou o governo a recuar e garantir a energia firme que Lucas precisava.

Portanto, não peço muito. Quero apenas justiça. Afinal vivemos novos tempos, com Mato Grosso no caminho do desenvolvimento e cada vez mais distante dos governos feitos com o fígado e da Assembleia sendo um antro de corrupção e de submissão ao governante.

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