Os 50 anos da inauguração da BR-163, numa solenidade em 20 de outubro de 1976, ganharam esta série, que vai além da rodovia em si e mergulha no Nortão – sua base territorial em Mato Grosso. Essa grande longitudinal arrastou para as cidades que surgiram em suas margens e em seu eixo de influência, figuras do Brasil inteiro e do exterior.
Todos identificados com a BR-163 contribuíram para o crescimento e o desenvolvimento do Nortão, Mato Grosso e o Brasil. Cada um em sua área de atuação assentou um tijolo, botou argamassa e deixou seu DNA na consolidação de uma região próspera, com boa qualidade de vida e que em breve será o Estado de Mato Grosso do Norte.
Aleatoriamente focalizo 10 personagens do Nortão neste capítulo, todos merecedores, mas admito que deixei fora do texto um número ainda maior, que a exemplo dos citados, poderia fazer parte desta obra jornalística. Peço desculpas pela não citação, que leva em conta somente a questão da limitação do espaço, sob pena de transformar o material em livro. Boa leitura!
Parente do papa
Sol de 41º em Cuiabá. As ruas tomadas pelo povo. Todos os olhares voltados para o trajeto por onde passaria o Papamóvel. Espremido na multidão, Henrique Oleinik está ali por duas razões, ambas com o mesmo sentido: ver o papa e lhe perguntar em polonês sobre seus vínculos familiares com Alfreda Oleinik Wojtyla. Os pais de Alfreda nasceram em Wadowice, no Sul da Polônia, berço natal de Sua Santidade.
Henrique viu o papa e se emocionou. Na hora em que a comitiva papal passou perto dele, sequer pensou em algo. Mal conseguia enxergar, pois os olhos estavam marejados. Somente algum tempo depois se deu conta de que seu desejo de questionar o líder católico não seria realizado. Um rígido esquema de segurança o mantinha longe do altar onde o papa João Paulo II celebrava a santa missa. Karol Józef Wojtyla adotou o nome de João Paulo II ao assumir a Igreja Católica. Em 27 de abril de 2014 o papa Francisco o canonizou e ele tornou-se São João Paulo II.
Em 17 de outubro de 1991, um dia depois da visita do papa a Cuiabá, Henrique voltou para Santa Rita do Trivelato carregando consigo um vazio no peito, pois tudo que ele gostaria era a confirmação que nas veias de Alfreda, sua mãe, corria o mesmo sangue do Pontífice. Se houvesse parentesco entre ela e ele, consequentemente, ele seria um Wojtyla tanto quanto a figura central da Santa Sé.
Gaúcho de Guarani das Missões, Henrique morou 15 anos em Cascavel, no Paraná, mas teve que deixar aquela cidade depois que se meteu em uma enrascada com gente perigosa. Para ficar longe de seus problemas, ele decidiu deixar a terra paranaense. Tentou encontrar um lugar tranquilo no Paraguai, e nada; em Rondônia, também não. Até que um corretor lhe falou sobre Santa Rita, que estava nascendo.
Com o nome Santa Rita na cabeça, sem pensar duas vezes pegou o bimotor EMB 820 Navajo que traria compradores de terras a Mato Grosso. Uma rápida escala para abastecimento num lugar que ele não recorda. A retomada do voo e em pouco tempo seus olhos se depararam com o verde sem fim da mata na calha do Teles Pires. O avião pousou na picada aberta para a vila, numa pista que não existe mais. Quatro casas de madeira. Apenas quatro, marcavam a presença humana no vazio naquele canto da Amazônia Mato-grossense.
Com os ouvidos zunindo pelo voo, Henrique desceu do avião. Era terça-feira, 28 de novembro de 1978. Botou os pés no chão. Olhou para todos os lados. Só enxergou paz e liberdade. “É aqui; pra sempre” pensou. Nunca mais saiu de lá, salvo para buscar a mulher Wanda e a filharada. Desde então mora na Rua da Arara – que à época ainda não tinha esse nome – no número 2.221.
Agradável, sorridente e falante Henrique se deixou arrastar pela política. Em 2000 foi eleito vereador na primeira legislatura do município, pelo PMDB. “Foi para ajudar a formar nossa cidade”. Com a facilidade que entrou, saiu dos meios políticos, mas uma coisa ele não consegue abandonar, “gosto muito do PMDB; sempre gostei muito”, revela, mas com a ressalva que sua grande paixão é a família: Wanda, os sete filhos e a escadinha de netos. Henrique cuida de seu estabelecimento comercial e fica de olho nos outros negócios que toca com a filharada.
Verdadeiramente uma santa
Os motores dos tratores ainda fumegavam após a abertura da clareira para fundar Vera, no Nortão, quando Irmã Adelis ali chegou em 28 de agosto de 1972 pelas mãos do colonizador da região, Ênio Pipino, que em 27 de julho daquele ano inaugurou aquela vila.
Ali, Irmã Adelis iniciou a ímpar trajetória humanitária no Nortão cuidando de doentes, onde a malária e as balas das armas de fogo matavam implacavelmente, a ponte de surgir a máxima popular, “Aqui se morre de bala ou malária, ou ainda de balária”.
Adelheid Helena Schwaenen era o nome civil dessa religiosa alemã da Ordem Missionária do Santo Nome de Maria, que chegou ao Nortão acompanhada por outras irmãs de sua congregação
Era lento o processo de ocupação de Vera, por seu modelo econômico alicerçado na extração vegetal e na agricultura. No entanto, três anos depois que Irmã Adelis iniciou seu trabalho na vila criada por Ênio Pipino começou o Ciclo do Ouro no Nortão, com epicentro em Peixoto de Azevedo e sua vizinha Matupá. O garimpo arrastou milhares de pessoas para aquela área.
Garimpeiros acometidos pela malária morriam sem nenhum tipo de assistência médica e Irmã Adelis e as demais freiras de sua congregação compreenderam que seria preciso estender as mãos àquelas vítimas da aventura garimpeira. Assim, em 12 de fevereiro de 1986, as religiosas passaram a atuar no Centro de Atendimento de Matupá – que virou Hospital da Malária – e que foi construído num terreno doado pela Agropecuária Cachimbo, colonizadora do lugar.
Garimpeiros ardendo em febre recorriam à Casa da Malária e o nome de Irmã Adelis virou referência na região. Seu trabalho humanitário reforçado com uma equipe médica salvou muitas vidas, numa área caracterizada pelo vácuo do Estado, inclusive na saúde, e onde donos de farmácias exploravam a tragédia humana vendendo quinino e aplicando soro em vítimas da malária, cobrando de acordo com a coloração do medicamento: o azul era o mais caro; em ordem decrescente, o amarelado, e finalmente o incolor. A cor azul era obtida com anilina no soro; o amarelado, por mistura do refresco em pó Tang, sabor tangerina – não havia respeito à vida.
Extremamente religiosa, Irmã Adelis encarava seu trabalho como missão divina a serviço da vida. Em 1989 a entrevistei e fiquei impressionado. A religiosa contou que um garimpeiro maranhense, já velho e desiludido, contraiu malária e teve rápida recuperação, depois de ficar com um pé na cova e outro na vida, período em que a Irmã Adelis foi onipresente na cabeceira de seu leito, e de mãos dadas com ele pedia a Deus para livrá-lo daquela doença tropical. Às vésperas de deixar o leito, ele contou que pretendia voltar para Carolina (MA), sua terra, mas que antes queria presenteá-la com o que tinha de mais valioso: um revólver Taurus calibre 38. Irmã Adelis não demonstrou o susto que levou. O paciente pegou a arma em seu bucho* jogado num canto da enfermaria. A freira aceitou o trêsoitão e o garimpeiro deixou o hospital. Uma hora depois o trabuco estava em poder da Polícia Militar. “Não podia recusar o presente; afinal, via naquele ato de generosidade de um homem rude a possibilidade de tirar uma arma de circulação”, comentou.
Irmã Adelis foi bálsamo, consolo e enfermeira de milhares de garimpeiros e dos moradores do Nortão, vítimas da malária, a doença tropical transmitida pela fêmea do mosquito anofelino.
Enferma e muito debilitada, Irmã Adelis foi para Maringá, no Paraná. Fechou os olhos em 24 de fevereiro de 1998.
Na terra, Irmã Adelis foi anjo de luz. Ao fechar os olhos virou estrela. Brilha no céu.
*Bucho é um saco amarrado pela boca e que substitui a mala.
O autor do nome do município
O sitiante Adelmo Ragnini
Católicos reunidos para uma reza dominical, numa vila no Nortão, que sequer denominação oficial tinha, encontraram o nome para aquela localidade. Isso na Igreja de Nossa Senhora Aparecida, exatamente num dia 12 de outubro, dedicado a ela, que é Padroeira do Brasil.
O texto abaixo foi extraído de parte do capítulo dedicado ao município de União do Sul, no livro Nortão BR-163: 46 anos depois, de minha autoria, publicado em Cuiabá, no mês de dezembro de 2016, sem apoio das leis de incentivos culturais:
A igreja onde o nome foi escolhido
Mãos – Entendimento zero. Uns defendiam Nova Concórdia em alusão à cidade de Concórdia (SC), de onde procediam. Outros apresentavam várias opções. A consensualidade parecia algo impossível na tarde do domingo 12 de agosto de 1984, quando um grupo de moradores se reuniu para escolher a denominação da vila, após rezar o terço na Igreja Nossa Senhora Aparecida. A discordância deu lugar ao consenso após o sitiante e dono de serraria Adelmo Ragnini, gaúcho de Cacique Doble, sugerir União do Sul.
A sugestão soou bem e caiu no agrado por simbolizar o estado de espírito dos pioneiros da vila União ou vila Paralelo 16, como era chamado o recém-fundado vilarejo, hoje cidade de União do Sul, na calha do rio Tartaruga.
Adelmo deve ser caso único de cidadão brasileiro residente numa cidade cujo nome foi por ele escolhido e diz que se sente feliz pela aceitação de sua sugestão. “Poucos homens escolheram o nome de sua cidade; eu sou um deles”, comentou com uma ponta de orgulho, que nem mesmo sua simplicidade e mãos calejadas no trabalho diário conseguem esconder.
O pai da soja no Nortão
Munefumi Matsubara
O cerrado e a mata de transição, no Nortão, viraram cenário econômico e ganharam função social com o cultivo da soja e com a rotação da cultura com o milho safrinha e o algodão. Até 1978 ambos os biomas deixavam com o pé atrás os produtores de soja interessados na região, pois até então não havia nenhum indicativo de que a leguminosa se adaptaria bem naquela área abaixo do Paralelo 13.
Em Mato Grosso, abaixo do Paralelo 13, o arroz de sequeiro era a única cultura em escala. Em meio às dúvidas e incertezas o sonhador nissei Munefumi Matsubara botava a mão na massa – e no bolso – amansando o solo para a chegada da soja, que hoje é o carro-chefe da economia mato-grossense.
Pioneiro do cultivo da soja abaixo do Paralelo 13 em Mato Grosso, Matsubara acreditou na viabilidade desse projeto na região. Na fazenda Progresso, de 10 mil hectares, no município de Sorriso e perto de Lucas do Rio Verde Matsubara desenvolveu pesquisas agronômicas que lhe deram uma facada de US$ 1 milhão, entre 1972, quando arroz, e safra 77/78, quando cultivou a leguminosa em campos experimentais e em lavouras, senado a maior, de 3.600 hectares, com a cultivar UFV-1 da qual colheu 15 sacas por hectare.
O dinheiro que saiu do bolso de Matsubara resultou na pesquisa que abriu a porteira para a soja no eixo de influência da Rodovia Cuiabá-Santarém (BR-163) no Nortão.
Paulista de Vera Cruz e ex-morador no Paraná, Matsubara residiu em Sinop, onde militou nos meios empresariais.
Discreto, Matsubara não se preocupava em alardear seu feito e até desconversava sobre ele. Sua obra fala mais alto sobre a soja do que todas as vozes.
Seu ciclo de amizades lhe dispensava o carinhoso tratamento de seo Muni. Entre os produtores rurais era tratado com deferência e muitas foram as homenagens que o setor lhe rendeu. Da Assembleia Legislativa recebeu o Título de Cidadão Mato-grossense.
Vítima de um câncer, Matsubara morreu na madrugada do sábado, 7 de setembro de 2019, em Sinop, aos 81 anos. Seu corpo foi velado no Memorial Luz e Vida naquela cidade e em seguida transladado para Maringá (PR), onde foi sepultado.
A morte não separou Matsubara do Nortão. Lá, enquanto houver uma lavoura de soja sendo semeada, cultiva, colhida e transportada, ele estará ali representado por sua visão, ousadia e seus sonhos que ajudaram transformar o cerrado daquela região num dos sustentáculos da política de segurança alimentar mundial
Servo de Deus
Uma surrada batina, a estola e uma mala com os poucos pertences de uso pessoal. Isso foi tudo que o padre capixaba João Salarini, da Diocese de Diamantino, levou em 1973 para o local onde o colonizador Ênio Pipino rasgava a floresta para construir Sinop. Naquela cidade padre João Salarini escreveu uma singular página de solidariedade humana, de abnegação e de evangelização.
Nos primórdios de Sinop a malária era hiperendêmica e sacerdote tinha que se multiplicar ora atendendo vítimas daquela doença tropical ora evangelizando. Padre João Salarini soube bem ser plural na cidade que brotava no solo vermelho na calha do rio Teles Pires, no Nortão de Mato Grosso, onde isolamento era marca registrada ao lado da ausência do Estado.
Em 2006 o entrevistei. Ouvi relatos interessantes sobre a colonização de Sinop e da atuação da Igreja Católica naquela região. Figura humana expansiva, mesclava assuntos relevantes com tiradas de bom humor. Logo após me contar o drama de um peão que foi atingido por uma árvore durante uma derrubada com trator e que agonizava no leito da morte pedindo clemência a Deus por seus pecados, mudou de assunto focalizando sua popularidade na cidade. Disse-me que quando caminha pelas ruas até os cachorros dizem: “Lá vai o padre João Salarini”.
Avesso à ociosidade, sobre aposentadoria padre João Salarini dizia que sacerdote somente se aposenta quando morre. Um ataque cardíaco o aposentou aos 78 anos, dos quais 46 de sacerdócio, na madrugada de 3 de setembro de 2007, numa unidade de terapia intensiva (UTI) do Hospital Santo Antônio, em Sinop.
Do legado do padre João Salarini ao povo da metrópole que ajudou a construir à margem da Rodovia Cuiabá-Santarém (BR-163) na Amazônia Mato-grossense consta a Matriz Santo Antônio e a Catedral Sagrado Coração de Jesus, cuja idealização e construção levam suas digitais.
Morando em Sinop também evangelizou no vizinho município de Vera e aldeias indígenas. Durante alguns anos ausentou-se daquela região retornando a Diamantino, onde liderou a construção da catedral daquela bicentenária cidade histórica, que recebeu Theodore Roosevelt e o Barão de Langsdorff.
Padre João Salarini morreu seis dias antes da inauguração da Catedral Sangrado Coração de Jesus, que tornou-se a mais imponente igreja católica em Mato Grosso. Seu corpo foi sepultado ao lado daquele templo.
Em sua homenagem o então prefeito Nilson Leitão propôs e a Câmara Municipal aprovou a denominação de Praça Padre João Salarini ao largo no entorno da catedral de Sinop.
A cidade do Cacheado
O garimpeiro Cacheado
Cidade com topografia acidentada, Novo Mundo dista 30 quilômetros de Guarantã do Norte pela MT-419 pavimentada. Sem rede coletora, o esgoto da cidade é lançado em fossas. A água, de mina, chega a todos os domicílios. O município, na calha do rio Teles Pires, tem a vila Cinco Mil, distante 50 quilômetros no sentido de Carlinda, enfrenta problemas agrários e um pequeno hospital atende a saúde básica, mas a referência do SUS é o Hospital Regional de Colíder, distante 180 quilômetros.
Memória – Novo Mundo e o vizinho Guarantã do Norte tiveram a mesma origem. Ambos praticamente começaram com o Projeto de Assentamento Conjunto Peixoto de Azevedo, de 245 mil ha em área então pertencente a Colíder. Posteriormente outras glebas do Incra somaram-se àquela.
Em 1980, atendendo pedido da irmã Glícia Maria Barbosa da Silva, de Mundo Novo, em Mato Grosso do Sul, o Incra destinou 211 mil hectares na região do rio Nhandu, onde mais tarde surgiriam os municípios de Novo Mundo e Guarantã do Norte, para assentar cerca de 600 colonos daquele município e outros brasileiros que ocupavam ou eram proprietários de terras no Paraguai, os chamados brasiguaios. A execução fundiária ficou a cargo da Cotrel, que dividiu a área em cinco módulos e, em cada um pretendia criar uma comunidade com posto de saúde, campo de futebol, escola e igreja nos moldes das agrovilas idealizadas por Norberto Schwantes. Aquele que deveria ser o módulo chamado Nhandu acabou sendo deslocado para uma vila que surgiu a três quilômetros do local escolhido para sua instalação. Essa vila era a corrutela do Cacheado, às margens do córrego Grotão, e se transformaria em Novo Mundo. Os demais módulos: Cotrel, Linha Fogo, comunidade São Pedro em Nhandu e Salvador Siqueira em Nhandu, foram consolidados.
Coincidentemente com o assentamento dos parceleiros o ouro foi descoberto na região e aconteceram levas migratórias que mudaram seu perfil. Com isso a corrutela do Cacheado ganhou novos moradores.
Alguns chamavam a vila do Cacheado de vila Ouro Novo, porque ela se localizava numa área onde uma mineradora com aquele nome extraía o metal. O nome Novo Mundo foi escolhido em 1983, por assentados oriundos de Mundo Novo. É uma inversão da denominação para diferenciá-lo daquele município e não tem relação com a Ouro Novo.
O garimpo fazia fortuna da noite para o dia. Porém, deixava para trás um rastro de violência com mortes e feridos nas incontáveis brigas por motivos fúteis em cabarés e nos baixões. Acrescente-se a isso a tragédia da malária, que ia além de casos isolados e -setransformava em hiperendemia. Quem a enfrentava era o farmacêutico cuiabano e um dos pioneiros, Maurindo Ramos, da Drogaria Ramos. Maurindo era a única arma contra a doença. Com seu microscópio fazia lâmina e medicava garimpeiros, prostitutas e comerciantes do lugar. Além disso, segundo ele, não eram poucos os casos de blenorragia – a famosa gonorreia – e outras doenças sexualmente transmissíveis que infestavam os garimpos.
Cacheado e Maurindo são os dois principais personagens de Novo Mundo. Cacheado tornou-se fazendeiro. Maurindo atendeu mais de 10 mil casos de malária, mas aposentou o microscópio e retornou a Cuiabá.
Novo Mundo pertencia a Guarantã do Norte e emancipou-se em 17 de novembro de 1995 por uma lei de autoria do deputado Jorge Yanai aprovada pela Assembleia Legislativa e sancionada pelo governador Dante de Oliveira.
Cacheado – Cacheado é o apelido do garimpeiro e primeiro comerciante do lugar, o piauiense de Campo Maior, Antonio Alves da Silva, que chegou ao Nortão em 1979, quando tudo na região se resumia ao garimpo de ouro.
Cacheado sentia na pele o vácuo do Estado na corruela por ele fundada no garimpo que lhe pertencia. Via seus companheiros de trabalho morrerem vítimas da balária – mistura de bala e malária -, garimpava sem as mínimas condições de segurança, testemunhava o raiar e o ocaso do sol com crianças nas ruas por falta de escola.
Aluno da escola do mundo, Cacheado assina o nome. Ausente do banco escolar pela dureza da vida, retribuiu com grandeza essa adversidade: construiu as duas primeiras escolas de Novo Mundo. Vítima de derrame cerebral, Cacheado se recupera na Estância Repouso, à margem da BR-163. Com dificuldade de fala, resume seu sentimento sobre a cidade que fundou: “Tenho olhos bons para os lados de lá”.
O médico mais antigo do Nortão
Nortão, 1979. Jorge Yoshiaki Yanai chega à recém-fundada e emancipada Sinop. Na bagagem o diploma de médico outorgado pela Universidade Federal do Paraná. Na cabeça planos para exercer a profissão e se enveredar pela pecuária. Política não povoava sua mente.
Sinop era uma cidade insalubre, assolada pela malária e também destino regional de vítimas de cobras, escorpiões, abelhas e queda de galhada na região. Cirurgião e ginecologista, o doutor Jorge Yanai tornou-se uma das referências em sua área para a população do município.
De referência à líder político o médico subiu ao palanque. Para ele, a candidatura era novidade, coisa que encontrou em Sinop e com a qual nunca havia pensado em sua terra natal, Bandeirantes, no Paraná.
As urnas foram generosas com o doutor Jorge Yanai em sua primeira candidatura e ele elegeu-se deputado em 1990. Cumpriu o mandato e se orgulha de seu posicionamento em plenário, sempre em defesa do Nortão. A política lhe roubou o título de doutor e lhe deu identidade parlamentar. Virou deputado Jorge Yanai. Em 2002 o senador e candidato à reeleição Jonas Pinheiro o convidou para segundo-suplente de sua chapa, que foi a vencedora. Jonas morreu e foi sucedido pelo primeiro-suplente Gilberto Goellner.
Numa composição política, Goellner licenciou-se no Senado e, Yanai, mais uma vez, perdeu um título para ganhar outro. Deixou de receber tratamento de doutor e virou senador. Com sua curta passagem pelo plenário entre 6 de maio de 2010 e 9 de setembro daquele ano, foi rebatizado. Mais que chegar ao plenário ele se tornou o primeiro senador de origem japonesa, condição essa que lhe deu notoriedade nacional.
Em 2008, o senador Jorge Yanai (DEM) foi candidato a vice-prefeito do empresário paulista Paulo Fiúza (PV) em Sinop e sua chapa foi superada pelo radialista paranaense Juarez Costa (PMDB). Na eleição de 2014, pelo PMDB, voltou à suplência no Senado, na condição de primeiro-suplente do senador Wellington Fagundes (PR).
Continua exercendo a medicina. É o médico há mais tempo em atividade no Nortão, onde dirige seu hospital em Sinop e desenvolve projetos sociais.
A função social da terra
Jair Mariano
Carrinho de picolé empurrado por homem maduro, de semblante triste, com roupas surradas, chinelos e o olhar perdido na linha imaginária do horizonte. Todos já viram esse quadro. Nem todos tiveram oportunidade de conversar com os personagens que protagonizam essa cena.
Normalmente o vendedor de picolés e sorvetes no carrinho colorido e com a buzina que faz a festa da criançada é ex-trabalhador rural que após esgotar sua força física ajudando abrir fazendas, formar invernadas e construir cercas perde o emprego para outro, mais novo, e engrossa a silenciosa fileira do êxodo que esvazia o campo e incha a periferia das grandes e médias cidades mato-grossenses.
Vendedor de picolés não é o único exemplo da migração silenciosa para os bairros periféricos. Vigilantes noturnos e trabalhadores que se oferecem para limpar quintais também carregam o DNA dos brasileiros anônimos que na força dos braços ajudaram fazendeiros de gado e produtores rurais a transformar Mato Grosso no campeão nacional da carne, grãos e plumas de algodão.
Por não participar de movimentos organizados, pela idade considerada avançada para o serviço braçal e principalmente pela insensibilidade do governo em todas as suas esferas, o ex-trabalhador rural com 45 anos ou mais é descartado da atividade econômica e sobrevive de bicos com o carrinho de picolés, com o apito de vigilante…
“Mato Grosso tem uma grande dívida social com essa gente (os personagens do carrinho de picolés)”, argumentou o então deputado estadual Jair Mariano ao apresentar o projeto que foi aprovado pela Assembleia Legislativa e sancionado em 24 de abril de 2000 pelo governador Dante de Oliveira e transformou-se na Lei 7.271, que criou o Programa de Assentamento de Trabalhadores Rurais Nossa Terra, Nossa Gente.
Graças a essa lei o governo de Mato Grosso assentou 1.198 famílias em 40 municípios, retirando da informalidade homens e mulheres com idade igual ou acima de 45 anos, com perfil idêntico ao do vendedor de picolés figurado na abertura deste texto.
Quem tem mais de 45 anos e nessa quadra da vida perdeu o emprego no campo, que foi para a periferia da cidade e posteriormente recebeu uma parcela do Nossa Terra sabe avaliar o que significa a lei criada por Jair Mariano. Quem se dispuser a analisar sobre o caso, também entenderá sua importância.
Peça complementar no contexto da reforma agrária, o Nossa Terra foi implantado nas imediações das cidades para reduzir o custo de sua infraestrutura (rodovia, energia, transporte escolar etc.) e para aproveitar a estrutura urbana em benefício do parceleiro (posto de saúde, escola, segurança, prestação de serviços e mercado para a produção da agricultura familiar). Suas parcelas variam entre 1,2 hectare e 2,5 hectares, que contam com moradia de alvenaria, energia e uma cultura-âncora, para assegurar maior volume de produção, o que facilita a conquista de grandes clientes.
Jair Mariano é mineiro de Guaxupé, morou no Iraque e optou por Mato Grosso instalando oficina de refrigeração em Alta Floresta. Foi deputado estadual pelo PPS (1999/2002). Presidiu o Instituto de Terras de Mato Grosso (Intermat), onde executou o Nossa Terra, no primeiro mandato do governador Blairo Maggi (2003/2006).
Ao criar o Nossa Terra, Jair Mariano abriu horizontes para milhares de mato-grossenses natos ou não. Do mesmo modo, tirou o ranço da luta de classes e da politização da reforma agrária, mantendo-a exclusivamente na esfera do enfoque da justiça social corrigindo uma grave injustiça que Mato Grosso – ainda – comete contra tantos que deram o melhor de sua vida no campo e que à véspera da terceira idade são abandonados à própria sorte na zona urbana.
Nossa Terra foi descartado no segundo governo de Blairo (2007/2010). O ex-governador Silval Barbosa não o recriou e seus sucessores Pedro Taques e Mauro Mendes, também não. A insensibilidade que começou com Blairo e continua.
O Rei do Ouro
O garimpeiro Cabeça
Uma espécie de Rei do Ouro em Alta Floresta, Cabeça dava as cartas na pista que levava seu nome. Numa madrugada, depois de um show artístico, tendo por testemunho a Floresta Amazônica, sob a luz oscilante gerada por um barulhento motor estacionário e num ambiente impregnado pelo azedume da cerveja derramada e as bitucas de cigarro pelo chão, dona Maria Odete rebolou Conga, Conga, Conga para ele num momento eternizado em sua memória – afinal quem rebolava era ninguém menos que a Rainha do Bumbum.
Mais de 10 mil garimpeiros extraíram grande quantidade de ouro na Pista do Cabeça no ciclo daquele metal no Nortão. Ele sustentava que 60 toneladas foram arrancadas naquele garimpo. Quem controlava a área de 19 mil hectares da pista era o paraibano Eliézio Lopes de Carvalho, o Cabeça, que recebeu uma montanha dourada como pagamento de sua parte no garimpo e por remédios, gasolina, diesel, bebidas, mulheres, alimentos e munição que fornecia aos garimpeiros, além do transporte aéreo que fazia com seus aviões. Cabeça jurava que por seus bolsos passaram 12 toneladas – pode ser exagero, mas ele sustentava a afirmação com fé. Sua autoridade, segundo ele, era conferida pelos direitos minerais que teve e seu espírito de liderança.
Os donos das pistas no Nortão e Pará faziam chover e acontecer. Nos anos 1980, com o garimpo em alta, Cabeça foi um dos mais importantes e estavam sob seu poder a segurança, saúde, as regras sociais e a economia dos milhares de garimpeiros de todos os cantos do Brasil que viviam a aventura do ouro na Pista do Cabeça localizada na calha do rio Paranaíta, da Bacia do Teles Pires, em Alta Floresta.
A pista foi construída em quatro dias, inaugurada em 2 de dezembro de 1981 e funcionou até 1985, quando o governo abriu uma rodovia que esvaziou o tráfego aéreo; tinha 500 metros de extensão por 40 de largura, sem obstáculos nas cabeceiras. Antes dela para se chegar ao local somente pela ‘varação’ – que no jargão garimpeiro significa avançar abrindo picada. Cabeça contou que pela mata demorava-se nove dias para percorrer o trecho de Alta Floresta até o ponto onde a pista seria aberta. Disse ainda, que antes de anunciar a ‘fofoca’ – no mesmo jargão, a descoberta de ouro – realizou uma pesquisa na área durante 10 meses, serviço este executado por uma equipe com geólogo e engenheiro de minas. Com base na pesquisa e sua constatação, em 17 de março de 1982, com a ‘despesca’ de 2 kg de ouro por extração manual em um barranco, a Pista do Cabeça ganhou a Amazônia nas mensagens dos pilotos de garimpo e pelo boca a boca dos motoristas das camionetes que faziam o vaivém dos aventureiros na região.
2001 – Em Alta Floresta entrevistando o Cabeça
Em 2001, numa entrevista que me concedeu em Alta Floresta, Cabeça disse que em sua pista não houve violência e que ninguém desafiou sua autoridade. Sua relação com os garimpeiros às vezes ganhava contornos paternais. Fogoió, goiano solitário no mundo, ficou gravemente enfermo. Em Alta Floresta o médico Mário Nishikawa recomendou sua remoção para Cuiabá e Cabeça prontamente atendeu. Mandou um de seus aviões transportá-lo. Duas semanas depois, Fogoió voltou a fazer o que sabia e gostava: garimpar.
A paz entre os garimpeiros representava aquilo que foi o quase reino do Cabeça, na pista que levava seu nome e onde a última palavra era a dele, inclusive na hora do Conga, Conga, Conga da Rainha do Bumbum. Em nossa conversa ele evitou detalhes sobre as regras entre donos de pistas e garimpeiros e também fugiu do tema saudade, mas em determinado momento, sem conseguir conter a lamúria, desabafou, “Tive muito dinheiro, bons aviões – quatro ao mesmo tempo – andei pelo mundo, mas tudo passou”.
“Tudo deu certo”, disse Cabeça sobre o ciclo do ouro. Certa vez sentindo necessidade de viajar para o exterior e arriscar a sorte em cassino de luxo, embarcou para os Estados Unidos, após enfrentar a burocracia pelo passaporte. Em Las Vegas, depois de uma noite na jogatina, voltou para o hotel com 36 mil dólares a mais no bolso.
Segundo Cabeça, no auge do garimpo havia 57 pistas no município de Alta Floresta, que à época englobava Carlinda, Paranaíta e Apiacás. Nesse período sua pista chegou a registrar 80 poucos diários. Nos municípios da região e na vizinhança paraense a movimentação também era feita por aviões, por falta de rodovias.
A agora ex-Pista do Cabeça fica a 75 quilômetros de Alta Floresta. Sua desativação aconteceu em 1985 com a construção de uma rodovia que a retirou do isolamento. A vila Novo Cruzeiro, que lhe dava suporte urbano permanece e em seu entorno surgiram as comunidades rurais de Pista Nova, Pista do Padeiro, Ourolândia e outras. Sua intensa atividade garimpeira movimentou aventureiros de muitas regiões do país e sua rotatividade era muito grande. Além da pista e dos cabarés havia também um hospital improvisado para atender as vítimas da malária, uma escola para 30 crianças e estabelecimentos comerciais. Cabeça recebia parte do lucro dos comerciantes e do ouro extraído, além de cobrar por pouso dos monomotores e bimotores que ‘faziam o garimpo’ – o tempo médio de voo de Alta Floresta à pista era de 15 minutos e a passagem custava 6 gramas de ouro – ninguém podia transportar equipamento ou diesel para a pista, onde Cabeça monopolizava esse mercado.
Pista do Cabeça virou referência regional. Até 13 de maio de 1986 ela pertencia a Alta Floresta, mas naquela data o governo emancipou Nova Canaã do Norte e a mesma tornou-se seu distrito. Uma revisão territorial a devolveu ao município de origem, mas sem o status de distrito.
Cabeça promoveu 36 shows nacionais para animar as noitadas dos garimpeiros e desanuviar o ambiente sempre tenso, competitivo e de desconfiança no garimpo. José Augusto, Cláudia Barroso, Amado Batista, Waldick Soriano, Walter Basso, Nelson Ned, Donizete e Suzamar foram algumas dessas atrações. Gretchen fez um show por lá e na madrugada rebolou Conga, Conga, Conga para o anfitrião. Essa senhora simplesmente era a rainha da preferência nacional.
Adeus – Alta Floresta perdeu o lendário Cabeça no final da tarde de quinta-feira, 13 de julho de 2017. Depois de 10 dias internado, Cabeça não resistiu mais ao tumor que o minou pelo abdome. Velado por amigos e antigos companheiros, o líder garimpeiro deu adeus ao mundo. Com o fim do garimpo, o dinheiro tomou Doril. Cabeça morreu pobre.
Cabeça deixou a viúva, dona Sueli de Oliveira Riker, e os dois filhos do casal: Eliézio Lopes Carvalho Filho e Hélio Wilson Riker Carvalho. Dona Sueli conheceu o marido em Santarém, onde nasceu.
Aventureiro desde a adolescência, Cabeça nunca teve parada antes de Alta Floresta, onde chegou em 1980. De família maranhense, seu local de nascimento é um segredo que o acompanhou ao túmulo. Em seu registro de nascimento lavrado em Alta Floresta consta que ele nasceu no dia 23 de julho de 1944 na cidade paraibana de Lagoinha, localidade que nunca existiu. O cartorário confiou na palavra dele enquanto declarante e na confirmação de pessoas convidadas ao testemunho. O detalhe da naturalidade não altera o histórico do homem que a Imprensa chamou de Rei do Ouro. Seu reino não acabou como seu dinheiro: virou lenda e essa é para sempre.
O médico da hidrovia
Médico, fundador e dono do Hospital Geral de Alta Floresta. Dr. Mário Nishikawa vivia intensamente a Medicina que abraçou enquanto cirurgião e voava nas asas da imaginação pelo avanço da logística de transporte em toda sua amplitude na região que adotou como sua nos primórdios da colonização da área onde um dia Ariosto da Riva lançou as sementes de Alta Floresta, Paranaita e Apiacás.
Em visita a Londrina, no Paraná, onde nasceu em 10 de setembro de 1941, Dr. Mário sentiu sintomas do coronavírus. Confirmado que contraiu a doença submeteu-se a tratamento e se recuperou, mas na sexta-feira, 25 de setembro de 2020, não resistiu às sequelas do vírus e aos 79 anos fechou os olhos para sempre, vítima de sequelas da covid.
Jovem, formado em Medicina pela Universidade Federal do Paraná, no campus de Curitiba, e motivado e incentivado pelo colonizador Ariosto da Riva, Dr. Mário desembarcou recém-fundada Alta Floresta, em 1979, e dois anos depois inaugurou o Hospital Geral, que sempre foi a grande maternidade alta-florestense.
Em 1995, em minha casa, recebi um telefonema dele. À época eu morava em Rondonópolis. Ele estava em Cuiabá. Conversamos, peguei a estrada e fui encontrá-lo na nossa capital. Almoçamos. Voltei para arrumar a mala, pois uma semana depois ele embarcaria juntamente com um grupo de pesquisadores para uma viagem pelo Teles Pires e o Tapajós, de Paranaíta a Itaituba – onde começa a navegação no chamado Baixo Tapajós.
Dr. Mário queria mostrar a viabilidade da criação de uma rota fluvial ligando Mato Grosso ao Pará. Entre a navegação, as paradas para observação e a coleta de materiais e de informações com ribeirinhos, a viagem demorou seis dias. Ele, humilde, ajudava os dois cozinheiros – ambos disseram isso – mas não se desgrudava dos pesquisadores, se inteirando sobre tudo.
Até nosso encontro em Cuiabá o havia visto uma vez, um ano antes do nosso almoço. Foi em Alta Floresta, onde o entrevistei sobre o (quase) projeto da ligação de Rondônia com o Pará, por uma rodovia Leste-Oeste, cruzando Colniza, Juruena, Nova Monte Verde, Alta Floresta, Carlinda, Novo Mundo e Guarantã do Norte. Ele vibrava com a possibilidade, ainda que remota, da consolidação de uma rota terrestre unindo os três estados. Parte desse trajeto está pavimentado e a principal obra de arte no trajeto, a ponte sobre o Juruena, com ‘1.360 metros de extensão, está em obras. Ficou com meu telefone.
Quase um ano depois da entrevista em Alta Floresta veio o convite para o almoço e a revelação que ele faria uma viagem ao estilo da aventura do capitão Antônio Lourenço Teles Pires, só que contando com embarcações e equipamentos bem diferentes daqueles utilizados pelo oficial que morreu num naufrágio no rio São Manoel, o que levou o governo a trocar seu nome para rio Teles Pires.
De avião segui de Cuiabá para Brasília, Manaus e Santarém, onde fiz conexão com um taxi aéreo que tinha frequências diárias para Itaituba, o destino final da navegação do grupo do Dr. Mário. O recebi no cais.
Dr. Mário queria ampla cobertura jornalística da viagem para mostrar a viabilidade da navegação no trecho percorrido e sua importância para a ligação de Mato Grosso com o Pará. Após entrevista-lo e conversar longamente com a tripulação e pesquisadores, retornei no mesmo avião para Santarém, onde, no dia seguinte, embarquei num voo da antiga Varig, para Cuiabá, com escalas em Manaus e Porto Velho. Ele retornou para Alta Floresta num carro que o esperava.
O conteúdo sobre essa viagem foi publicado (não confundam com postado) no jornal Diário de Cuiabá. Dr. Mário gostou da reportagem que ganhou manchete domingueira. Sempre que ia a Alta Floresta procurava visitá-lo. O via sonhador e com grande capacidade de armazenar e diversificar sonhos.
Pela defesa da criação de uma rota comercial fluvial de Mato Grosso a Itaituba e consequentemente a Santarém, Dr. Mário foi escolhido presidente da Comissão Pró-Hidrovia Teles Pires/Juruena/Tapajós da Família Rotária de Alta Floresta e em 1996 recebeu o Diploma de Amigo da Marinha, que lhe foi entregue pelo 6º Distrito Naval sediado em Ladário (MS).
Reconhecendo sua importância para o município, a Câmara de Alta Floresta denominou de Unidade de Pronto Atendimento (UPA), Dr. Mário Nishikawa, a UPA localizada na Perimetral Deputado Federal Rogério Lúcio Soares da Silva.
Alta Floresta perdeu muito com o adeus de Dr. Mário. Mato Grosso, também. O homem passa. É o ciclo da vida, independentemente da causa de sua morte. Porém, seus sonhos ficam como legado de seu caminhar sobre a Terra e sua forma de pensar. Que surjam nomes capazes de levar adiante os sonhos bons do bom Dr. Mário Nishikawa, que agora é uma estrela no firmamento a indicar caminhos ao desenvolvimento de Alta Floresta, do Nortão e consequentemente de Mato Grosso.