Ausência de Wellington na caminhada de Nikolas tem justificativa

EDUARDO GOMES

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Wellington Fagundes (PL) não participará da caminhada de Nikolas Ferreira (PL/MG), de Paracatu (MG) a Brasília, num trajeto de 240 km pavimentado nos anos 1950 pelo maior presidente do Brasil em todos os tempos, Juscelino Kubitschek. Nikolas faz um protesto literalmente com os pés no chão, para sensibilizar o país por conta da prisão de Jair Bolsonaro e mostrar possíveis abusos  do STF e até mesmo ingerência do Judiciário sobre outros poderes.

Wellington não botará os pés na estrada, por falta de condições físicas para tanto, sem que sua ausência tenha algo a ver com a pecha de melancia que muita gente em Mato Grosso joga sobre seus ombros.

Em 2015 escrevi, sem apoio das leis de incentivos culturais,  o livro Dois dedos de prosa em silêncio – pra rir, refletir e arguir. A obra é ilustrada por Generino e  a capa é de Edson Xavier. O capítulo abaixo mostra que Wellington, ainda que recuperado, não tem condições de caminhar com desenvoltura.

Boa leitura. Mato Grosso precisa ler mais.

 

Sobrevivente também obedece

O livro

“Manda quem pode: obedece quem tem juízo”. Esta frase resumiu o posicionamento do então deputado federal republicano Wellington Fagundes, no começo de 2010, quando seu sonho de disputar o Senado foi sufocado pela decisão do à época governador Blairo Maggi (PR) de deixar o Palácio Paiaguás e se lançar candidato a senador.

De certo modo Wellington é obediente à lógica política, mas ele prefere ser visto enquanto sobrevivente.

– Sobrevivente?

– Isso mesmo; é assim que o senador pelo PR, Wellington, eleito em 2014, se sente e não deixa de ter razão para tanto. Senão vejamos:

A pequena São José do Povo, que foi distrito de Rondonópolis, sempre foi bom pesqueiro de votos para Wellington. Na eleição de 2002 ele foi o mais votado para deputado federal naquela localidade, com 692 votos, seguido de longe por Augustinho de Freitas (PTB), e Teté Bezerra (PMDB), ambos com 249 votos; Teté é o nome político de Aparecida Maria Borges Bezerra.

Na sexta-feira, 19 de agosto de 2005, Wellington foi a São José do Povo em companhia do então deputado estadual Jota Barreto (PR), pra assistir um rodeio com montaria em touros e, claro, costurar seus interesses eleitorais. Barreto é casado com a professora Olinda, prima de Wellington.

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O locutor da festa anunciou sua presença. Na arquibancada o público respondeu sem muito entusiasmo. Desapontado, mas escondendo do povo a decepção, Wellington olhou para Barreto dizendo em silêncio que o terreno estava minado. Em seguida o prefeito Florisberto Oliveira (PTB) o convidou e também a Barreto, para que fossem ao centro da arena, onde receberiam homenagens. O convite e a entrega das honrarias aos dois não despertaram os espectadores.

Enquanto Wellington e Barreto eram homenageados, um mestiço bravo investia contra as cercas do brete que o prendiam à espera do rodeio. Cada vez mais enfurecido, o boi batia a cabeça e dava coices pra todos os lados.

Com a homenagem debaixo do braço Wellington caminhou para a cerca acompanhando Barreto. A arena que estava silenciosa de repente explodiu num grito a todos os pulmões: – Weeeeeeeeeeeeeelington! Weeeeeeeeeeeeeelington! Weeeeeeeeeeeeeelington! O coração de Wellington disparou de alegria. “O povo tá comigo”, pensou com seus botões. Não era bem isso. Na verdade, a arquibancada gritou para avisá-lo que o mestiço rompeu a cerca e avançava feio em sua direção.

“Pluft, pluft, pluft”. O mestiço moeu Wellington, feriu Barreto levemente, arrombou a cerca, vazou entre a multidão e entrou na lateral da primeira casa de um grupo de 25, de um conjunto habitacional do governo, que estava em obra com recursos do Fundo Estadual de Transporte e Habitação (Fethab). O boi derrubou todas as paredes de uma fileira de moradias. O animal foi contido por um método que não falha e virou carne de panela.

Levado às pressas para o Hospital Sara Kubitscheck, em Brasília, Wellington foi atendido pelo médico Aloysio Campos da Paz Júnior e sua equipe; Paz Júnior diagnosticou entre outras coisas que Wellington sofreu fratura cominutiva na perna direita – quando o osso é quebrado em pedacinhos. Resultado: muitas dores, incontáveis medicamentos, alguns pinos, meses de cadeira de rodas, muletas e bengala.

Por isso, Wellington se sente mais sobrevivente que obediente. Detalhe, em 2006, na eleição seguinte ao ataque do boi, Wellington manteve o primeiro lugar entre os candidatos a deputado federal em São José do Povo, com 533 votos ao passo que o segundo colocado, Carlos Bezerra (PMDB) patinou com 363 votos. Vale observar que Bezerra foi o governador que sancionou a lei de emancipação daquele município.

Wellington está sempre na estrada correndo atrás de votos, independentemente da proximidade ou não de eleição. Agora, mais precavido e escaldado por sua condição de sobrevivente, foge dos rodeios, mas nem por isso tira São José do Povo de seu roteiro.

Arte: Generino

Capa: Edson Xavier

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