Antes de votar, um exercício de humildade

Gustavo Oliveira*

CUIABÁ

Há alguns dias, uma antiga colega dos tempos da faculdade de Economia pediu licença em nosso grupo de WhatsApp para compartilhar suas preocupações com os rumos do país. Falou do meio ambiente, área à qual dedicou boa parte da vida profissional. Não pretendeu explicar todos os problemas brasileiros nem oferecer respostas definitivas sobre economia, segurança pública ou política. Falou daquilo que conhece.

Fiquei pensando nisso.

Cada um de nós seguiu um caminho depois da faculdade. Alguns se dedicaram à atividade empresarial, outros às finanças, ao serviço público, ao direito, à educação, ao meio ambiente ou à comunicação. Acumulamos experiências diferentes, conhecimentos específicos e convicções que foram sendo construídas ao longo dos anos.

Mas vivemos um tempo em que, aparentemente, todo mundo sabe de tudo.

As redes sociais estão povoadas por especialistas instantâneos em economia, medicina, meio ambiente, direito constitucional, relações internacionais e qualquer outro assunto que apareça na discussão do dia. Não importa a complexidade do tema. Sempre haverá alguém disposto a oferecer uma resposta definitiva, de preferência em poucas linhas e com absoluta certeza.

E quase ninguém parece disposto a ouvir.

Escolhemos um lado e, a partir daí, passamos a aceitar tudo o que confirma nossas convicções e rejeitar aquilo que as contraria. A informação deixou de ser, para muitos, um instrumento de compreensão e passou a funcionar como munição para derrotar o adversário.

Em vez de procurar compreender, queremos apenas acreditar.

Não penso que deva ser assim.

Nenhum de nós conhece em profundidade todas as dimensões da realidade. Não dominamos a história do mundo, sua geografia, suas culturas, seus conflitos e as forças econômicas e sociais que movem as nações. Mesmo nas áreas em que nos especializamos, há sempre mais a aprender.

Isso não significa que estejamos impedidos de opinar sobre assuntos que não estudamos. Significa apenas que deveríamos reconhecer os limites do nosso conhecimento e dedicar maior atenção àqueles que passaram a vida estudando determinados problemas.

Foi essa manifestação que me inspirou a fazer o mesmo exercício.

Como ela, resolvi olhar para a escolha política a partir daquilo que conheço melhor. Não da Economia, embora tenha passado por suas salas de aula, mas do jornalismo, profissão à qual dediquei minha vida.

E, desse lugar, há uma questão que considero fundamental: a liberdade de expressão.

Para quem vive do jornalismo, ela não é uma abstração constitucional nem uma frase conveniente para discursos políticos. É a condição indispensável para o exercício da profissão.

Um jornalista precisa ter liberdade para investigar governantes, denunciar irregularidades, questionar decisões, revelar informações inconvenientes e publicar opiniões que desagradam a quem exerce o poder.

Precisa poder fazer isso sem receio de intimidação, perseguição ou retaliação.

A imprensa não está acima da crítica. Jornalistas erram, veículos de comunicação cometem equívocos, reportagens podem ser contestadas e opiniões merecem ser confrontadas. A liberdade que reivindicamos para nós deve valer igualmente para aqueles que nos criticam.

Mas existe uma diferença fundamental entre contestar uma reportagem e transformar o jornalista em inimigo por exercer sua profissão.

É essa diferença que pesa na minha avaliação política.

Jair Bolsonaro sempre afirmou defender a liberdade de expressão. Flávio Bolsonaro também faz dessa defesa uma bandeira. Entretanto, quando observo a trajetória do movimento político que representam, encontro contradições que não consigo ignorar.

Durante o governo Bolsonaro, jornalistas foram frequentemente hostilizados, profissionais da imprensa sofreram ataques verbais e veículos de comunicação foram apresentados como adversários políticos. A crítica jornalística passou a ser tratada, muitas vezes, não como parte legítima da fiscalização democrática, mas como manifestação de uma suposta conspiração contra o governo.

Não se trata de um detalhe de comportamento.

Quando um governante considera toda informação inconveniente uma mentira, toda investigação uma perseguição e toda crítica um ataque pessoal, coloca em questão um dos mecanismos fundamentais de controle do poder.

Uma sociedade que perde a capacidade de fiscalizar seus governantes começa a perder também a capacidade de controlá-los.

Não afirmo que um eventual governo de Flávio Bolsonaro necessariamente repetiria todas as práticas do governo de seu pai. Não tenho como saber. Mas tampouco posso ignorar a experiência recente do movimento que ele representa, suas alianças e sua relação conflituosa com instituições democráticas.

Não parto do zero para avaliar esse risco.

E aqui é preciso fazer outra distinção.

Reconhecer essas preocupações não significa aderir ao lulismo.

Tenho críticas ao governo Lula, à condução das contas públicas, às suas escolhas políticas e à dificuldade de apresentar ao país um projeto de futuro que vá além da disputa permanente com o bolsonarismo. Os últimos quatro anos estiveram longe de produzir o entusiasmo que se poderia esperar de um governo que voltou ao poder prometendo reconstrução.

Lula não está acima da crítica. Nenhum presidente está.

Mas, quando observo os dois campos políticos a partir da experiência que acumulei no jornalismo, percebo uma diferença que considero importante.

Apesar de seus defeitos e de seus próprios conflitos com a imprensa, Lula convive com uma atividade jornalística que o investiga, questiona, critica e confronta diariamente. Há reportagens negativas sobre seu governo, denúncias envolvendo integrantes de sua administração e editoriais contrários às suas decisões.

Isso não significa que Lula goste das críticas. Significa que, na minha avaliação, sua relação com o contraditório não reproduz o mesmo padrão de hostilidade que marcou o governo de Jair Bolsonaro.

E essa diferença importa.

A democracia não se mede pela liberdade que garantimos a quem concorda conosco, mas pela liberdade que asseguramos a quem pensa diferente. Defender a expressão de quem nos elogia é fácil; o verdadeiro compromisso aparece quando garantimos esse direito a quem nos incomoda, nos critica e nos contraria.

É por isso que, entre jornalistas cuja trajetória profissional aprendi a respeitar, encontro uma preocupação profunda com a possibilidade de retorno do bolsonarismo ao poder. Alguns decidiram apoiar Lula não por entusiasmo com seu governo, mas por entenderem que a preservação das liberdades democráticas deve prevalecer sobre outras divergências.

Não pretendo falar em nome de toda a categoria. Seria contraditório defender a pluralidade e sugerir que só merece respeito profissional quem compartilha da minha escolha.

Mas posso falar daquilo que vejo, das experiências que vivi e das preocupações que compartilho com colegas cuja trajetória profissional aprendi a respeitar.

Imagino que minha antiga colega de faculdade encontre inquietações semelhantes entre profissionais da área ambiental. Quem dedicou décadas ao estudo da natureza, das políticas de conservação e das consequências da degradação ambiental dispõe de elementos que muitos de nós não temos para avaliar o histórico e as propostas dos candidatos. O mesmo vale para outras áreas, cada uma com seus próprios alertas.

Nenhuma dessas perspectivas, isoladamente, explica o país inteiro.

Mas todas merecem ser ouvidas.

Conhecimento não produz unanimidade, nem transforma especialistas em donos da verdade. Apenas oferece melhores instrumentos para compreender problemas que, vistos de fora, parecem mais simples do que realmente são.

E talvez esteja aí uma das maiores dificuldades do debate político brasileiro: confundimos a convicção pessoal com o conhecimento e a discordância com a ignorância.

Se alguém apresenta uma preocupação ambiental, logo aparece quem a desqualifique como ideológica. Se outro alerta para o desequilíbrio das contas públicas, não demora a ser acusado de insensibilidade social. Se um jornalista manifesta receio quanto à liberdade de imprensa, haverá quem o considere militante de um partido.

Assim, em vez de examinar os argumentos, passamos a julgar as pessoas que os apresentam.

O resultado é um debate em que todos falam, poucos escutam e quase ninguém admite a possibilidade de estar errado.

A polarização nos colocou diante de uma armadilha: acreditar que reconhecer os méritos de um argumento do outro lado equivale a trair nossas próprias convicções.

Não equivale.

Posso reconhecer a gravidade dos problemas fiscais sem considerar que qualquer solução econômica justifique riscos institucionais. Posso admitir erros importantes do governo Lula sem concluir que a alternativa oferecida pelo bolsonarismo seja necessariamente melhor. Posso respeitar as preocupações de quem pensa diferente sem abandonar aquilo que considero essencial.

Foi justamente essa reflexão que me levou a escrever, antes da votação do primeiro turno, que meu critério fundamental seria preservar o direito de continuar fazendo oposição.

Não escolho entre santos. Tampouco considero que todos os riscos sejam equivalentes.

Políticas econômicas equivocadas podem ser revistas. Governos podem ser derrotados. Presidentes podem ser substituídos. Mas tudo isso depende de uma condição anterior: que as instituições continuem funcionando e que as regras democráticas sejam respeitadas.

Para mim, que passei a vida no jornalismo, essa condição tem um valor que não consigo relativizar.

Quero continuar tendo liberdade para criticar Lula, Flávio Bolsonaro ou qualquer outro presidente. Quero continuar podendo investigar, denunciar, cobrar e publicar aquilo que considero relevante, mesmo quando isso desagrada a quem governa.

Não considero esse direito uma concessão de quem ocupa o Palácio do Planalto. É uma garantia constitucional que deve existir independentemente da vontade do governante.

E é a partir dessa experiência, não da pretensão de conhecer todas as dimensões da realidade brasileira, que construo minha avaliação.

Sei que outros brasileiros poderão chegar a conclusões diferentes. Talvez porque atribuam maior peso a outras questões. Talvez porque tenham experiências distintas. Talvez porque interpretem de outra maneira os mesmos acontecimentos.

Isso faz parte da democracia.

O que proponho, portanto, não é que todos adotem meu critério. É que cada um procure identificar, com a maior honestidade possível, quais conhecimentos e experiências realmente sustentam suas convicções.

Antes de votar, vale fazer um exercício.

Em que área da vida acumulei conhecimento suficiente para avaliar com alguma segurança o que está em jogo? O que minha experiência profissional me ensinou sobre o país? Quais riscos consigo identificar com maior clareza? E, sobretudo, o que ainda preciso ouvir de quem conhece aquilo que desconheço?

Talvez o economista tenha muito a nos dizer sobre o que acontece quando as contas públicas saem do controle e quem paga por isso. O ambientalista, sobre o que se perde de forma irreversível quando a política ambiental é tratada como obstáculo. O profissional da segurança pública, sobre o que significa viver em territórios dominados pelo crime e o que realmente funciona para recuperá-los. O jurista, sobre o ponto em que a crítica às instituições deixa de ser fiscalização e passa a ser corrosão. O jornalista, sobre o que se perde quando investigar o poder vira motivo de hostilidade.

Nenhum deles possui sozinho a resposta para o futuro do Brasil.

Mas o país certamente teria um debate melhor se todos estivessem dispostos a compartilhar conhecimentos em vez de impor certezas.

Não precisamos concordar sobre tudo. Não precisamos admirar os mesmos políticos nem votar nos mesmos candidatos.

Precisamos, isso sim, preservar o respeito pelo conhecimento, a disposição para ouvir e a humildade de reconhecer que nossas convicções podem estar incompletas.

A liberdade de escolha é um dos maiores direitos que conquistamos com a democracia. Mas uma escolha verdadeiramente consciente exige mais do que a possibilidade de apertar uma tecla na urna. Exige informação, reflexão e capacidade de conviver com a dúvida.

Meu convite é simples: que cada eleitor faça esse exercício antes de decidir.

Que procure compreender antes de acreditar. Que escute antes de condenar. Que examine os fatos antes de transformar preferências em certezas.

E que, ao encontrar alguém com uma opinião diferente, considere a possibilidade de que essa pessoa esteja olhando para o mesmo país a partir de uma experiência que ele próprio não teve.

Talvez não cheguemos à mesma conclusão.

Não há problema algum nisso.

O importante é que continuemos livres para discordar, para mudar de ideia e para fazer novas escolhas.

Porque o direito de escolher só estará plenamente protegido enquanto preservarmos também o direito de discordar.

*GUSTAVO OLIVEIRA é jornalista em Cuiabá

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