Por questão hierárquica, antes do retorno às eleições diretas para governador, em 1982, nenhum oficial reclamava abertamente, mas engolindo em seco, o oficialato em peso amargurava a nomeação de coronel do Exército para o Comando Geral da Polícia Militar. Por analogia imagino que a situação de momento seja está, porém, em meio a grito classista questionando a nomeação da matemática, bacharela em direito e 2º sargento PM Adriana Rodrigues de Oliveira Prudêncio para a chefia do Gabinete Militar no governo de Otaviano Pivetta (Republicanos).
Ontem, o ministro do Exército escolhia em suas fileiras o comandante geral da PM, e a Inspetoria-Geral das Polícias Militares (IGPM) do Exército permanecia como sombra controladora sobre os oficiais e praças das corporações Brasil afora, sem excluir Mato Grosso. Com a retomada democrática o governador tornou-se efetivamente comandante-em-chefe e sob a farda da corporação somente se encontram oficiais e praças formados em suas fileiras, muito embora no contexto da segurança nacional os policiais militares continuem como força auxiliar do Exército.
Pivetta ainda não esquentou a cadeira de governador, mas deixa sua marca mesclando os postos mais relevantes da administração com autoridades femininas e masculinas. Nessa composição a sargento Adriana chegou ao Gabinete Militar.
No mundo inteiro, tanto nas forças armadas quanto nas polícias militares, oficial comanda e graduado cumpre outras missões – para ficar no linguajar da caserna. Em Mato Grosso não é nem pode ser diferente. Porém, quanto à nomeação da sargento Adriana é preciso que fique claro: (resumidamente) a chefia do Gabinete Militar não é um posto de comando, mas o desempenho de duas funções – interlocução com as forças policiais e a segurança do governador e de seus familiares.
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Creio que a sargento Adriana tenha capacidade e aptidão para a interlocução, por seu currículo que inclui há algum tempo ser parte do braço direito de Pivetta em algumas áreas. Quanto à segurança, a estrutura da PM tem mecanismos suficientes, independentemente de quem cumpra a missão – a caserna novamente – e quem a comanda.
Inevitavelmente alguns coronéis e outros oficiais torcerão o bigode por conta do arraigado simbolismo do coronel dá a ordem e a tropa se sacode. Quanto a isso, nada melhor do que o tempo, que é santo remédio, e das transformações que acontecem aos borbotões na vida castrense.
A Polícia Militar está em evolução. O civil não buscou a farda, mas o fardado procura a sociedade civil. Surgiram associações representativas dos policiais militares e o PM descobriu o caminho político. Na Câmara dos Deputados estão os coronéis Assis (PL) e Fernanda (PL), e na Assembleia Legislativa o 3º sargento Elizeu Nascimento (Novo). Oficiais e praças exerceram e exercem mandatos nos municípios, ocupando cargos eletivos sem vínculos com a corporação, mas sempre fazendo dos mesmos, ferramenta em sua defesa. O coronel Benedito Barbosa foi vereador em Barra do Garças, e o Cabo Odenílio, em Feliz Natal; o Subtenente Sancler é vereador em Canarana; o Sargento Galibert, vereador em Várzea Grande; o Cabo Lair Ferreira foi vereador e prefeito de Curvelândia; em Cuiabá são vereadores o Tenente-Coronel Dias e o Sargento Joelson – o Tenente-Coronel Paccola e o Sargento Vidal, foram vereadores; em Primavera do Leste, o Sargento Telles é vereador; e em vários outros municípios integrantes da Polícia Militar desempenham atividades civis na esfera política. Esta é a mensagem dos novos tempos, dos quais a Polícia Militar não pode se excluir nem deve se omitir.
A partidarização da tropa fora dos quartéis é palpável, mas a instituição permanece apolítica. Nenhum oficial torce o bigode quanto a isso.
Portanto, não vejo razão para coronel não engolir a sargento Adriana no Gabinete Militar, quando se sabe que ele vai ao deputado estadual Elizeu Nascimento, que é sargento juruna, e lhe pede apoio ou até mesmo sua intervenção em busca de algum favor para parente ou função comissionada nas esferas governamentais.
Precisamos de uma Polícia Militar de Estado e não de governo. Que ela esteja única e exclusivamente sob o comando do governador, a quem cabe nomear seus comandantes e ocupantes de funções como é o caso da sargento Adriana. Mais: que o episódio da nomeação não sirva de estopim para deixar em campos opostos as entidades que representam os oficiais e as praças, a ASSOF e a ACS, respectivamente – ambas englobando os bombeiros militares.
Não respiramos mais os ares da imposição de Brasília sobre os estados, nomeando nas áreas civil e militar. Os tempos são outros. Sem quebra hierárquica e mantendo a disciplina a sargento Adriana saberá conduzir o Gabinete Militar, inclusive com o apoio maciço da base da tropa. Sua missão é militar, mas com prevalência política, e ela tem exemplos para se espelhar: basta ver que no exercício do mandato eletivo a hierarquia não tem prevalência, inclusive no Congresso, onde generais e cabos legislam em pé de igualdade.
De longe acompanho os primeiros dias do mandato de Pivetta. Acredito que ele acertou sobre a titularidade do Gabinete Militar. Tomara que seu governo continue assegurando espaço para a participação feminina e valorizando os servidores de carreira chamados de base. Também creio na habilidade da ocupante do cargo, que saberá conversar com os oficiais para o cumprimento de suas missões, que serão designadas não por uma subalterna, mas pela chefe do Gabinete Militar, a sargento Adriana.