Os 50 anos da inauguração da BR-163 pelo presidente Ernesto Geisel, em 20 de outubro de 1976, ganharam esta série que fala sobre aquela rodovia de integração nacional, seus personagens e fatos importantes ao longo de sua trajetória de meio século. O Nortão, que abriu caminho às pistas que ligam Mato Grosso ao Pará, pertencia aos municípios de Chapada dos Guimarães, Nobres, Rosário Oeste, Diamantino e Aripuanã, além de Porto dos Gaúchos, o único município então instalado na região. Portanto, em Cuiabá não havia representante político daquela área, mas o deputado estadual Osvaldo Sobrinho assumiu esse papel e foi importante na criação da cidadania regional às margens e no eixo de influência da nova rodovia; em 1979 ele foi autor dos projetos de lei que emanciparam Sinop, Alta Floresta e Colíder, as cidades que foram decisivas para o crescimento e o desenvolvimento regional sobre os rastros dos tratores do 9º BEC comandado pelo coronel José Meirelles. A criação dos municípios facilitou a ocupação da região, e o último, Boa Esperança do Norte, foi instalado em 1º de janeiro de 2025. A rodovia além da integração levou cidadania para o vazio da Amazônia na calha dos rios Teles Pires, Juruena e Tapajós (no Pará).
Quando da construção da BR-163, alguns projetos de colonização estavam em execução. Segundo o coronel José Meirelles, os colonizadores pediam apoio ao 9º BEC para a abertura de ruas, e ele os atendia. Além disso, o comandante insistia com o Incra para a regularização fundiária das terras na região.
Antônio Debastiani
Dos 36 municípios, somente Peixoto de Azevedo e Novo Mundo tiveram formação espontânea. Os demais foram planejados por colonizadoras e pelo Incra. Sinop, Cláudia, Vera e Santa Carmem nasceram de projetos da Sociedade Imobiliária do Noroeste do Paraná (Sinop), liderada pelo empresário Ênio Pipino; Alta Floresta, Paranaíta e Apiacás, foram idealizados pela Integração, Desenvolvimento e Colonização (Indeco), de Ariosto da Riva; Nova Mutum, da ousadia do advogado José Aparecido Ribeiro; Guarantã do Norte, Itanhangá e Ipiranga do Norte, de projetos de assentamento do Incra; Sorriso, por iniciativa do empresário Claudino Francio; Santa Rita do Trivelato, pela Colonizadora Trivelato: Juara e Tabaporã, sob a liderança de José Pedro Dias, o Zé Paraná; Terra Nova do Norte e Nova Guarita, pela visão do pastor luterano Norberto Schwantes; Matupá, pela Colonizadora Agropecuária Cachimbo, do empresário Hermínio Ometto; Colíder e Nova Canaã do Norte, pelo colonizador Raimundo Costa Filho; Novo Horizonte do Norte, pela Colonizadora Mato Grosso Ltda. (Imagrol), de José Kara José; Nova Bandeirantes, pela Colonizadora Bandeirantes, de Daniel Meneghel; Nova Monte Verde, por Gervásio Azevedo; Feliz Natal, pelo colonizador Antônio Debastiani; Itaúba, pelos irmãos Bedin; Carlinda, por Manoel do Vale; Nova Santa Helena, Colonizadora Cemarco; Nova Ubiratã, pela Comércio de Imóveis Pinheiro (COMIPIL), de Manoel Pinheiro; União do Sul, pela Coloniadora Paralelo 16; etc.
Mesmo com planejamento urbanístico, municípios enfrentam atipicidades regionais e a administração de algumas prefeituras exige verdadeiros milagres dos prefeitos.
O médico e pecuarista Sinvaldo Santos Brito foi prefeito de Peixoto de Azevedo no período de 2009 a 2016. À época a cidade iniciava a retomada do desenvolvimento, após o Ciclo do Ouro. No auge da extração do metal, Peixoto de Azevedo tinha 47.009 habitantes e mesmo recuperando-se ano a ano, seu número de habitantes é de 33.707. O prefeito tinha inúmeras demandas urbanas por conta do êxodo, mas a força do agronegócio e a localização geográfica à margem da BR-163 foram importantes para a superação do crítico período do esvaziamento populacional.
O ex-prefeito Arnóbio Andrade é meu irmão
Em 11 de agosto de 2010 o maior incêndio urbano em Mato Grosso destruiu parte de Marcelândia. O fogo começou num depósito de resíduo de madeira e avançou por indústrias madeireiras, casas residenciais, tratores, toras no pátio de madeireiras e ao término 117 moradias foram consumidas pelas chamas. Os governos federal e estadual não criaram nenhuma linha de crédito especial para socorrer os atingidos nem o município. A população de 18.634 habitantes despencou. Transcorridos 16 anos da tragédia, e mesmo tendo se recuperado parcialmente, a população é de 11.298 marcelandenses.
De 2013 a 2020, o prefeito de Marcelândia era Arnóbio Vieira de Andrade, que administrando um município recém-saído de uma tragédia, conseguiu implementar um governo arrojado, que modernizou a cidade. Os problemas em consequência do incêndio foram muitos, e a eles ainda se junta um quê permanente: o município com 12.281 km² tem uma área indígena de 144.047 hectares, no Parque Indígena do Xingu, que é de preservação permanente, e que apresenta contínuas demandas à prefeitura, nos setores de saúde, educação, esporte, assistência social e outras.
O Nortão ganhou representação política e ao contrário de Mato Grosso, onde a mulher tem pouca participação na vida pública, a força feminina é visível nos municípios e em todos os setores da economia, esporte e da cultura. A figura feminina política mais destacada do Nortão é a empresária Rosana Martinelli (MDB), segunda suplente do senador Wellington Fagundes (PL) e que foi vice-prefeita e prefeita de Sinop, a metrópole regional que sonha em ser capital do futuro Estado de Mato Grosso do Norte.
Elas – Dos 36 municípios do Nortão, 12 foram administrados por mulheres.
Maria Izaura
Bia Sueck, por dois mandatos alternados em Nova Monte Verde; Silda Kochemborger (Apiacás), Maria Izaura (Alta Floresta), Carmen Martines (Carlinda) e Isani Luiza Konerat (Vera) em dois mandatos consecutivos, cada.
Solange Kreidloro
Por um mandato foram prefeitas: Rosana Martinelli, em Sinop; Solange Kreidloro, em Nova Bandeirantes; Carmem Lima Duarte, em Porto dos Gaúchos; Cleuseli Miasassi Heller, a Baiana Heller, em Peixoto de Azevedo; Luciane Bezerra, em Juara; Terezinha Guedes Carrara, em Nova Santa Helena e Sandra Martins, em Guarantã do Norte.
Agenor pai e filho na política em Novo Horizonte do Norte
O Nortão entende o Nortão. Esta máxima popular aplica-se também na política da região, onde a consanguinidade fala alto. Em Novo Horizonte do Norte, o município com a menor população naquela área, o prefeito é o engenheiro Agenor Evangelista da Silva Júnior, que é filho do ex-prefeito por dois mandatos, Agenor Evangelista da Silva.
Os irmãos Otaviano e Adriano Pivetta
O governador Otaviano Pivetta (Republicanos) foi prefeito de Lucas do Rio Verde por três mandatos; seu irmão, Adriano Xavier Pivetta, administrou a vizinha Nova Mutum por quatro vezes. Pivetta é o segundo governador do Nortão; o primeiro foi Silval Barbosa (2010-14).
Em Sinop, os manos Dal Bosco chegaram a Assembleia Legislativa; Dilceu Dal’Bosco foi deputado, e seu irmão Dilmar Dal Bosco é deputado reeleito para o quinto mandato.
Em Porto dos Gaúchos Jair Duarte foi prefeito, e sua mulher, Carmen Lima Duarte, também; ela faleceu aos 61 anos vítima de um ataque cardíaco, em 14 de março de 2023, na cidade de Sorriso, onde fazia tratamento contra um câncer. Carmen também foi vereadora no município.
Nas eleições deste ano o Nortão reelegeu o deputado federal Juarez Costa (Republicanos), de Sinop, onde foi prefeito; e os deputados estaduais Dilmar Dal Bosco (União), de Sinop; e Gilberto Cattani (PL), de Nova Mutum. A região teve um ministro da Agricultura e Pecuária, o ex-deputado federal Neri Geller, de Lucas do Rio Verde.
Os principais municípios são administrados pelos prefeitos: Roberto Dorner (Sinop), Alei Fernandes (Sorriso), Miguel Vaz (Lucas do Rio Verde), Chico Gamba (Alta Floresta), Leandro Félix (Nova Mutum), Valdinei Holanda Moraes (Juara), Rodrigo Luiz Benassi (Colíder), Alberto Márcio Gonçalves (Guarantã do Norte), Nilmar Nunes de Miranda, o Paulistinha (Peixoto de Azevedo) e Bruno Santos Mena (Matupá).