Os 50 anos da inauguração da BR-163, em 20 de outubro de 1976, ganharam esta série, que hoje focaliza o Posto Gil e alguns que por ali passaram. Posto Gil foi referência e ponto de apoio aos que deixavam seus municípios de origem em busca de um lugar ao sol na região desabitada e isolada, que virava a cabeça de muitos que sonhavam com um amanhã melhor e com oportunidades. Praticamente o único acesso ao Nortão, Posto Gil era o primeiro contato dos pioneiros com o coração intocado de Mato Grosso. Milhares fizeram parada (quase) obrigatória naquele estabecimento e todos seguiram a jornada, que foi amarga para alguns e positiva para outros.
A rodovia BR-163 é uma longitudinal com 4.447 quilômetros. Começa em Tenente Portela (RS), cruza Santa Catarina, Paraná, Mato Grosso do Sul, Mato Grosso e termina em Acotipa, no Pará, na fronteira com o Suriname. O trecho entre Cuiabá e Santarém é chamado de Cuiabá-Santarém e tem 1.770 quilômetros. A BR-163 liga o centro geodésico da América do Sul ao porto de Santarém, na foz do Tapajós no Amazonas. No Pará seu nome é Santarém-Cuiabá. A iniciativa privada quer construir uma ferrovia -Ferrogrão – com 933 km entre Sinop e Miritituba (de Itaituba) , para criar um corredor rodoferroviário ligando o Nortão ao porto no Tapajós em Miritituba, visando reduzir o índice de continentalidade – distância da lavoura ao navio – pelo transporte ferroviário, que é mais barato que o rodoviário, mas a proposta esbarra na birra ambiental e ideológica – Enquanto isso a BR-163 permanece isoladamente transportando soja e milho do Nortão para embarque em Miritituba.
Em Posto Gil, rumo Norte, começa o trecho isolado da Cuiabá-Santarém, que em Mato Grosso cruza os perímetros urbanos de Nova Mutum, Lucas do Rio Verde, Sorriso, Sinop, Itaúba, Nova Santa Helena, Terra Nova do Norte, Peixoto de Azevedo, Matupá e Guarantã do Norte.
Posto Gil é o marco zero da Cuiabá-Santarém e sua referência. É o ponto onde as rodovias 364-163 deixam seu trecho coincidente. Dali a BR-364 avança para Diamantino, Chapadão do Parecis, Comodoro e Rondônia no traçado do telégrafo construído pelo Marechal Rondon no começo do século passado; e a BR-163 rumo Norte abre caminho para Santarém. Posto Gil, no município de Diamantino, ao lado do divisor das bacias do Amazonas e do Prata, não é parte do Nortão, e fica a 50 km daquela região, que começa na margem direita do rio Arinos, no limite dos municipíos de Diamantino e Nova Mutum.
Tudo era estranho para todos. Cada um em sua individualidade ou em família buscando o amanhã que não encontrava em seu berço. Em comum a vontade de vencer na vida, no Nortão, região onde havia somente uma cidade: Porto dos Gaúchos. Os tocos carregados com trastes de mudanças e muitos sonhos venciam a Caixa Furada, passavam pelo entroncamento da Estrada do Rio Novo, percorriam alguns quilômetros e paravam no Gil. Os radiadores dos possantes esquentavam na subida da serra. A temperatura amena no topo do divisor das bacias do Prata e Amazônica era tudo que precisavam. Melhor ainda quando conseguiam estacionar à sombra de alguma árvore retorcida do cerrado. Vivi aquele período, sem proximidade com o paranaense de Itambaracá Gilberto Silvério de Almeida, o Gil, que emprestava o nome ao seu posto de combustível naquele canto do município de Diamantino.
Ninguém dizia Posto Gil. Todos os que se referiam a ele o chamavam de Gil. Sua fama – a do estabelecimento – rompeu divisas, chegou ao Paraná, Rio Grande do Sul, São Paulo, Brasil afora no ciclo em que o país dividia-se entre os que estavam no Nortão e aquele que queriam ir para lá. A Cuiabá-Santarém (de Cuiabá ao Gil em trecho coincidente da BR-163/364) era movimentada, pois a ligação do Centro-Sul com Rondônia era feito pela BR-364, e assim permaneceu até os anos 1980, quando os militares criaram a BR-174, de Cáceres à fronteira com a Venezuela, em Pacaraima (RR) cruzando Porto Esperidião, Pontes e Lacerda, Conquista D’Oeste, Nova Lacerda e Comodoro.
No verão amazônico, um canudo de poeira, perigoso, traiçoeiro. No inverno, um lamaçal sem fim caracterizado pelo atoleiro na Piúva.
No Gil o motorista e seus acompanhantes encontravam o que precisavam. Diesel, gasolina, óleo lubrificante, borracharia, mecânico frouxa roda, uma cervejinha gelada pois ninguém é de ferro, restaurante com comida caseira, lanchonete com tira-gosto, um banheiro simples e vasos sanitários desinfetados com Creolina Pearson, o que deixava o ambiente impregnado com o cheiro forte daquele desinfetante. No sentido Cuiabá-Santarém, ao lado do Gil (o posto), no trevo onde a BR-364 abre passagem para Diamantino, rumo reto, e para Sinop à direita, havia um destacamento do 9º Batalhão de Engenharia de Construção (9º BEC); os militares mantinham uma corrente – o correntão – sobre o leito da rodovia e todos que ali passavam, eram identificados. Também na barreira militar o pessoal de endemias da Superintendência de Campanhas de Saúde Pública (Sucam) vacinava contra a febre amarela e ensinava noções de prevenção contra a malária e a leishmaniose.
Nasce o Gil – Nos anos 1960 e na década de 1970 o Brasil vivia o sonho do crescimento. A família Rezende, da Empresa Construtora Brasil (ECB) venceu licitações para executar obras em Mato Grosso incluindo a conservação da BR-364 de Várzea Grande a Diamantino. Gil era seu colaborador. Em 1968, antes da instalação do 9º BEC em Cuiabá, ele e sua mulher Ivete Borges de Almeida montaram o Posto do Gil, que virou Gil.
Próximo ao Gil o 9º BEC construiu uma pista de pouso numa área cedida pelo proprietário. Não se tratava de glamourizar o transporte de autoridades à região. O coronel José Meirelles, comandante do 9º BEC, certa vez me disse que o improvisado aeródromo era estratégico para a remoção de militares e funcionários civis da obra da Cuiabá-Santarém, em caso de acidente rodoviário, queda de árvore sobre máquina, picada de cobra ou malária com quadro agravado.
O Gil tinha uma espécie de visgo. Era parada obrigatória dos motoristas que circulavam na vizinha Estrada do Rio Novo, transportando látex extraído de seringais nativos, braquiária para formação de pastagem, madeira bruta e equipamentos para as agropecuárias em seu curso.
Gil – o posto e seu dono – prestaram relevantes serviços ao processo de interiorização do Brasil na calha do rio Teles Pires, como parte da política de segurança nacional alicerçada pelos bordões Terra Sem Homens Para Homens Sem Terra e Integrar para não Entregar.
Entre a chegada de uma mudança e outra, de uma serra fita e uma pica pau, de um CBT 1090 e uma máquina de arroz Zaccaria, de um motor estacionário Tobata e um Toyota Bandeirante, de um gadinho curraleiro e uma tropa, de uma bomba para garimpo e uma colheitadeira, e de cada pedacinho do Brasil que chegava, Gil foi uma mão amiga estendida. Virou referência geográfica: Fica a 100 km do Gil ou Do Gil até lá são 350 km.
Lenda é para sempre. Gil, também, por mais que o tempo insista em desfigurar, mutilar e volatilizar sua presença. O velho posto permanece no mesmo lugar. O homem que lhe emprestou o nome, não mais. O estabelecimento está em outras mãos – desde um acidente sofrido em 2013 por seu criador. Gil, o estabelecimento funciona cercado pelas casas construídas no loteamento lançado junto a ele, por Gil.
No dia primeiro de abril de 2025, Gil, aos 81 anos, pegou a estrada para o infinito, que leva aos braços do Criador, e do céu, à noite, brilha no firmamento sobre o empreendimento que criou. Deixou de ser uma lenda viva. Entrou no campo do imaginário e virou lenda, simplesmente lenda, a Lenda do Gil.
Chão preto
O Brasil tinha pressa para ocupar o Nortão. À frente do 9º BEC o coronel Meirelles abriu a Cuiabá-Santarém num ritmo frenético. Em 3 de maio de 1983, o presidente João Figueiredo desembarcou em Sinop para realizar o sonho da população local: inaugurar a pavimentação da BR-163 ligando aquela cidade a Cuiabá, e rumo Norte a Nova Santa Helena distante 116 km. Figueiredo foi recebido com carinho pelo povo, mas um grupo radical do PT o vaiou. O colonizador Ênio Pipino e o governdor Júlio Campos participaram do ato.
A pavimentação avançou lenta entre Nova Santa Helena e Santarém. Somente em 2022 a obra foi concluída.
Uma cidade a caminho
Fazenda Vale do Arinos, município de Tapurah, 12 de agosto de 1994. O pesadelo vira sonho. Sonho bom para 1.149 famílias de Lucas do Rio Verde, Diamantino e Tapurah, que um dia antes desmontaram suas barracas de lona plástica defronte ao Incra, em Cuiabá, e chegaram ao Projeto de Assentamento Tapurah/Itanhangá, numa área do Incra em Tapurah. Esse foi o embrião de Itanhangá. Esses parceleiros, que deram vida a um município, passaram pelo Posto Gil, em busca de seu sonho coletivo no Nortão.
O vento soprava forte no cerrado quando as famílias desembarcavam. Antes da chegada, peregrinaram por 30 dias num acampamento na fazenda São João, em Diamantino, até serem despejadas em 9 de maio de 1994. De lá, um grupo foi para Cuiabá e montou barracas na porta do Incra. Negocia dali, negocia daqui e o assentamento em Itanhangá saiu do papel. Virou realidade. Virou vila em 12 de agosto daquele ano e cidade em 29 de março de 2000 por uma lei sancionada pelo governador Dante de Oliveira, oriunda de projeto do deputado José Riva aprovado pela Assembleia Legislativa. Itanhangá pertence à comarca de primeira entrância de Tapurah.
A denominação do município tem origem na sabedoria popular. Em tupi-guarani Itanhangá significa pedra de fogo. Antigos moradores juram que era muito comum avistarem bolas de fogo nas áreas acidentadas próximo ao perímetro urbano. Daí deu no que deu.
Mulher de fibra
Carmen prefeita
Carmen Martines era bebê. Tinha um ano, quando sua família parou no Gil na jornada que trouxe os Martines, de Assis Chateaubriand, no Paraná, para Alta Floresta. Mais tarde, em Carlinda ela protagonizou um ato que a faz diferente das demais figuras dos meios políticos.
“Não administro com um corrupto na Presidência” – disse a prefeita de Carlinda, Caremen Martines (União). Em seguida, cumprindo sua palavra, renunciou. Em Mato Grosso foi o único protesto consistente contra a eleição do presidente Lula da Silva em 2022.
Fora do ato de Carmen, em Mato Grosso a oposição a Lula é feita somente em forma de guerrilha virtual na internet. Sua atitude foi desqualificada e desprezada pela cúpula regional de seu partido, que em nenhum momento reconheceu seu ato.
Carmen deixou a prefeitura, “adimplente, com saldo em caixa e com todas as certidões obrigatórias”, e foi para sua fazenda no município de Carlinda. À época a cúpula regional do União Brasil era formada pelo governador Mauro Mendes, o senador Jayme Campos, os deputados federais Fábio Garcia e Coronel Assis, e os deputados estaduais Eduardo Botelho, Júlio Campos, Dilmar Dal Bosco e Sebastião Rezende – todos permaneceram calados.
Após anunciar que renunciaria e enquanto fazia a transição ao vice-prefeito pastor Fernando de Oliveira Ribeiro (PSC), Carmen disse que não poderia permanecer, pois não se sentiria confortável administrando junto ao novo mandatário do país. Serena, ela disse que não tem político corrupto de estimação e que sua atitude não é seletiva. Com firmeza acrescentou que enquanto Lula governar o Brasil ela não disputará cargo eletivo.
Lula tomou posse em 1º de janeiro de 2023. Dois dias depois, Carmen comunicou ao presidente da Câmara e seu correligionário José Henrique Bertipaglia que renunciaria ao cargo; o União Brasil permaneceu calado, insensível politicamente.
Carmelinda Leal Martines Coelho, a Carmen, é paranaense de Assis Chateaubriand, nascida em 26 de junho de 1976, radicada no Nortão e veio para Mato Grosso com um ano de idade e há mais de 30 reside em Carlinda, onde é produtora rural ao lado do marido.
Carmen revela que até o começo de 2016 não havia pensado em ser política, mas que decidiu disputar a prefeitura naquele ano, por conta da má administração de seu município. Segundo ela, a estrada vicinal de acesso à sua fazenda ficou praticamente interditada durante anos, por conta de uma ponte que foi arrastada pelas águas. Depois de muito reclamar pela obra, ela desistiu, e se lançou candidata a prefeita – sua primeira obra foi a reconstrução da ponte.
Em 2016, pelo Democratas, Carmen foi eleita com 4.034 votos com o vice Paulo da CMC pela coligação de seu partido com o PSC, PP, PDT, PTB, PR e PSB; seu adversário, o prefeito Geraldo Ribeiro de Souza (PSDB) teve a candidatura impugnada. Quatro anos depois, pelo DEM em coligação com o PSC e o PP, foi reeleita com 4.646 votos que corresponderam a 90,16% dos votantes – proporcionalmente foi a maior votação ao cargo em Mato Grosso; nesse pleito ela bateu o Professor Jacó (PSB), com 276 votos (5,36%) e André Prado (PT), com 231 votos (4,48%).
Em 2021, com a fusão do Democratas com o PSL, Carmen permaneceu no novo partido e participava de reuniões e encontros partidários em Cuiabá e outras cidade.
Bolsonarista, Carmen defendeu a tentativa de reeleição de Bolsonaro em 2022. Em seu município, no primeiro turno o presidente recebeu 2.980 votos e Lula 2.332. No segundo turno, Bolsonaro cravou 3.357 votos (58,19%) e Lula 2.412 (41,81%).
Carmen se filiou ao Republicanos do governador Otaviano Pivetta, o deputado federal Coronel Assis aderiu ao PL e o deputado estadual Eduardo Botelho ao MDB.
O seo ênio que nem todos conheciam
A ocupação urbana do Nortão tem diversas origens, sendo uma, a criação de uma vila com projeto urbanístico. Foi assim com Sinop, Santa Carmem, Vera e Cláudia, pela Colonizadora Sinop liderada pelo colonizador Ênio Pipino, um homem que além da visão empresarial tinha um sentimento profundo de respeito ao próximo.
Ao inaugurar o loteamento urbano de Sinop, em 14 de setembro de 1974, mais que implantar aquela que seria a principal cidade mato-grossense abaixo do Paralelo 15, Ênio Pipino lançava as sementes da ocupação da mais importante fronteira agrícola do planeta. A solenidade teve repercussão nacional e foi prestigiada pelo ministro do Interior, Rangel Reis, que ganhou o título de paraninfo de Sinop.
Homem acostumado a criar cidades no Paraná, Ênio Pipino transferiu a Sociedade Imobiliária Noroeste do Paraná (Sinop) para Mato Grosso no começo da década de 1970, inicialmente comprando a Gleba Celeste, de 198 mil hectares, de Jorge Martins Philip, onde implantou o Projeto de Colonização Celeste, embrião de Sinop, Vera, Santa Carmem e Cláudia, na calha dos rios Teles Pires e Xingu, da Bacia Amazônica. Principal líder da Colonizadora Sinop, Ênio Pipino era sócio da mesma com sua mulher, Nilza de Oliveira Pipino, e João Pedro Moreira de Carvalho. O colonizador era rígido em seus negócios, mas tinha um coração generoso. Seu projeto somente se viabilizou graças à BR-163, sem a qual a ocupação do Nortão somente aconteceria décadas depois.
Antes de ser colonizador Ênio Pipino militou politicamente. Em São Paulo foi juiz de paz, interventor, vereador, presidente da Câmara e prefeito de Presidente Venceslau.
Nascido em Penápolis (SP) em 12 de junho de 1917, Ênio Pipino era filho de um casal italiano. Em 16 de junho de 1995, aos 78 anos, fechou os olhos para sempre, na cidade de Bebedouro (SP). Homem visionário, seu legado, além dos exemplos de honradez, foi a ocupação de boa parte do vazio demográfico amazônico nas calhas dos rios Teles Pires e Xingu, onde brotaram quatro cidades sendo a mais importante: Sinop – síntese de sua atuação empresarial
Memória – Nortão, sexta-feira, 16 de maio de 1980. Pé firme no freio. A Chevrolet C-10 para. O motorista engata a primeira marcha puxando a alavanca pra baixo. Lentamente a camionete cruza a pequena ponte de madeira sobre o rio Azul, mas o faz engasgando. Aos trancos chega à vila de Santa Carmem. O remédio é procurar um mecânico. Um mecânico, não; o único do lugar, o jovem paranaense Aarão Avelino Pereira. O cliente era ninguém menos que Ênio Pipino.
Tímido, Aarão recebe Ênio Pipino e faz o diagnóstico mecânico. “É o platinado, seo Ênio. Mas vou dar um jeito”. Num piscar de olhos a peça é lixada e o veículo está pronto, tinindo. A oficina funcionava debaixo da copa de um frondoso tamboril, à base do improviso. O cliente pergunta a Aarão se ele não tinha um lote para se instalar. “Quem sou eu, seo Ênio!”, Aarão admite sua fraqueza.
Sem muita conversa, Ênio Pipino doou ao mecânico um lote na avenida principal e sua oficina ali funcionou até 2015, quando baixou as portas, pois Aarão perdeu parte da capacidade motora ao ser afetado por uma neuropatia, que o deixou preso a uma cadeira de rodas.
A doação do terreno nobre para Aarão deixou claro a sensibilidade do colonizador Ênio Pipino, e sua preocupação em facilitar o trabalho daqueles que trocavam seus lugares de origem pela aventura da construção das cidades de Sinop, Cláudia, Vera e Santa Carmem, que ele colonizava na Gleba Celeste.
No sábado 19 de novembro de 2016 estive com Aarão em sua casa, na fazendinha de sua família, ao lado de Santa Carmem, onde o ouvi para um livro que publiquei naquele ano focalizando a rodovia Cuiabá-Santarém (BR-163) e o Nortão. Na véspera, ele completou 60 anos. Foi a segunda vez que o vi. A primeira aconteceu em 1999, quando levantava material para uma série sobre os 500 anos do Brasil. A doença não o abateu e seu sonho era vencê-la e fazer aquilo que sempre fez e mais gostava: trabalhar na oficina.
Infelizmente a neuropatia o venceu.
Uma rasteira do Incra
Pelo Gil passaram praticamente todos os que vivem no Nortão, inclusive os parceleiros do Projeto de Assentamento ENA, em Feliz Natal, que é uma aberração do Incra.
No passado, balbúrdia agrária em Mato Grosso era tão natural quanto beber água. Porém, uma confusão surgiu em 1997 por incompetência, negligência ou má-fé do Incra, que até então não fazia parte do cardápio das disputas judiciais na vastidão desabitada da Terra de Rondon. Não fazia, vírgula, pois a autarquia federal criada para regularizar a posse, titulação e o uso do solo criou uma saia justa no município de Feliz Natal, mais especificamente no Projeto de Assentamento ENA, onde mais de uma centena de parceleiros sente na pele a insegurança jurídica e não tem acesso às linhas de crédito. Os assentados são representados pela associação Agroena, que tem entre suas lideranças a professora no local e vereadora Raquel Roll (Podemos), uma mulher de silhueta frágil, mas que ganha contornos de gigante quando expõe o cenário a que os parceleiros do ENA foram empurrados pela indiferença do Estado e luta para desembaralhar o mosaico fundiário em seu município.
Para melhor entendimento o caso do Assentamento ENA não pode ser mera matéria jornalística, que exige tudo no condicional. Somente uma série com linguagem franca e direta é capaz de levá-lo ao público. Espero conseguir mostrar o que acontece.
Em 1973 a fazenda Cônsul comprou uma gleba em Feliz Natal, de 30 mil hectares, e em 1995, essa área foi vendida à Agropecuária ENA (iniciais de seus donos Eduardo, Nelson e Armindo).
O Incra demonstrou interesse na ENA, para criar um projeto de assentamento, pois a procura por terra na região era grande. Os proprietários a venderam ao órgão fundiário, e a operação foi sacramentada pelo Decreto 229 de 26 de novembro de 1996. No ano seguinte a transação foi concluída e o governo federal pagaria 30 mil salários mínimos vigentes pelo imóvel, em 20 anos. Em 2013, com 80% do pagamento efetuado, a Advocacia-Geral da União (AGU) pediu a suspensão da continuidade da liquidação das parcelas restantes. Começava a dor de cabeça dos parceleiros.
De modo simples, mais direto ainda: a área onde o assentamento foi criado não pertencia a ENA. A mesma foi deslocada. Se a ENA não era a proprietária não haveria razão para concluir o pagamento. Óbvio. Além desse erro imperdoável, a criação do assentamento mostra que Incra e o Instituto de Terras de Mato Grosso (Intermat) atuam de costas um para o outro, pois a referida área pertence ao Intermat.
Nesse caso, além da incompetência do Incra, o Intermat também foi incompetente. Como o órgão agrário mato-grossense não soube da criação de um assentamento federal em uma de suas áreas?
Com o Incra e o Intermat no mesmo balaio, o caso foi judicializado e chegou à 2ª Vara Federal de Sinop, que pediu a anulação do decreto que autorizou a compra da área, sua devolução à ENA e que a mesma restitua a União os 80% recebidos pela venda. Na prática não há nenhuma área a ser devolvida pois o assentamento está fora dos limites da ENA.
Além da incompetência do Incra e do Intermat, os parceleiros assentados ainda enfrentam a insensibilidade do Incra. Vejamos: o ex-governador Mauro Mendes determinou ao Intermat que fizesse um entendimento com o Incra, para o assentamento ser estadualizado – o sentido é esse – mas o Incra permaneceu numa postura marciana – como se estivesse em Marte e o problema aqui.
O que precisa ser feito? O Assentamento ENA tem que ser entregue ao Intermat, por sua base agrária pertencer ao Estado de Mato Grosso. Os investimentos feitos pelo Incra não vão além de sua obrigação com os parceleiros. A transferência do Incra ao Intermat não prejudica a terceiro. A cobrança feita ao Incra pelos 20% do pagamento não efetuado é uma ação que não diz respeito aos parceleiros nem ao Intermat. Também não interessa a Mato Grosso se a ENA devolverá ou não ao Incra o montante parcial.
Detalhes – Quando o Incra comprou a ENA, o presidente da República era Fernando Henrique Cardoso, e o governador, Dante de Oliveira. Em 2013, quando o pagamento das parcelas foi suspenso, Dilma Rousseff era presidente e Silval Barbosa governador.
O abacaxi precisa ser descascado por meio de diálogo entre os presidentes do Intermat e seu colega no Incra, mas não pode ficar restrito ao campo burocrático onde ambos atuam. O assunto tem que receber selo prioritário do poder político mato-grossense.
Mosaico – Á área de 30 mil hectares tem 15 mil hectares preservados como reserva permanente comunitária. O Incra demarcou 388 parcelas. Os parceleiros cultivam 7 mil hectares e outros 7 mil hectares são formados em pastagem. No assentamento, a Escola Rural Municipal Malvina Evaristo Pecinelli tem 215 alunos de creche ao terceiro ano do Ensino Médio, e recebe os matriculados na Escola Estadual André Antônio Maggi – com sede em Feliz Natal – pelo sistema de extensão. Raquel Roll é uma de suas professoras.
A Agroena, que representa os assentados, é presidida pelo parceleiro Cleiton Araújo.
Promessa cumprida
Promessa feita, promessa cumprida. Tem que ser assim e com Zé Paraná o pagamento foi alegre. Em Juara, Zé Paraná cumpriu, alegre, a promessa feita ao Menino Jesus, de lavar com cerveja o primeiro ônibus que ali chegasse. Nessa missão não faltaram mãos para a tarefa nem bocas para bons goles da loira bem gelada que não foram utilizados no ritual.
A promessa de Zé Paraná deixa claro a importância das rodovias. Juara, onde ele assumiu o compromisso espiritual, era uma vila isolada, com acesso por uma estrada carroçável alimentadora da BR-163, pelo chamado acesso chamado espinha de peixe. A chegada do ônibus representava o fim do isolamento para os pioneiros do lugar.
Visionário colonizador, Zé Paraná tinha veia política e na vida pública foi vice-prefeito de Diamantino; presidente da Câmara e duas vezes prefeito de Porto dos Gaúchos; e interventor e prefeito de Juara. Na iniciativa privada fundou Juara e Tabaporã, e trabalhou na colonização de Porto dos Gaúchos, todos no Vale do Arinos, no Nortão.
Homem simples, de origem humilde, com cheiro de Povo, Zé Paraná sempre tinha palavras incentivadoras e ombro amigo aos pioneiros da região que desbravava.
Tanto os colonizadores quanto os primeiros moradores das vilas que pipocavam por todos os lados no Nortão vibravam com seu crescimento. Muitos pioneiros deixaram seus lugares de origem em busca do sonho da realização na Amazônia Mato-grossense. Parte trazia consigo mágoas ou tristezas pelos fracassos comerciais ou no campo. Outro tanto chegava com a cara e a coragem. Todos, indistintamente tinham algumas coisas em comum: o trabalho, a falta de lazer, a distância de tudo, o risco da malária. Toda conquista coletiva virava motivo de comemoração.
Figura mais importante na ocupação do vazio demográfico no Vale do Rio Arinos, no Nortão. Este é o currículo do paranaense José Pedro Dias, o Zé Paraná, nascido em 19 de março de 1929 na cidade de Santo Antônio da Platina e que escreveu com mãos limpas e honradez uma das páginas da transformação econômica de Mato Grosso.
Vítima de um câncer no intestino, Zé Paraná morreu aos 74 anos, em Juara, no dia 28 de fevereiro de 2004 e seu corpo foi sepultado naquela cidade
Dentre as homenagens à sua memória, uma estátua em tamanho natural na praça dos Colonizadores, em Juara, onde é ponto facultativo no dia 28 de fevereiro, data de sua morte.
Fiat lux
1998 – Inauguração da energia em Lucas, com Pivetta ao microfone
Ao volante de um possante, Otaviano Pivetta saiu do Rio Grande do Sul e chegou a Lucas do Rio Verde, onde escreveu uma das mais importantes páginas do Nortão – promoveu o desenvolvimento daquele município, partindo praticamente do zero. Antes de desembarcar, Pivetta parou no Gil.
O linhão de transmissão de energia elétrica da Eletronorte interligando os municípios brasileiros avançou de Cuiabá para o Nortão. Cruzou as cidades de Nova Mutum, Lucas do Rio Verde, Sorriso e Sinop até Alta Floresta. Aquela obra era considerada a redenção da região, mas não contemplava Lucas do Rio Verde, a única cidade no trajeto que não tinha subestação da estatal Cemat, que tinha o monopólio da distribuição de energia em Mato Grosso. Em suma, a população luverdense foi deixada à margem por uma pirraça política do governador Dante de Oliveira, que não gostava de Pivetta, por serem adversários políticos.
O ano era 1998 e Dante sonhava em ser candidato a vice-presidente de Fernando Henrique Cardoso, que naquele ano disputaria a reeleição presidencial. Lucas tinha 14.473 habitantes e todos os dias recebia mais e mais caminhões oriundos do Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná trazendo aventureiros em busca do amanhã no Nortão. À época, a população do Sul se dividia entre os que queriam vir para Mato Grosso e os que não desejam permanecer em sua terra.
Para quem saia do Sul, não alterava muito ficar em Lucas, Mutum, Sorriso ou Sinop. Aquelas quatro cidades eram poços de demandas e praticamente tudo estava para ser feito. Nesse cenário, Lucas permanecia iluminada por energia gerada por conjunto diesel estacionário, que oscilava e sofria seguidos apagões, ao passo que as vizinhas Mutum e Sorriso contavam com energia firme na ponta. A falta de energia pesava contra Lucas e deixava a vizinhança em vantagem.
O prefeito Pivetta em 1998
O prefeito Otaviano Pivetta, que os pioneiros em Lucas chamam de Gordo Pivetta, foi ao Palácio Paiaguás e conseguiu que Dante o recebesse, mas não ouviu nenhuma palavra positiva sobre a energia para Lucas. Chateado, Pivetta pegou a rodovia BR-163 e retornou no mesmo dia. Na noite seguinte algumas torres de transmissão, perto de Lucas, foram derrubadas por explosivos. O caso ganhou dimensão estadual na capa dos jornais, no rádio e na televisão; fui ao local das quedas, e produzi uma reportagem para o Diário de Cuiabá; para fotografar convidei a empresária e fotógrafa Maria Destri, do Foto Destri, em Lucas.
Imediatamente após as torres serem derrubadas a Cemat tratou de restabelecer a transmissão e a Polícia Civil iniciou uma investigação sobre o caso, mas nem sinal de Dante sobre o rebaixamento.
Pivetta voltou ao palácio, mas o governador permaneceu irredutível alegando que estaria sendo elaborado um estudo técnico para dimensionar o consumo em Lucas. Um dia após o retorno de Pivetta ao município, bastou escurecer para novas torres serem derrubadas com explosivos, nas imediações da cidade.
Dante ouvia o coronel José Renato Martins da Silva, ao qual nomeou comandante da PM. O coronel Renato o aconselhou a mandar rebaixar a energia em Lucas e o alertou que se sua pirraça contra Pivetta, que o levava a punir Lucas, chegasse ao noticiário nacional, seu sonho de ser vice de FHC iria para o brejo. Dante não pensou duas vezes: Lucas ganhou uma subestação, de imediato.
Na quinta-feira, 10 de setembro de 1998, Pivetta viveu um dia de conquista. Naquela data, ele foi a figura central na inauguração da estação de rebaixamento de energia. Lucas saia definitivamente das trevas, e tanto saiu, que desde então, nunca mais de ouviu explosão de dinamite por lá.
A energia chegou. Lucas ficou livre da concorrência predatória de Mutum e Sorriso e todas seguem seu caminho desenvolvimentista tanto quanto Sinop, Itaúba, Nova Santa Helena, Colíder, Nova Canaã do Norte, Carlinda, Alta Floresta e as demais cidades do Nortão contempladas com o linhão.
O fluxo migratório continuou. Os lares receberam energia interligada ao sistema nacional e com essa infraestrutura surgiu o parque agroindustrial do município, que é um dos principais do Brasil; esse parque criou diversificação econômica com a verticalização e a diversificação da produção, gerando empregos e renda, e houve aumento populacional, com o número de moradores saltando para 95.792.
Com a energia Pivetta administrou em paz e assegurou a Lucas uma qualidade de vida invejável, que também chega à zona rural e áreas urbanas fora da sede. Quanto à falta de energia ninguém fala mais e poucos se lembram. Os dois atentados são coisas do passado, mas também podem ser entendidos como sendo ‘bons incidentes’ de percurso numa terra onde o lugar mais perto que seus líderes enxergam é a linha do horizonte.
PS – Filiado ao Republicanos, Otaviano Olavo Pivetta é o governador de Mato Grosso.