Internado numa UTI do Hospital Dois Pinheiros, em Sinop, desde a tarde do domingo (14) o cacique caiapó e líder xinguano Raoni Metuktire, 93, está lúcido e tem lenta recuperação, segundo o diretor clínico daquela unidade hospitalar, Douglas Yanai.
Com dores abdominais e vômitos, Raoni deu entrada no hospital, pela terceira vez nos últimos dois meses. Segundo Yanai, o cacique apresenta um quadro renal preocupante e não consegue se alimentar, por conta de uma “suboclusão, que é como a linguagem médica chama as obstruções dos canais e vias do corpo.
O líder xinguano é acometido por uma Doença Pulmonar Obstrutiva Crônica (DPOC) e tem uma hérnia diafragmática traumática crônica, resultado de um acidente sofrido há 20 anos e usa marcapasso cardíaco. A idade e as comorbidades o debilitam, mas Yanai descartou qualquer tipo de cirurgia.
A equipe multidisciplinar que atende Raoni atua de forma integrada com o médico professor Douglas Antônio Rodrigues, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), que acompanha o cacique há 30 anos.
Diariamente, pela internet, a equipe que atende Raoni conversa com seus familiares e caciques da Terra Indígena Capoto/Jarina, no município de Peixoto de Azevedo, onde é aldeado.
Não há previsão de alta. Diariamente o hospital divulgará um boletim médico às 10 horas.
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A coletiva tendo ao centro o médico Douglas Yanai
ELE – Raoni é líder da Terra Indígena Capoto/Jarina, vizinha ao Parque Indígena do Xingu, mas sua voz se faz ouvir entre todos os aldeados brasileiros. Raoni despertou a comunidade internacional para os impactos ambientais que seriam causados com a construção da hidrelétrica Belo Monte, no Xingu, em Altamira (PA). Graças ao seu grito, o projeto sofreu adequações que amenizam a interferência na vida dos povos da floresta e nela própria. Quando bradou contra o projeto de Belo Monte, não era uma figura anônima. Entre abril e maio de 1989, apadrinhado por ninguém menos que Gordon Matthew Thomas Sumner, o súdito da então Rainha Elizabeth II, e que atende pelo nome artístico de Sting, peregrinou por 17 países empunhando a bandeira pela vida caiapó.
Líder nato, descendente de uma tradicional linhagem de caciques caiapós, bem antes de sua aproximação com Sting, Raoni pintou-se com o urucum dos guerreiros para negociar a demarcação de Capoto/Jarina com o então poderoso ministro do Interior, coronel do Exército Mário Andreazza. Esse território mede 634.015,22 hectares, com a maior área em Peixoto de Azevedo, ao lado do Parque Indígena do Xingu, e se estende ao Vale do Araguaia, em Santa Cruz do Xingu e São José do Xingu. Raoni saiu vitorioso e ainda deu um literal puxão de orelha em Andreazza, gesto que repetiria em 1999 com o mato-grossense presidente da Funai e ex-governador Márcio Lacerda.
Quando discutiu com Andreazza, Raoni sabia bem o que falava, pois antes negociara com o engenheiro João Carlos de Souza Meirelles o traçado da BR-080, que liga o Vale do Araguaia ao Nortão de Mato Grosso num trajeto que num curto trecho é ladeado por Capoto/Jarina e o Parque Nacional do Xingu. Essa rodovia foi estadualizada e rebatizada para MT-322.
Em 2006, quando um avião da Gol Linhas Aéreas colidiu sobre Capoto/Jarina com um jato executivo Legacy, causando 154 mortes, Raoni esteve entre os repórteres que foram ao local dos destroços. Removidos os corpos, entrou em cena o cacique, para negociar com o Ministério Público Federal e a Gol uma indenização ao seu povo, o que conseguiu.
Radical, mas sem radicalizar. Raoni costuma articular com políticos e cumpre bem seu papel. Quando a Fifa escolhia as 12 sedes para a Copa do Mundo de 2014 no Brasil, ele veio a Cuiabá a convite do então governador Blairo Maggi, para defender a capital mato-grossense junto ao cartola Ricardo Teixeira, da CBF, e o mandachuva Jérôme Valcke, que dava as cartas no futebol mundial.
Em 2019, a Fundação Darcy Ribeiro inscreveu Raoni no Prêmio Nobel da Paz, mas o comitê do Nobel o esnobou, a exemplo do que anteriormente fizeram com o Marechal Cândido Mariano da Silva Rondon. A esnobação teria sido para não descontentar o então presidente Jair Bolsonaro – desafeto do líder caiapó – ou simplesmente para manter os brasileiros fora da premiação. Naquele ano, o contemplado foi o primeiro-ministro da Etiópia, Abiy Ahmed Ali.
Raoni atravessou um período muito difícil em 2020. Em 23 de junho daquele ano Bekwyjkà Metuktire, sua mulher e companheira inseparável, não resistiu a um infarto. Na solidão de sua rede em Capoto/Jarina, sentia a dor da viuvez paralelamente ao sofrimento com a covid-19, e por nove dias esteve internado no Hospital Dois Pinheiros, em Sinop, sob os cuidados de uma equipe médica chefiada pelos médicos Jorge Yanai e Douglas Yanai.
Forte, abençoado pelos espíritos da floresta, aos 93 anos Raoni permanece cuidando de seu povo sempre ameaçado pelo avanço do desmatamento, poluição das águas e do ar, e a insistência de católicos e evangélicos em catequizar os caiapós em nome da salvação de suas almas – e, claro, de olho no dízimo que parece ser a síntese do cristianismo mercantilizado.