MT: Verso e reverso (101) – Liu Arruda

Eduardo Gomes

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Capítulo 101 da série Verso e reverso de Mato Grosso, com postagem de segunda a sábado, abordando aleatoriamente fatos dos municípios mato-grossenses e figuras da nossa história recente. O texto focaliza o

Completo. Assim era Liu Arruda, senhor absoluto dos palcos, artista que se fundia e se confundia com seus personagens sem perder sua identidade.

O humor de Liu Arruda não se resumia ao linguajar cuiabano dos quase 40 tipos por ele criados: ia muito além, atravessava a barreira do imaginário, tinha na ponta da língua a frase ferina para satirizar políticos e a chamada alta sociedade.

Liu Arruda era cuiabano de berço e recebeu o nome civil de Elonil de Arruda. Jornalista por formação acadêmica (Universidade Gama Filho, no Rio de Janeiro) e ator por opção – e convicção -, participou de novela apresentada pela Rede Bandeirantes de Televisão e de Especial na TV Manchete, mas era no palco, vivendo seus personagens, que ele mostrava o melhor de sua arte, única, ácida com os políticos, impagável.

Irreverente, Liu Arruda não se limitou a criar personagens isolados no contexto: constituiu uma família bem pirada. A figura central era Comadre Nhara, que satirizava a colunista social do Jornal Diário de Cuiabá, Vanessa Komenta. O marido da comadre era D’Juca e o casal tinha dois filhos: Ramona – louca varrida – e Gladstone – noiado, chegado ao cigarrinho de maconha.

Nhara inspirou outros humoristas cuiabanos, que criaram personagens com o DNA do linguajar, dos trejeitos, do penteado, da maquilagem e das roupas que nasceram da genialidade de Liu Arruda para a desbocada comadre.

Além de perfeito no palco, Liu Arruda também abriu o mercado ao humor nos comerciais de televisão e no rádio de Cuiabá. Seu talento a serviço nas peças publicitárias da rede de Supermercado Trento marcou época e popularizou a marca daquela empresa.

DIGORESTE – O humor de Liu Arruda despertou a autoestima do cuiabano para o seu linguajar. Até então, o sotaque e as expressões verbais da região eram mantidos longe do rádio, da televisão, dos comerciais e das peças teatrais, como se fossem depreciativos.

Rompendo uma idiota barreira que escondia o cuiabanês, bem ao estilo da síndrome do Cachorro Vira-lata, Liu Arruda oficializou o sotaque cuiabano, que é cantado, puxado ao xis, que dá pronuncia de “d” ao “j” e popularizou a expressão digoreste – abrangente, mas sempre significando algo bacana.

Com a ousadia de Liu Arruda, o falar cuiabano virou motivo de orgulho. “Sou de ‘tchapa’ e ‘crux’ – dizem com orgulho os que nasceram e que pretendem morrer na quase tricentenária cidade fundada pelo bandeirante Pascoal Moreira Cabral Leme.


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CRÍTICO – Jayme Campos era governador (1991/94) e Mato Grosso reverenciava a primeira-dama Lucimar Sacre de Campos. Nos municípios, mulheres ligadas aos meios políticos brigavam pelo comando municipal da “Liga das Amigas e Admiradoras da Lucimar” – (LAAL). Liu Arruda não perdoou. Criou a LIAL, que era a sigla da “Liga das Inimigas das Amigas e Admiradoras da Lucimar”.

ADEUS – O último ato do ator e humorista não foi uma tirada apimentada para levar o público ao delírio. Precocemente, aos 42 anos, o riso de Liu Arruda se apagou para sempre, deixando um vazio enorme e o palco sem graça nesta terra que tanto precisa de críticos e de humoristas.

Desde o adeus de Liu Arruda, em 24 de outubro de 1999, o humor em Cuiabá nunca mais foi o mesmo.

Sem Liu Arruda Cuiabá ficou sem a crítica política no palco. Hoje, tudo que há nessa área é humor chapa branca, que leva ao riso bajulativo aos donos do poder, claro, que remunerado formal ou informalmente.

PS – Continuem lendo a série. Amanhã (18), o capítulo 102.

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