Trigésimo quinto capítulo da Série Verso e reverso de Mato Grosso, com postagem de segunda a sábado, abordando aleatoriamente fatos dos municípios mato-grossenses e figuras da nossa história recente.
Empresário bem-sucedido no Rio Grande do Sul, Guilherme Meyer, apelidado Willy, era audacioso em seus sonhos e enxergava além da linha do horizonte. Somente alguém com seu perfil seria capaz de liderar um empreendimento sem nenhum incentivo oficial para criar um projeto de colonização na Amazônia Mato-grossense, em 1955, na área hoje conhecida por Nortão e que á época não tinha uma vila sequer. Essa aventura resultou na emancipação do município de Porto dos Gaúchos, em 11 de novembro de 1963. Mais que fundar uma cidade, Willy inspirou o modelo de colonização que ocuparia o vazio demográfico e transformaria Mato Grosso num dos mais importantes pilares da política se segurança alimentar mundial.
Willy nasceu em 11 de novembro de 1921 na Linha República, município de Santa Rosa (RS), na região mais alemã fora da Alemanha. Mesmo assim, incorporado ao Exército Brasileiro, foi enviado ao teatro de guerra contra o nazifascismo, mas acabou não embarcando em razão da morte do pai. No posto de sargento, deixou o Exército.
Sócio com os irmãos numa transportadora e uma fábrica de móveis em Santa Rosa, Willy voltou o olhar para Mato Grosso, atraído pela mística da região e pelo programa de ocupação do vazio demográfico do Brasil interior criado por Getúlio Vargas.
Em 1º de outubro de 1954, Willy e seus irmãos criaram a Colonizadora Noroeste Matogrossense Ltda. (Conomali) com sede em Santa Rosa, para vender lotes da Gleba Arinos, de 120 mil hectares, que compraram de Afrânio Motta, em Diamantino, e que mais tarde seria aumentada para 220 mil hectares. Em 12 de dezembro de 1954, antes mesmo de pisar o solo da gleba, Willy instalou em Porto Alegre um escritório de venda de lotes rurais.
Num monomotor e acompanhado pelo diretor da Conomali, Alfredo Leandro Carlson, Willy sobrevoou parte da gleba. Em Santa Rosa, Willy organizou uma expedição para ocupar a Gleba Arinos. Em 23 de março de 1955 um comboio deixou aquela cidade em busca do local distante 2.500 quilômetros, num ponto perdido que nem nos mapas figurava. Depois de 45 dias na estrada e navegando pelo Arinos, a expedição de Willy desembarcou num atracadouro que recebeu o nome mais indicado: Porto dos Gaúchos, ao lado da ilha Coração Partido, no rio Arinos.
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O povoado ganhou ares de vila e não demorou para se emancipar de Diamantino, o que aconteceu em 11 de novembro de 1963, graças à articulação de Willy, pois o lugar não tinha infraestrutura para sede de município. A lei que o emancipou foi de autoria dos deputados Agápito Boeira e Walderson Coelho e sancionada pelo governador Fernando Corrêa da Costa.
Porto dos Gaúchos foi onde o Instituto Brasileiro da Reforma Agrária (IBRA), embrião do Incra, aprovou o primeiro projeto de colonização rural no Brasil – empreendimento que levou a chancela de Willy à frente da Conomali, que tinha em sua gerência uma das figuras mais emblemáticas do Vale do Arinos, José Pedro Dias, o Zé Paraná.
Willy foi o primeiro prefeito e mais tarde conquistou o segundo mandato. Mais que esse cargo, fundou o município e conseguiu colonizá-lo sem nenhum tipo de apoio por parte dos governos federal e estadual. O acesso a Porto dos Gaúchos era pelo Arinos, mas a Conomali abriu uma estradinha que fazia sua ligação com a Estrada do Rio Novo. À margem dessa via a comerciante Rosalina de Jesus Maciel, a Baiana, montou uma pensão e restaurante. Seu estabelecimento, mais que ponto de apoio aos viajantes, virou referência, e ela emprestou seu apelido à rodovia quando de sua estadualização com a nomenclatura MT-338 Estrada da Baiana.
Na região, Baiana não foi o único nome feminino forte: Carmem Lima Duarte certa feita disputou e venceu a eleição para prefeita de Porto dos Gaúchos.
Em 8 de fevereiro de 1994, em Porto Alegre, o colonizador e sonhador fechou os olhos para sempre. Seu corpo foi sepultado na capital gaúcha e mais tarde trasladado para o cemitério de Porto dos Gaúchos, onde seu túmulo está ao lado do jazigo de sua mulher, Gertrudes.
Porto dos Gaúchos ganhou o Museu da Colonização Guilherme Meyer, e seu dia a dia é divulgado por vários jornalistas do município, com destaque para Roseno Barros, que edita o site local portonoticias.com.br
Em 18 de março de 1997 o governador Dante de Oliveira sancionou uma lei do deputado José Riva denominando de Rodovia Guilherme Meyer o trecho da MT-220 entre a BR-0163 e Porto dos Gaúchos. Porém, a aprovação do projeto de lei dos deputados Dilmar Dal Bosco e Baiano Filho sancionado pelo governador Pedro Taques rebatizou o mesmo trecho de Rodovia Ivete Maria Crotti Dorner. Ivete morreu em 6 de maio de 2015 num acidente naquela estrada; a camionete que ela dirigia capotou. A homenageada era mulher do ex-deputado federal, Roberto Dorner, que é prefeito de Sinop.