Série Verso e reverso de Mato Grosso (21)
Eduardo Gomes
@andradeeduardogomes
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Vigésimo primeiro capítulo da Série Verso e reverso de Mato Grosso, com postagem de segunda a sábado, abordando aleatoriamente fatos dos municípios mato-grossenses e figuras da nossa história recente
Otavio Eckert é gaúcho de Carazinho, tem 90 anos e desde 1974 está em Campo Verde. Antes de vir para Mato Grosso morou por cerca de 20 anos no Paraná, primeiro na cidade de Palmeira e depois em Capanema.
Em 1975, Eckert instalou um posto de combustível no entroncamento da BR-070 com a MT-140, ao qual deu o nome de Posto Paraná, empreendimento que foi o embrião de Campo Verde.
Em 1984, devido às dificuldades do lugar, como falta de uma agência bancária, que o obrigava a ir três vezes por semana a Cuiabá, e de uma escola para os filhos, Eckert então decidiu criar um loteamento.
Para impulsionar o crescimento do local, Eckert impôs uma regra: quem comprasse um ou mais lotes deveria iniciar a construção em até três meses. Se o prazo não fosse cumprido, o terreno era retomado pelo colonizador, e o dinheiro, devolvido. “Em muitos casos eu não executei a cláusula do contrato e dei mais três meses de prazo”, lembra.
Como forma de atrair mais compradores e melhorar a vida de quem já morava na localidade, Eckert construiu com recursos próprios 17 quilômetros de uma linha de alta tensão desde a antiga fazenda Olvebra até a cidade embrionária. Também edificou o prédio para a instalação do posto telefônico e perfurou um poço artesiano. Durante muitos anos forneceu energia e água, gratuitamente aos moradores.
Eckert também doou terrenos para várias igrejas e para a construção de prédios públicos. O Juventude Esporte Clube, também chamado Clube da Soja, fundado em 1986, está construído em área de mais de 10 mil metros quadrados doada por ele.
Visionário, o fundador de Campo Verde investiu na implantação de uma emissora de televisão (TV Real) em 1993, quando Campo Verde contava com pouco mais de 5 mil habitantes. Em 2002 colocou no ar a Rádio Cidade Bela FM. Foi vereador de 1993 a 1996.
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UM VOTO – Até a década de 1970, a região de Campo Verde era explorada pela pecuária, além de ser ponto de passagem de boiadas e garimpeiros. O aglomerado ganhou contornos urbanos em 1984. O posto de Eckert tornou-se ponto de parada para quem dirigia-se pela MT-140 a Nova Brasilândia, então distrito de Chapada dos Guimarães e chamada de Fica Faca. Pelo apelido do distrito, a estrada que o ligava à malha rodoviária nacional passou a ser conhecida como Estrada do Fica Fica.
Em 1976, estive entre os clientes da lanchonete do posto de Eckert, que pela manhã oferecia pães caseiros e café com leite.
Eckert decidiu lotear parte de suas terras ao lado do posto, para a formação de um povoado. O risco de o negócio não prosperar não podia ser descartado em 1980, pois antes, Júlio Pavlac criou o Loteamento Jupiara, onde hoje existe Campo Verde, mas o negócio não prosperou.
Em 1984, mesmo correndo risco, Eckert registrou o Loteamento Campo Real, na Prefeitura de Dom Aquino e ele transformou-se no distrito de Posto Paraná. O nome do empreendimento imobiliário era uma homenagem à cidade gaúcha de Não-Me-Toque, que antes teve o nome alterado para Campo Real, mas que retornou à antiga denominação por decisão da população, em plebiscito – o primeiro realizado no governo militar instalado em 1964.
Quanto ao distrito Posto Paraná, no loteamento de Eckert, um plebiscito promovido pela Prefeitura de Dom Aquino, entre os primeiros moradores, mudou seu nome para Campo Verde, que bem define a região: um verde campo que some no horizonte e parece não ter fim.
Assim, o Posto Paraná virou Campo Verde, mas Eckert queria que sua denominação fosse Campo Real. O colonizador ainda hoje lamenta ter sido isolado do processo de escolha do nome, pelo prefeito de Dom Aquino. “Nem do plebiscito sabia”, revela.
Eckert admite que gostaria que o nome de seu empreendimento fosse mantido e questiona o resultado: se tivesse votado juntamente com minha família, por certo, Campo Real venceria. Segundo ele, Campo Verde ganhou por apenas um voto.
CAMPO VERDE – O município de Campo Verde tem 50 mil habitantes. É um dos principais polos da cotonicultura mundial e um grande celeiro nacional de produção de grãos. A cidade com alto padrão residencial e boa qualidade de vida é dividida ao meio pela BR-070 que liga Cuiabá a Brasília via Barra do Garças. Além de tudo isso, sua população tem o privilégio de conviver com o visionário Otávio Eckert, que deu o sopro de vida ao lugar.
PS – Continuem lendo a série. Amanhã (17) o vigésimo segundo capítulo
Foto: Eduardo Gomes em 2007