Silêncio em Cuiabá sobre o aniversário do 9º BEC
Por
Eduardo on 31 de janeiro de 2026
EDUARDO GOMES
@andradeeduardogomes
eduardogomes.ega@gmail.com
Na foto acima, a abertura da BR-163 pelo 9º BEC no Nortão
Cuiabá, domingo, 31 de janeiro de 1971. A cidade amanhece debaixo de um toró bem característico do inverno amazônico antes do ataque sistemático, recorrente e cada vez maior aos seus biomas. Naquela data, o 9º Batalhão de Engenharia e Construção (9º BEC) denominado Batalhão General José Vieira Couto de Magalhães instalava-se entre os cuiabanos com a missão de construir a BR-163 que chamamos de Cuiabá-Santarém, e que no Pará é a Santarém Cuiabá. À sua frente o comandante coronel Roberto Azevedo da Rocha Paranhos. A construção da BR-163 por ele e o 8º BEC de Santarém, foi uma das grandes obras de integração nacional quando o vazio demográfico caracterizava o espaço de 1.770 km entre as cidades em seu extremo. Transcorridos 55 anos, não vejo nenhuma manifestação de felicitação e de apreço por parte de Mato Grosso àquela unidade militar, que ao executar a obra que o Ministério dos Transportes delegou ao Ministério do Exército, que lhe deu aquela incumbência. Lamentável.
No rastro das esteiras dos tratores do 9º BEC, que ao longo da execução a obra foi comandado pelo coronel José Meirelles, brotaram 35 das 36 cidades do Nortão, onde o único núcleo urbano organizado socialmente era Porto dos Gaúchos. Além disso, no entorno de Sinop, Sorriso, Alta Floresta, Lucas do Rio Verde, Nova Mutum, Colíder, Guarantã do Norte, Peixoto de Azevedo, Marcelândia, Tapurah, Cláudia e das demais localidades construiu-se um dos principais pilares da política de segurança alimentar mundial.
No mesmo rastro vieram os pioneiros que ocuparam o vazio demográfico. Houve ciclos migratórios com levas de ousados sonhadores do Brasil litorâneo e do interior no Sul, Sudeste, Nordeste e em parte do Centro-Oeste, e que buscavam horizontes, lugar para viver em paz, espaço para cultivar o solo e a segurança jurídica na zona rural que não encontrava em seus lugares de origem.
Em nenhuma região do Brasil existe um bolsão de desenvolvimento como aquele formado por Nova Mutum, Lucas do Rio Verde, Sorriso e Sinop. Essa área é resultado da construção da BR-163. Mato Grosso e o Pará devem muito ao 9 BEC e ao 8º BEC. Os dois estados incorporaram ao seu processo econômico e ao seu contexto social a realidade que surgiu com a grande rodovia longitudinal que o coronel Meirelles chamada de “A Predestinada”.
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Com a BR-163, que é um caminho seguro a alguns portos do Arco Norte, aprendemos também que o Pará não é um lugar distante e estranho, mas um vizinho muito identificado conosco. A estrada encascalhada inaugurada em 20 de outubro de 1976 pelo presidente Ernesto Geis0el ganhou imponente pista asfaltada que liga Cuiabá ao porto de Miritituba, em Itaituba (PA) e por onde a economia do Nortão escoa considerável parte de sua macro produção de soja e milho.
Além da BR-163, de várias outras obras executadas pelo 9º BEC e de sua atuação internacional como Força de Paz da ONU, com a prestação do Serviço Militar suas fileiras formaram gerações de brasileiros que não se cansam em permanecer lhe rendendo as mais respeitosas continências.
Com tristeza vejo o silêncio em Cuiabá sobre a data e essa postura de indiferença reforça minha convicção que lamentavelmente nesta abençoada e ensolarada terra os temas dominantes na imprensa e nas redes sociais são externos.
Nesta data, saúdo o 9º BEC, seu comandante tenente-coronel Laureano, oficiais, praças, seus ex-integrantes e todos os militares e civis – com destaque para o topógrafo Antônio Nunes Severo Gomes – que participaram da epopeia da construção de A Predestinada. Lembro que em 2016 escrevi o livro com a capa em anexo, comemorando os 46 anos do começo da obra por equipes do 9º BEC, em 1970, alguns meses antes de sua instalação em Cuiabá.
Foto: 9ª BEC
Capa do livro: Edson Xavier