PREÂMBULO – Posto o sexto dos 10 capítulos do livro que escrevi narrando a vida pública do deputado estadual Júlio Campos (União) – que em boa parte se funde e se confunde com a própria existência dele.
Nove capítulos estão editados e revisados. O décimo e último depende do desenrolar dos fatos políticos, sobretudo quanto à pretensão do seu irmão, o senador Jayme Campos (União), em concorrer ao governo. O governador Mauro Mendes e a cúpula que verdadeiramente dá as cartas no União Brasil não apoia Jayme e defende o nome do vice-governador Otaviano Pivetta (Republicanos) para o Palácio Paiaguás. Aparentemente, quanto ao sonho de Jayme, Inês é morta. Porém, para o complemento e título da obra não basta a crença de que Jayme dançou: é preciso citar o caminho que os irmãos Campos tomarão e qual será o papel político de Jayme e Júlio.
No cenário de agora não é possível concluir a obra, mas em breve teremos o fim do impasse, o que me permitirá escrever o décimo capítulo e dar o nome ao livro. Aguardem!
Sugiro que leiam os cinco primeiros capítulos neste blog buscando os títulos: Livro narra a vida e obra de Júlio Campos, o aniversariante de hoje (o primeiro); Segundo capítulo do livro sobre a vida pública de Júlio Campos;Terceiro capítulo do livro sobre a vida pública de Júlio Campos;Quarto capítulo do livro sobre a vida pública de Júlio Campos; e Quinto capítulo sobre a vida pública de Júlio Campos.
Observo que o sexto capítulo é ilustrado por nove fotos, mas que nesta amostragem há somente três – e lamentavelmente sem o tratamento que lhes foi dado para a obra; há, também, uma ilustração.
Sexto capítulo do livro sobre a vida pública de Júlio Campos
Dona Amália e seo Fiote, vitoriosos em 1990
O domingo, 3 de outubro de 1990 foi um dia de realização para Dona Amália e seo Fiote. Naquela data, pela primeira vez no Brasil – e única até agora – dois filhos de um casal foram eleitos num mesmo pleito, para governador e senador: Jayme Campos venceu a disputa ao governo e Júlio Campos conquistou o Senado, ambos pelo PFL.
Jayme Campos venceu a eleição para governador com o vice Osvaldo Sobrinho. Os suplentes de Júlio Campos foram Zanete Ferreira Cardinal (PFL) e Antônio Kato (PL). Antes, o engenheiro civil e pecuarista Zanete foi prefeito de Rondonópolis e deputado estadual. Kato é médico e presidiu o Centro de Reabilitação Integral Dom Aquino Corrêa (CRIDAC) em Cuiabá.
O Senado, como se diz, é a casa da maturidade. Para Júlio Campos a Câmara Alta também foi a oportunidade para cruzar sua vivência política na esfera executiva com o desempenho parlamentar. Enquanto senador, foi incansável na defesa do governo de sua terra, do qual foi titular e que naquela quadra era exercido por seu irmão Jayme Campos.
Uma das demandas era a ligação ferroviária de Mato Grosso com São Paulo. Júlio Campos lutou pelos trilhos e a Ferronorte executou o trecho entre Aparecida do Taboado (MS) e Alto Taquari, num trajeto de 410 km. Ele assumiu a bandeira pelo avanço da pavimentação na BR-158 no Vale do Araguaia e a consolidação do corredor Mato Grosso-Rondônia pelo Chapadão do Parecis.
Em Cuiabá o governador Jayme Campos precisava de recursos federais para levar adiante sua administração. Júlio Campos tinha forte ligação com o presidente Fernando Collor e com o vice Itamar Franco, graças aos seus caminhos que se cruzam em Brasília, e também com Marco Maciel, que foi vice-presidente de Fernando Henrique Cardoso, já que ambos eram correligionários.
Quando Júlio Campos foi senador o volume de produção agropecuária mato-grossense ganhou impulso. Em 1996 entrou em vigor a Lei Kandir, que desonera a exportação de commodities. Na fase de tramitação dessa lei, Júlio Campos participou das articulações para sua aprovação. O senador levava em conta o índice de continentalidade das lavouras mato-grossenses, situação essa que as deixava em desvantagem em relação aos estados litorâneos ou mais próximos dos portos. No primeiro momento – avalia – a lei foi benéfica para todos. Posteriormente, com a pavimentação de rodovias e a construção da Ferrovia Senador Vicente Vuolo ligando Rondonópolis a Santos, a Lei Kandir passou a merecer uma ampla discussão, mesmo com o governo assumindo compromisso de compensar financeiramente os estados exportadores.
Júlio Campos no mural com sua foto entre os vice-presidentes do Senado
No Senado Júlio Campos foi primeiro-secretário e segundo vice-presidente da mesa diretora; no cargo foi condecorado por Collor com a Ordem do Mérito Militar no grau de Comendador Especial.
Jayme Campos realizou um governo caracterizado por grandes obras em todas as regiões, mas faltou a ele a habilidade necessária para manter a união de seu grupo. Em 1994 os irmãos Campos não disputaram as eleições, mas lançaram candidatos, que nas urnas fracassaram.
Osvaldo Sobrinho (PTB) vice de Jayme Campos se candidatou ao governo e foi batido no primeiro turno por Dante de Oliveira (PDT), com o vice Márcio Lacerda (PMDB). O companheiro de chapa de Sobrinho foi Filinto Corrêa da Costa (PFL), e sua chapa recebeu 167.072 votos (25,27%); Dante venceu com 471.104 votos ((71,27%). Para o Senado foram eleitos Jonas Pinheiro (PFL) e Carlos Bezerra (PMDB). Para a Câmara os irmãos Campos não conquistaram uma cadeira sequer. A bancada foi formada por Roberto França (PSDB), Antônio Joaquim (PDT), Rogério Silva (PPR), Wellington Fagundes (PL), Gilney Viana (PT), Teté Bezerra (PMDB), Rodrigues Palma (PTB) e Augustinho Freitas Martins (PP). Para a Assembleia o PFL elegeu seis: Romoaldo Júnior, Humberto Bosaipo, Renê Barbour, Dito Pinto, Emanuel Pinheiro e Moisés Feltrin; os demais foram Serys Slhessarenko (PT), Pedro Satélite, José Lacerda e Nico Baracat (PMDB), Paulo Moura (PPR), Carlos Roberto Santana, Chico Daltro, Wilson Santos e Zilda Pereira Leite (PDT), Joaquim Santos, Gilmar Fabris, Amador Tut e Manoel do Presidente (PL), José Riva e Jorge Abreu (PMN), Luiz Soares e Ricarte de Freitas (PSDB) e Eliene Lima (PSB).
Naquele ano, José Riva se elegeu deputado estadual com uma modesta votação, e mesmo assim assumiu a liderança da Assembleia por 20 anos, ora na presidência ora na primeira secretaria. Nesse período Riva esteve à frente de um esquema corrupto, que segundo ele, em delação premiada homologada pelo desembargador do TJ, Marcos Machado, desviou 175 milhões dos cofres públicos. José Riva relacionou dezenas de políticos que teriam sido beneficiados pelo esquema, em razão da delação sua pena foi pequena: 4 anos, cumpridos em prisão domiciliar e ele pactuou que devolveria 92 milhões. José Riva somente saiu das disputas eleitorais em 2014, quando foi alcançado pela Lei Ficha Limpa, que decretou sua inelegibilidade. José Riva recebeu a pecha de maior ficha suja do Brasil.
Também naquele ano, Jorge Abreu foi eleito deputado estadual. Porém, um acidente aéreo em 19 de setembro de 1998 na cabeceira da pista em Jauru botou fim à sua carreira política, aos 44 anos, quando ele estava em campanha pela reeleição. O monomotor Corisco PT-NQG tentou decolar para Comodoro, perdeu sustentação, caiu e explodiu. Jorge Abreu, o piloto João Figueiredo e o político Ronald Borges morreram no local. Márcio Ronaldo de Deus da Silva, assessor do parlamentar, sobreviveu.
Jorge Antônio de Abreu era paranaense, engenheiro civil e empresário; desde criança morava em Sinop onde administrava negócios da família e por duas vezes foi vereador (1988 e 1992). A Câmara de Sinop deu seu nome ao plenário das deliberações. A viúva Sinéia Abreu, foi vice-prefeita de Sinop em 2000 e vereadora em 2004. Seu filho, Paulo Abreu, o Paulinho Abreu (Republicanos) é vice-prefeito de Sinop.
Em 1996 Jayme Campos disputou e novamente venceu a eleição para prefeito de Várzea Grande. Pelos próximos quatro anos ele estava acomodado no poder. Porém, Júlio Campos corria contra o relógio e tentou uma jogada política para 1998, mas não deu certo.
Uma estranha aliança
Em 1998, ao término do mandato, Júlio Campos concorreu ao governo, mas a estranha aliança que formou com seu eterno adversário Carlos Bezerra (PMDB) pegou Mato Grosso de surpresa, e ambos foram derrotados: ele não conseguiu o segundo mandato de governador e Bezerra foi batido na disputa pelo Senado. É preciso observar que Bezerra disputou a reeleição para senador quando ainda tinha quatro anos de mandato; à época, analistas disseram que Bezerra fez a dobradinha com o adversário, para retirá-lo do caminho.
Não deu certo a dobradinha Júlio Campos e Bezerra
Dante de Oliveira (PSDB) numa chapa tucana com o vice Rogério Salles chegou ao Palácio Paiaguás. Antero Paes de Barros (PSDB) venceu a disputa com Bezerra. O vice de Júlio Campos foi Rodrigues Palma (PTB) e sua chapa recebeu 332.023 votos (37,91%). Dante, pelo PSDB, cravou 472.409 votos (53,95%) e venceu no primeiro turno. Também disputaram Carlos Abicalil (PT), Manoel Novaes, o Zebra (PRONA) e Jacques Carvalho (PRTB). Bezerra disputou tendo na suplência Anildo Lima Barros (PMDB) e Jeremias Pereira Leite (PMDB).
Com a aliança, Bezerra empurrou Júlio Campos para o abismo e o deixou sem mandato, enquanto no Palácio Paiaguás governava Dante, seu antigo aliado, e o vice-governador Rogério Salles foi seu vice-prefeito em Rondonópolis.
As críticas aos dois políticos foram muitas e não faltou quem dissesse que Bezerra ‘vendeu’ o PMDB para Júlio Campos. Com ou sem venda, o certo é que Bezerra encontrou um meio para atrapalhar a campanha do tradicional adversário circunstancialmente feito aliado. Essa foi a segunda grande vitória na luta de ego e pelo poder, entre os dois. A primeira vez que Bezerra venceu Júlio Campos não foi nas urnas, mas sim numa verdadeira jogada de mestre, que transformei num dos capítulos do meu livro Dois dedos de prosa em silêncio, pra rir, refletir e arguir, que publiquei em 2015 sem apoio as leis de incentivos culturais, ilustrado por Generino Rocha, com capa de Edson Xavier, e com o título abaixo:
Esse Carrlox não tem djeito
No começo de 1983 Carlos Bezerra (PMDB) assumiu a prefeitura de Rondonópolis com boa parte da cidade esburacada e com voçorocas. Com poucos equipamentos não teve alternativa senão recorrer ao governador Júlio Campos (PDS), que também acabava de chegar ao poder.
Júlio Campos o recebeu com um largo sorriso: “’Carrlox’, meu velho” e um abraço de urso. A conversa foi curta e o prefeito deixou o Palácio Paiaguás com duas certezas: o problema seria resolvido e ele ainda daria uma bordoada política no governador. O anfitrião sorria intimamente: “Com essa eu vou triturá-lo”, pensava com seus botões.
A cadeira que foi ocupada por Bezerra ainda estava quente quando os repórteres da imprensa amiga chegaram ao gabinete pra coletiva convocada às pressas pelo governador.
Em tom paternal Júlio Campos narrou à situação em Rondonópolis. Disse de seu respeito pela cidade de Daniel Moura, Hélio Cavalcante Garcia e Walter Ulysséa. Assegurou que enviaria uma patrulha mecânica para restaurar as ruas, ainda que fosse preciso passar por cima do prefeito, que nunca o procurou e teria lhe mandado recado desaforado.
No dia seguinte os jornais informavam que o governo socorreria Rondonópolis. Cautelosa, a Imprensa não tocou nas bravatas de Júlio Campos, pois Bezerra estava na pauta pra governador, com enorme possibilidade de vencer a eleição em 1986. Os comunicadores acendiam uma vela ao dono do poder, mas não apagavam a outra, do futuro mandachuva.
Júlio Campos foi cedo ao Departamento de Viação e Obras Públicas (DVOP) e deu a largada para a saída da patrulha mecânica. A TV Centro América transmitiu. Perplexos, os assessores de Bezerra assistiram os basculantes, carretas com motoniveladoras e tratores embarcados pegando a estrada. Foi um corre-corre danado pra casa do prefeito em Vila Aurora.
Os assessores não sabiam do encontro de Bezerra com Júlio Campos e temiam que a intervenção administrativa prejudicasse o cacique peemedebista. Preocupados se espalharam nas cadeiras da varanda enquanto o chefe tomava banho para começar o dia. O mais preocupado e indignado era um jovem engenheiro civil que trabalhava no pátio da prefeitura e que por essa função teve seu nome de José Carlos Junqueira de Araújo trocado pelo apelido de Zé Carlos do Pátio; mais tarde Zé Carlos do Pátio seria vereador, deputado estadual e prefeito, e agora novamente está na Assembleia Legislativa.
“Se essas máquinas tentarem entrar na cidade deito-me na frente do comboio”, disse Zé Carlos do Pátio jurando fidelidade com o preço de seu sangue. Bezerra reagiu com um sorrido enigmático. Agradeceu a solidariedade e mandou – ele manda – que cada um saísse de imediato e tratasse de mobilizar o movimento comunitário o mais rápido possível.
O assessor disposto a morrer pelo chefe recebeu a missão especial de coordenar a movimentação dos comunitários, levá-los para o trevo na BR-364, organizar uma carreta que botasse no meio a patrulha mecânica mantendo um carro de som à frente e outro na retaguarda.
Chico Fogueteiro, que não viu a reportagem da TV, foi comunicado pra preparar o foguetório ao longo do trajeto da carreata com a patrulha mecânica. O jornalista Mário Marques, que era secretário de Comunicação da prefeitura, organizou a cobertura ao vivo da Rádio Juventude AM. O circo estava armado!
A patrulha mecânica apontou na linha do horizonte. Bezerra sorria maquiavelicamente. O comboio foi abordado pelo prefeito e precedido e seguido por veículos da carreata com os comunitários entrou na cidade lentamente. À frente, o líder político local na carroceria do carro de som, com um animado locutor enaltecendo sua coragem em impor a vinda das máquinas e caminhões. A população saía às portas e via a passagem por um verdadeiro corredor polonês de foguetório.
Na porta da prefeitura, onde o comboio parou, Bezerra falou de sua coragem em forçar Júlio Campos a enviar o maquinário para retribuir os impostos ali arrecadados. Deu ordem aos presidentes de bairros para assumirem a coordenação dos trabalhos.
Nelson Pereira Lopes, que chefiava o escritório do governo em Rondonópolis, ligou ao governador. Júlio Campos engoliu em seco, mas ainda teve um fiozinho de voz pra admitir a derrota: “Esse ‘Carrlox’ não toma ‘djeito’”. Dois dias depois Rondonópolis estava um brinco e Bezerra mais perto de ser governador.