Conclaves em Cuiabá e no Vaticano

Eduardo Gomes

@andradeeduardogomes

eduardogomes.ega@gmail.com

 

Conclave vem do latim cum clavis, que no velho e bom português quer dizer com chave – e mais precisamente: reunião fechada à chave, isolada do mundo exterior. Conclave é o que vai começar nesta semana no Vaticano, para a escolha do papa que sucederá o hermano Francisco. Hoje, o misticismo da Santa Madre não é nem sombra daquilo que foi até um passado não muito remoto, quando sacerdote celebrava missa em latim e de costas para os fiéis. O tempo encarregou-se de levar a Igreja de Pedro a estampar uma imagem – sem trocadilho – menos clerical e mais popular. Mesmo assim, nós reles mortais mato-grossenses, à distância, pouco sabemos sobre a atípica eleição com eleitorado exclusivo do cardinalato com menos de 80 anos. O método é assustador para os maiores de 18 anos à época, que bebiam água na Terra de Rondon há 20, 30  anos e presenciaram conclaves políticos nada ortodoxos em Cuiabá.

Não é exagero falar em conclave de xomanos em Cuiabá. Com um mínimo de esforço mental, os que estão nas faixas etárias dos 50, 60, 70, 80 ou 90 anos encontrarão na memória registros de vergonhosos conclaves de deputados estaduais para eleição do presidente da Assembleia Legislativa. Isso mesmo!

À época não havia internet. Portanto, não há registro daquele período de ingerência explícita do Executivo sobre o Legislativo. Creio que se houvesse a grande rede os registros seriam feitos por alguns gatos pingados da Imprensa, mas não imagino que as redes sociais tão ferozes sobre temas nacionais abordassem a ordem palaciana para eleger o deputado Fulano.

Certo é que os caciques decidiam que o Fulano seria o presidente, e o Cicrano, secretário. Com todos – ou quase – parlamentares devidamente acertados era tudo questão de esperar o dia da votação. Porém, por prudência – sempre recomendável no ambiente traiçoeiro da politicagem – Suas Excelências eram isoladas do povo – aquilo era um Conclave – com os bolsos regiamente abarrotados. Lembro-me que numa das eleições os 24 membros do Legislativo foram levados para um hotel nas imediações do Trevo do Lagarto, em Várzea Grande, de onde somente saíram para o cumprimento do sacrossanto dever de votar  – e sem saber reforçando aquilo que o coronel e líder líbio Muammar Gaddafi disse em seu famoso Livro Verde, “O Parlamento é a ausência do povo”.

Sem a menor preocupação com a visibilidade do fato, seus agentes ativos e passivos rezavam pela cartilha do mantra: manda quem pode, obedece quem tem juízo. Assim, Mato Grosso renovava a mesa diretora da Assembleia.

O ciclo dos nossos conclaves para a Assembleia passou. Porém, no Vaticano, poderá acontecer um Conclave como aqui acontecia, mas com duas correntes defendendo pensamentos diametralmente opostos como se a Igreja do Pescador estivesse dividida no centro da Guerra Fria, com uma ala democrática e outra comunista.

No mundo em guerra e sob ameaças de guerras, inclusive nucleares, a Santa Madre precisa de um guia evangelizador e que ao mesmo tempo seja um líder mundial pela paz, pela harmonia entre os povos e credos, e o amor entre os filhos de Deus. Nós católicos não precisamos de politização clerical, mas de ação social e que ela venha com a fumaça branca anunciadora do sucessor de Pedro.

Temo pelo Conclave no Vaticano quando vejo entre seus eleitores um cardeal que por curto tempo foi bispo prelado em São Félix do Araguaia e que juntará seu voto ao dos outros 251 cardeais para eleger o Sumo Sacerdote. Dom Leonardo Ulrich Steiner, arcebispo metropolitano de Manaus e rotulado defensor da floresta, um dia bebeu água do rio Araguaia ao ser designado para a missão prelatícia vaga com a aposentadoria canônica de Dom Pedro Casaldáliga – o Pedro. No currículo de Dom Leonardo sua passagem por Mato Grosso no período de 2005 a 2012, quando pegou a estrada e partiu.

A vida religiosa de Dom Leonardo, de conhecimento público pelos registros da Igreja Católica Apostólica Romana e sua condição de primo de Dom Paulo Evaristo Arns – uma das referências sacerdotais brasileiras – que o ordenou sacerdote, saltarão aos olhos do mundo católico verde e amarelo de tal modo que não faltarão sonhos com sua escolha para calçar as Sandálias do Pescador. Porém, na minha crônica paixão por Mato Grosso, o vejo com cautela, pois sua passagem pela terra dos meus filhos Agenor e Eduardinho; de minha nora Yasmin; de minha neta Ana Júlia; e de minha netina Mariana que chega neste mês, foi marcada pela tentativa de apunhalamento moral do Pedro da Prelazia de São Félix do Araguaia, por puro ciúme de sua grandeza social e dimensão internacional. Dom Leonardo tentou por todos os meios expulsar Pedro, mas foi vencido pela mão Divina. Digo isso com a isenção de quem sempre manteve texto crítico sobre Pedro, durante décadas.

O melhor conclave é aquele que não acontece. Toda decisão tem que ser pública, escancarada, transparente, limpa como as águas do Araguaia do Pedro da Prelazia, como a luz do sol. Porém, pelo rito canônico, a escolha do Santo Padre passa pelo cardinalato. Que o Espírito Santo ilumine aquela assembleia e não permita sua ideologização nem que o escolhido carregue sentimento de inveja e egoísmo.

Os mato-grossenses fizeram pouco para eliminar os conclaves para a escolha do comando da Assembleia e não os vejo se manifestar sobre Dom Leonardo. Porém, a evolução da espécie – creio que por inspiração Divina – nos faz avançar. Que em breve ouçamos a esperada frase: Habemus Papam!  E que a escolha não se prenda ao isolamento constrangedor do Conclave, mas ao reconhecimento do cardinalato sobre o espírito cristão do novo Pontífice. Sabemos o preço das imposições para a eleição de presidentes da Assembleia, que abriram feridas que ainda sangram pelo furto recorrente ao erário público. A Igreja Universal de Jesus Cristo não pode aceitar manobras cardinalícias e incorrer na repetição dos erros de Mato Grosso.

Fotos:

1 – Agência Brasil