Boa Midia

Amazônia negra será protagonista no desfile da Mangueira

Cristina Índio do Brasil – Agência Brasil

RIO DE JANEIRO

“Chamei o povo daqui, juntei o povo de lá / Na Estação Primeira do Amapá”

Sidnei França, carnavalesco da Mangueira

Esses versos do samba da Mangueira para 2026 já indicam a união das culturas do Norte e do Sudeste do Brasil no carnaval que a escola propõe neste ano. A Verde e Rosa vai desfilar com o enredo Mestre Sacaca do Encanto Tucuju ─ O Guardião da Amazônia Negra.

Quando conheceu a figura de Mestre Sacaca, o carnavalesco, Sidnei França, não sabia quem era ele, mas, com a curiosidade despertada, viu que o seu personagem, já falecido, tinha vivido no Amapá. “Foi um curandeiro, uma pessoa importante para a sociabilidade do povo amapaense e especialmente o povo preto e pobre”, descreveu em entrevista à Agência Brasil.

Ampliando as pesquisas, ele descobriu a ideia muito contemporânea do conceito de uma amazônia negra, o que chamou atenção dele e dos pesquisadores da Mangueira.

“Achamos esse conceito de que o estado do Amapá tem uma autodeclaração negra muito forte. Dois terços do estado do Amapá, no último Censo, se declararam negra. Eles têm um conceito de uma Amazônia negra, de negritude amazônica, que achei muito forte”, comentou, acrescentando que isso os levou a pensar a Amazônia em um outro sentido, diferente “do pensamento colonizado brasileiro da Amazônia essencialmente como floresta e enquanto ocupação indígena”.

“É uma outra camada de fôlego para o enredo da Mangueira. Olhar para um local, uma região, para um povo que até se acostumou a ser invisibilizado no contexto nacional”, pontuou.

Sidnei França, carnavalesco da escola de samba Mangueira. Foto: JM Arruda/Mangueira

Herança afro-indígena

Na visão do carnavalesco, a escola vai homenagear um homem que dedicou a sua vida a entender o seu povo e o país.

“Ele mergulhou nos rios, se embrenhou nas matas, aprendeu com os negros e os indígenas, por isso o enredo é afro-indígena. O mestre Sacaca carrega essa herança afro-indígena muito ligada à ideia de cura, proteção através de garrafadas, chás, unguentos e infusões”, completou, citando que Mestre Sacaca deixou três livros publicados sobre a cura por meio das ervas.

Sidnei França exalta que o homenageado foi um homem que fez diferença, especialmente, entre o povo de menor condição financeira e que sempre viu a natureza, a floresta amazônica como meio de integração entre o homem e o natural.

“O próprio título do enredo da Mangueira chama ele de guardião da cultura negra”, disse, lembrando que Mestre Sacaca interagiu com tambores de escolas de samba, foi rei momo e tocava tambor de marabaixo ─ manifestação cultural do Amapá.

Encantos tucujus

Para desenvolver o enredo, Sidnei França foi até o Amapá com a equipe de pesquisadores. Uma das descobertas foi a forma de o povo amapaense se autodeclarar afetivamente como tucuju.

“Assim como tem paulista, carioca, potiguar, capixaba, quem nasce derivado do Amapá é tucuju”, contou.

“Cada momento do desfile da Mangueira mostra o Mestre Sacaca encantado pela própria natureza e pela própria identidade tucuju. Ele vai nos apresentando cada momento dessa saga que ele próprio nos deixou”, indicou.

O enredo foi dividido em cinco setores, e cada um fala de um tipo de encanto tucuju para apresentar o envolvimento de Mestre Sacaca com a cultura afro-indígena. O primeiro é o encanto da floresta na região do Oiapoque, mostrando o extremo norte do Brasil.

 Alegorias da Mangueira no barracã

O segundo momento vai trazer o encanto dos rios, quando o Mestre Sacaca mostra as experiências dele ao perambular muito pelos rios amazônicos, onde conheceu as populações ribeirinhas convivendo com tribos indígenas e com quilombos.

“No Amapá, tem muitos quilombos como herança da escravização no Brasil. A grande estrada amazônica é o rio, a principal rota de fluxo de pessoas e mercadorias na Amazônia são os rios, então, o segundo encanto tucuju que Sacaca nos apresenta são os rios”, informou o carnavalesco.

Na sequência é o setor do encanto da cura, com as ervas, os chás e as garrafadas de cura. “Toda a tradição de Sacaca com as ervas para fins medicinais”, apontou.

O quarto é o encanto dos tambores, mostrando a ligação do Mestre com a cultura amapaense. Neste setor estão a dança afro-indígena sairé, o marabaixo, principal manifestação negra do Amapá, as escolas de samba que também existem no estado e a participação dele, por mais de 20 anos, como Rei Momo.

O último setor é o encanto da natureza eterna, a eternidade, quando Mestre Sacaca se eterniza por amar a Amazônia, e a Amazônia se reconhece eterna por revelar a identidade do Sacaca em cada elemento do Amapá, conta Sidnei. Em uma espécie de simbiose, o enredo propõe não haver distinção entre Sacaca e o Amapá.

Voz da Mangueira

Essa autenticidade do enredo está presente também entre os componentes que desempenham funções relevantes na escola. A administração da presidente Guanayra Firmino valoriza a presença dos crias, pessoas que têm origem na comunidade. Uma delas é o intérprete Dowglas Diniz, que este ano assume o lugar que durante anos foi de Jamelão, uma das maiores referências entre os cantores de samba enredo.

Estar pela primeira vez à frente da voz da escola, para Dowglas, é uma sensação de representar milhões de pessoas apaixonadas pela Estação Primeira e a comunidade do Morro da Mangueira, onde nasceu e cresceu.

“Ser a voz da minha escola do coração, para mim, é muito importante. Honrar esse microfone que já foi de Jamelão, Luizito, entre outros, é muito gratificante, poder retribuir tudo que a comunidade faz por mim”, disse à Agência Brasil.

Se a responsabilidade aumentou ao ser o intérprete principal, junto chegou a necessidade de uma preparação ainda mais intensa. São muitos ensaios e trabalho, com uma equipe de fonoaudiólogos, professor de canto e psicólogo.

“Nossa preparação é no ensaio semanal de quinta-feira, de sábado, de domingo. É muita nebulização, comida saudável, muita maçã. A minha preparação está sendo muito rígida e, graças a Deus, tenho uma equipe muito boa de diretores musicais. Acredito que vai dar tudo certo”, desejou.

Esquenta

O ritual que precede o início do desfile é um momento que costuma ser emocionante para os componentes da escola e para o público da Sapucaí.

É a hora em que as agremiações recebem as vibrações das pessoas, em geral torcidas, que lotam o Setor 1 do Sambódromo, um dos mais populares da avenida, com preços que, em 2026, variam entre R$ 15,00 (inteira) e R$ 7,50 (meia-entrada).

Costuma-se dizer que os primeiros componentes a entrar na avenida precisam saudar o Setor 1 para receberem boas energias ao desfile. É ali também que são cantados sambas de carnavais passados que foram sucesso e os sambas de quadra, o famoso esquenta.

Dowglas prevê que, neste momento, vai dar aquele friozinho na barriga, mas, quando a bateria começar a tocar e soar a sirene para o início do desfile, a situação vai se transformar.

“A gente esquece tudo e só canta pelo amor à nossa vida, que, no caso, é a Estação Primeira de Mangueira. É um sentimento muito mágico e único. Espero que seja um carnaval maravilhoso para a gente”, declarou.

Os enredos e a ordem dos desfiles do Grupo Especial do Rio de Janeiro

1º dia – domingo (15/2)

  • Acadêmicos de Niterói – Do Alto do Mulungu Surge a Esperança: Lula, o Operário do Brasil;

  • Imperatriz Leopoldinense – Camaleônico;

  • Portela – O Mistério do Príncipe do Bará;

  • Estação Primeira de Mangueira – Mestre Sacacá do Encanto Tucuju – o Guardião da Amazônia Negra

2º dia – segunda-feira (16/2)

  • Mocidade Independente de Padre Miguel – Rita Lee, a Padroeira da Liberdade;

  • Beija‑Flor de Nilópolis – Bembé do Mercado;

  • Unidos do Viradouro – Pra Cima, Ciça;

  • Unidos da Tijuca – Carolina Maria de Jesus.

3º dia – terça-feira (17/2)

  • Paraíso do Tuiuti – Lonã Ifá Lukumi;

  • Unidos de Vila Isabel – Macumbembê, Samborembá: Sonhei que um Sambista Sonhou a África;

  • Acadêmicos do Grande Rio – A Nação do Mangue;

  • Acadêmicos do Salgueiro – A delirante jornada carnavalesca da professora que não tinha medo de bruxa, de bacalhau e nem do pirata da perna-de-pau.

Fotos: JM Arruda/Mangueira

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