A Geração Z não é o problema. O trabalho é que não acompanhou o mundo
| Rodrigo Dib*
CUIABÁ |
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Ǫuando uma empresa perde um talento jovem no terceiro mês, a narrativa que se instala nos corredores raramente questiona o ambiente. Ǫuestiona o jovem. “Ansioso demais.” “Não soube esperar.” “Essa geração não tem comprometimento.” O diagnóstico se repete com uma uniformidade que deveria, por si só, gerar suspeita — porque quando todo mundo concorda tão rapidamente sobre algo complexo, é sinal de que ninguém está pensando direito.O problema com esse diagnóstico não é que seja completamente falso e sim que para na parte mais cômoda.Se o problema é só comportamental, a solução é simples: corrigir os jovens, treinar resiliência, pregar paciência.Mas se o que chamamos de impaciência for, na verdade, uma incompatibilidade estrutural entre um modelo de trabalho desenhado para outro mundo e uma geração formada em condições radicalmente diferentes, então a conversa muda de tom — e de responsável.Esse segundo caminho é o que o debate corporativo brasileiro insiste em não tomar.O ambiente que formou essa geração não foi acidenteNenhuma geração é resultado só dela mesma.Como sempre falo em fóruns que participo sobre o tema e também no meu livro “O Mundo é seu, mas calma lá”, uma geração é sempre produto direto do contexto em que cresceu. E esse contexto, no caso da Geração Z, é o primeiro na história humana inteiramente organizado sob demanda: streaming que eliminou a grade fixa, e-commerce que encurtou a espera de semanas para horas, comunicação que tornou distância geográfica irrelevante, e agora inteligência artificial que comprime em segundos o que levaria horas de pesquisa. Segundo o IBGE, mais de 90% dos jovens brasileiros entre 15 e 24 anos usam a internet diariamente.Não é dado de acesso — é dado de formação. É o ambiente em que aprenderam o que é normal esperar, o que é razoável exigir, o que significa eficiência.A pergunta que o mercado evita fazer é simples: por que esperaríamos que essa geração chegasse ao trabalho com a mesma relação com tempo e hierarquia que um profissional formado nos anos 1990 — quando conhecimento era escasso, carreira era linear e referências de sucesso eram locais e geracionais?Não é a mesma base cognitiva. Não é o mesmo repertório. Não é razoável esperar o mesmo comportamento e chamar de defeito quando ele não aparece.A narrativa dominante insiste em falta de comprometimento. Os números contam uma história diferente.44% da Geração Z rejeita empregos sem aprendizado contínuo ou desenvolvimento claro. Não é fuga do trabalho — é fuga da estagnação. Deloitte Global Survey, 202423% dos jovens profissionais se consideram engajados no trabalho.O número baixo não reflete preguiça. Reflete desconexão com estruturas que não fazem sentido. Gallup State of the Global Workplace, 2024Há ainda o dado que ninguém gosta de colocar na mesma frase que a crítica aos jovens: o Fórum Econômico Mundial estima que 44% das habilidades profissionais devem mudar até 2027. Isso significa que o mercado que cobra paciência para aprender “o jeito certo” está simultaneamente admitindo que esse jeito certo tem prazo de validade curto.Existe uma incoerência aqui que merece ser nomeada: empresas pedem adaptabilidade como competência, mas resistem quando ela aparece na forma de questionamento do que sempre foi feito assim.O paradoxo que ninguém quer citarExiste uma ironia específica nesse debate que raramente aparece em artigos sobre Geração Z — talvez porque incomode os dois lados. As empresas que mais encantaram essa geração, que moldaram seus valores sobre cultura, autonomia e propósito, são as mesmas que nos últimos dois anos protagonizaram as maiores demissões em massa da história recente e reverteram, uma após outra, suas políticas de trabalho flexível. Google, Meta, Amazon: todas voltaram a cobrar presença, controle e o modelo que antes criticavam publicamente.A Gen Z sente que comprou um ingresso para um show que foi cancelado na metade.Isso não invalida os valores que a Geração Z internalizou. Mas cria uma tensão real e pouco discutida: a geração que foi formada assistindo a promessa de que trabalho poderia ser diferente está encontrando, na prática, um mercado que recua dessa promessa.Parte do desengajamento que o RH trata como traço de personalidade é, na verdade, resposta legítima a uma contradição estrutural — e não tem cura em treinamento de resiliência.O que as organizações que funcionam já entenderamAs empresas que conseguem engajar esse perfil não fizeram milagres nem abandonaram os fundamentos.Fizeram algo mais simples e mais difícil ao mesmo tempo: pararam de usar tempo como principal proxy de valor. Ciclos de feedback mais curtos, critérios de crescimento baseados em entrega e não em tempo de casa, clareza sobre trajetória desde o início — não como promessa vaga, mas como contrato transparente. Autonomia com responsabilidade, não autonomia como slogan. Flexibilidade personalizada, ou seja, desde que você me entregue o que é esperado, eu me adapto a você, sem problemas.O detalhe mais revelador é que essas mudanças melhoram o desempenho em todas as faixas etárias. Profissionais sêniores também respondem melhor a feedback frequente, critérios claros e menos burocracia desnecessária.O que reforça o que o debate insiste em ignorar: o problema nunca foi a geração.A pergunta que ninguém está fazendoEstamos em 2026. A inteligência artificial generativa já mudou, de forma irreversível, o que significa aprender, produzir e gerar valor profissional. Um trabalho que antes levava um dia pode ser feito em horas. Uma pesquisa que exigia semanas pode ser estruturada em minutos. O resultado — quando bem calibrado — continua sendo bom. O que mudou foi o tempo para chegar lá.
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