Boa Midia

Dia Nacional do Livro: a literatura precisa resistir à IA

 Lara Ferry*

NOVA YORK

Eu realmente odeio escrever. O processo todo é solitário. É como fazer terapia com uma página, só que a página nem sequer pergunta: “Então, como isso faz você se sentir?” Ela simplesmente fica ali, encarando você. Coloca as coisas diante de você antes que esteja pronto para admiti-las, às vezes antes mesmo de compreendê-las.

Publiquei meu primeiro livro há um ano e só agora o reli pela primeira vez. Ele não estava pronto. Não está claro, é confuso, é difícil de explicar. Escrevi com papel e caneta, em sete dias, numa cafeteria em frente a uma pequena padaria judaica perto de casa. Não dormi, não falei com ninguém. Não consigo lembrar a sequência exata dos dias; foi um transe, algo que precisava sair de mim, todo dia o mesmo ritual: acordar, café, escrever sem parar, dormir. Café e picles, olhos inchados, cabelo bagunçado, e eu continuava porque não sabia parar. Vomitei tudo ali, no caos e no cansaço. Muita gente acha que escrever é terapia, desabafo, mas a verdade é que eu não escrevo porque amo. Escrevo porque parar parece pior.

No Dia Nacional do Livro, 29 de outubro, falamos de livros como objetos sagrados. Eu prefiro falar do que existe antes deles: a bagunça. E de por que ela está em perigo.

Minha posição é simples: delego a pontuação; não delego a hesitação, a escolha da palavra, a decisão de dizer ou de calar. Sim, eu uso IA para corrigir vírgulas (oi, hipócrita!). Mas vírgula é o único território em que aceito ajuda de uma máquina. O resto é o texto.

Quando éramos pequenos, muitos de nós tínhamos um diário: um lugar secreto onde despejávamos medos, dúvidas, conquistas e alegrias, sem julgamento. Ali não havia perigo de ser estranho demais, profundo demais, ruim demais ou bom demais. Havia apenas você.

Paul Valéry dizia que um poema nunca se termina, apenas se abandona. Abandonar é uma decisão: alguém olha para o texto imperfeito e resolve que é ali que ele para. O texto de IA, hoje onipresente em feeds, memes e modismos, nunca é abandonado, porque nunca foi sustentado. É limpo, correto, impecável, e quase sempre não há ninguém por trás dele, o problema não é que dê para detectá-lo. É que ninguém decidiu nada ali.

E preciso ser honesta sobre o outro lado. Meu livro precisava de um editor. Não de um robô: de uma pessoa. Alguém que dissesse “isto aqui não está claro” e ficasse na sala enquanto eu tentava explicar. Pedi à minha prima, que também é escritora, que lesse este artigo antes de eu enviá-lo, e até isso foi uma experiência nova: me encontrar, entender como escrevo, dividir algo com uma colega. Aprendi a diferença entre revisão e correção, uma pessoa devolve a pergunta; a máquina devolve a resposta. A bagunça do primeiro rascunho é minha, o olhar que a organiza sem apagá-la precisa ser de alguém.

Um amigo me perguntou num brunch por que eu não aproveito a onda: “Você escreve com IA? É tão mais fácil.” É, sim. O texto fica mais limpo e, na minha opinião, tedioso e vazio. Vivemos com pressa, tudo para ontem, e a facilidade, infelizmente, virou virtude.

Eu escrevi toda semana por três meses e tive uma longa pausa recentemente, simplesmente porque nada relevante me veio à mente. Em dias assim, penso que usar IA seria tão mais fácil… Mas é essa pausa que nós, escritores, precisamos. Num mundo que acelera e quer otimizar tudo, quem decide que ela é um desperdício?

Escrevo este artigo agora, sentada num café em Nova York. Acordei e pensei: vou ali escrever. Sentei, e o cheiro de croissant na mesa ao lado chamou minha atenção. Ao meu lado, uma garota também escrevia sem parar, entre uma mordida e um gole de café. Espiei sua tela, parei por um momento e perguntei se era escritora. Era. Conversamos brevemente sobre o café e voltamos aos nossos afazeres: eu, a este artigo; ela, à redação da faculdade. Esse pequeno ato de pausa e intimidade entre desconhecidas só aconteceu porque eu decidi ir à rua para escrever.

Se a literatura vai resistir, não será por proibição. Será por escolhas pequenas e repetidas: sair de casa com papel e caneta, respeitar a pausa, mostrar o rascunho feio a outra pessoa. Resistir, no fim, é continuar a escrever mal antes de escrever bem.

Meu livro não estava pronto. Mas é humano. Nasceu de um caos e de um momento de intensidade na minha vida, e é por isso que o amo: é sincero e imperfeito. Entregar a literatura à perfeição é abrir mão disso.

Eu realmente odeio escrever. Mas continuo, e resisto, porque parar parece pior.

*Lara Ferry é atriz, produtora, escritora e autora do livro “A privacidade é um luxo que o escritor não pode ter” formada em Liberal Arts pela Regent’s University London e reside em Nova York

Deixe uma resposta

Seu endereço de email não será publicado.

8 − 7 =

Este site usa cookies para melhorar sua experiência. Vamos supor que você está bem com isso, mas você pode optar por sair, se desejar. Aceitar Leia Mais

Política de privacidade e cookies