Boa Midia

BR-163 – Grito e sangue na rodovia

Eduardo Gomes

@andradeeduardogomes

eduardogomes.ega@gmail.com

Meio século. A inauguração da  BR-163  completa 50 anos no dia 20 deste mês de outubro. Celebrando a data o blog publica esta série, que não observa cronologia nem prevalência dos fatos. A rodovia que é a alma, o pulmão e o coração do Nortão, também é palco de manifestações e tragédias rodoviárias. O prefeito de Ipiranga do Norte, Ilberto Effting e o líder caiapó cacique Raoni Metutktire são personagens deste capítulo.

 

Grandes rodovias trancadas. Agências do Banco do Brasil isoladas por tratores. A Esplanada dos Ministérios tomada por um mar de chapéus, tratores, colheitadeiras e caminhões. A gigantesca manifestação levou o país a refletir sobre a importância da agricultura, do agronegócio e do produtor rural. Era o Grito do Ipiranga. O ano: 2006. A razão? A busca desesperada por uma política agrícola justa e que oferecesse reais garantias jurídicas a quem produz. Aquele movimento nasceu em Ipiranga do Norte, município à época com um ano de instalação.

O Grito do Ipiranga

O Grito levou o nome do município onde surgiu – Ipiranga do Norte. À sua frente o prefeito e empresário rural Ilberto Effting, o Alemão. O movimento nasceu em Ipiranga do Norte e foi posto em prática em alguns pontos da BR-163 em Nova Mutum, Lucas do Rio Verde, Sorriso e Sinop, e espalhou-se pelos estados produtores. Figuras do meio político e sindical usurparam a liderança de Alemão deixando-o em plano secundário.

Na BR-163 as barricadas feitas com caminhões e tratores impediam a passagem, à exceção das ambulâncias, viaturas e dos ônibus do transporte escolar. Velhas colheitadeiras foram incendiadas. O Ministério Público Federal pediu a desobstrução da rodovia e o juiz federal Julier Sebastião da Silva, da 1ªVara Federal de Cuiabá determinou que a Polícia Rodoviária Federal e a Polícia Federal liberassem as pistas. Em Sorriso, produtores que participavam do movimentaram tentar resistir, mas foram dominados e houve registros de espancamento e prisões com uso de algemas.

O Grito foi sufocado, mas mostrou ao Brasil que era preciso a criação de uma política agrícola com garantias jurídicas.

Ipiranga – A cidade é plana, parcialmente pavimentada, com amplas avenidas, belas residências, recolhe o lixo, mas não trata o esgoto. Seus principais eventos festivos são realizados no Centro de Tradições Gaúchas (CTG) Herança Nativa. De acordo com o calendário agrícola ora a soja ora o milho safrinha a abraçam. O município, instalado em 1º de janeiro de 2005, tem 3.467,051 km² e figura no time dos 11 maiores produtores de soja em Mato Grosso.

O município banhado pelo Teles Pires e seu afluente rio Verde, emancipou-se de Tapurah em 29 de março de 2000 por uma lei de autoria do deputado José Riva, aprovada pela Assembleia Legislativa e sancionada pelo governador Dante de Oliveira. Ipiranga do Norte pertence à comarca de Sorriso. Pela Rodovia Geraldo Francisco Cella (MT-242) a cidade é interligada à BR-163 na zona urbana de Sorriso distante 80 quilômetros. A MT-242 é pavimentada e pedagiada.

Memória – Ipiranga do Norte nasceu da reforma agrária. Começou em 1990 com o embrião do Projeto de Assentamento Ipiranga, na fazenda do mesmo nome, em Tapurah. Os parceleiros em sua maioria eram oriundos de vários estados e em acampamentos aguardavam a distribuição de lotes pelo Incra; parte deles acampou-se em Nobres.

A vila que mais tarde seria a cidade foi inaugurada pelo Incra em 15 de março de 1995 numa área de 200 hectares e sua população predominantemente era formada por parceleiros.

Em maio de 2007 seu primeiro prefeito, o Alemão, foi afastado do cargo por decisão da Câmara Municipal e do Tribunal de Contas do Estado (TCE). O vice-prefeito Orlei José Grasselli, o Graxa – ex-parceleiro – assumiu a prefeitura. Um ano e três meses depois a Justiça devolveu o mandato a Alemão, mas ele permaneceu pouco tempo no cargo. Debilitado e emocionalmente ferido pela condenação, à qual não teve direito de defesa – como atesta sua absolvição judicial. Em 5 de setembro de 2008 Alemão sofreu um infarto em seu gabinete; foi atendido na emergência em seu município e removido para o Hospital Regional de Sorriso, mas não resistiu. Alemão fechou os olhos para sempre. Levou a marca da injustiça que o fulminou. Deixou a chama da luta dos produtores rurais por seus direitos.

O líder caiapó

Aquele homenzarrão forte, com seu botoque inconfundível, roupas coloridas, símbolo e líder do povo Caiapó, ouvido no mundo inteiro e recebido nos gabinetes mais importantes das nações desenvolvidas teimava em conter as lágrimas que, mais teimosas do que ele, rolavam por seu rosto queimado pelo sol xinguano. Com seu choro silencioso, o cacique Raoni Metuktire mostrava seu lado afetivo e familiar. Diante dele, no necrotério, em Nova Mutum, o corpo de seu filho Tedje Metuktire, de 35 anos. Tedje e outros 10 de sua etnia morreram num acidente na BR-163, nas proximidades de Nova Mutum, em 8 de abril de 2004.

A morte de Tedje abalou Raoni. O acidente teria sido causado pelo estouro de um pneu traseiro da van da empresa que transportava de Cuiabá para Colíder um grupo Caiapó que havia participado de um evento em Brasília. Desgovernada, a perua bateu na lateral de um caminhão que seguia em direção oposta causando, também, a morte do caminhoneiro Aparecido Jesus Saldotti, de 43 anos.

No necrotério vi diante de mim um pai arrasado, que nem de longe lembrava o falante e decidido líder Raoni, que é o brasileiro mais conhecido no exterior.

Raoni é líder da Terra Indígena Capoto/Jarina, vizinha ao Parque Indígena do Xingu, mas sua voz se faz ouvir entre todos os aldeados brasileiros. Raoni despertou a comunidade internacional para os impactos ambientais que seriam causados com a construção da hidrelétrica Belo Monte, no Xingu, em Altamira (PA). Graças ao seu grito, o projeto sofreu adequações que amenizam a interferência na vida dos povos da floresta e nela própria. Quando bradou contra o projeto de Belo Monte, não era uma figura anônima. Entre abril e maio de 1989, apadrinhado por ninguém menos que Gordon Matthew Thomas Sumner, o súdito da então Rainha Elizabeth II, e que atende pelo nome artístico de Sting, peregrinou por 17 países empunhando a bandeira pela vida Caiapó.

Líder nato, descendente de uma tradicional linhagem de caciques caiapós, bem antes de sua aproximação com Sting, Raoni pintou-se com o urucum dos guerreiros para negociar a demarcação de Capoto/Jarina com o então poderoso ministro do Interior, coronel do Exército Mário Andreazza. Esse território mede 634.015,22 hectares, com a maior área em Peixoto de Azevedo, ao lado do Parque Indígena do Xingu, e se estende ao Vale do Araguaia, em Santa Cruz do Xingu e São José do Xingu. Raoni saiu vitorioso e ainda deu um literal puxão de orelha em Andreazza, gesto que repetiria em 1999 com o mato-grossense presidente da Funai e ex-vice-governador Márcio Lacerda.

Quando discutiu com Andreazza, Raoni sabia bem o que falava, pois antes negociara com o engenheiro João Carlos de Souza Meirelles o traçado da BR-080, que liga o Vale do Araguaia ao Nortão de Mato Grosso num trajeto que num curto trecho é ladeado por Capoto/Jarina e o Parque Nacional do Xingu. Essa rodovia foi estadualizada e rebatizada para MT-322.

Em 2006, quando um avião da Gol Linhas Aéreas colidiu sobre Capoto/Jarina com um jato executivo Legacy, causando 154 mortes, Raoni esteve entre os repórteres que foram ao local dos destroços. Ao contrário da fraqueza emocional demonstrada diante do falecimento do filho em Nova Mutum, o líder permaneceu altivo. Removidos os corpos, entrou em cena o cacique, para negociar com o Ministério Público Federal e a Gol uma indenização ao seu povo, o que conseguiu.

Radical, mas sem radicalizar. Raoni costuma articular com políticos e cumpre bem seu papel. Quando a Fifa escolhia as 12 sedes para a Copa do Mundo de 2014 no Brasil, ele veio a Cuiabá a convite do então governador Blairo Maggi, para defender a capital mato-grossense junto ao cartola Ricardo Teixeira, da CBF, e o mandachuva Jérôme Valcke, que dava as cartas no futebol mundial.

Em 2019, a Fundação Darcy Ribeiro inscreveu Raoni no Prêmio Nobel da Paz, mas o comitê do Nobel o esnobou, a exemplo do que anteriormente fizeram com o Marechal Cândido Mariano da Silva Rondon. A esnobação teria sido para não descontentar o então presidente Jair Bolsonaro – desafeto do líder caiapó – ou simplesmente para manter os brasileiros fora da premiação. Naquele ano, o contemplado foi o primeiro-ministro da Etiópia, Abiy Ahmed Ali.

Raoni atravessou um período muito difícil em 2020. Em 23 de junho daquele ano  Bekwyjkà Metuktire, sua mulher e companheira inseparável, não resistiu a um infarto. Na solidão de sua rede em Capoto/Jarina, sentia a dor da viuvez paralelamente ao sofrimento com a covid-19, e por nove dias esteve internado no Hospital Dois Pinheiros, em Sinop, sob os cuidados de uma equipe médica chefiada pelos médicos Jorge Yanai e Douglas Yanai.

Forte, abençoado pelos espíritos da floresta, aos 94 anos Raoni permanece cuidando de seu povo sempre ameaçado pelo avanço do desmatamento, poluição das águas e do ar, e a insistência de católicos e evangélicos em catequizar os caiapós em nome da salvação de suas almas – e, claro, de olho no dízimo que parece ser a síntese do cristianismo mercantilizado.

Em maio deste ano, por duas vezes Raoni foi internado no Hospital Dois Pinheiros, com dores abdominais. Voltou para sua terra, onde o vi senhorial quando do acidente com o jato da Gol, bem diferente daquele pai abatido que cumprimentei no necrotério em Nova Mutum, onde reconheceu o corpo de Tedje.

Raoni luta contra um câncer no duodeno. Vida longa Raoni. Os caiapós e o meio ambiente precisam de você.

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