Boa Midia

Dostoiévski e o vício que cabe na palma da mão

Caroline Rodrigues*

CUIABÁ

Quase 160 anos separam a roleta de Dostoiévski das bets, mas pouco mudou na relação entre sorte, expectativa, perdas e dependência

A proibição das bets pelo Governo Federal trouxe a público uma enxurrada de relatos traumáticos de famílias que sofreram ou sofrem com o vício em apostas de algum de seus membros. Pessoas que perderam tudo e ainda contraíram dívidas de alto valor ou impagáveis. Um contexto que coloca o vício em jogo em evidência e dialoga com Fiódor Dostoiévski por meio do livro O Jogador.

O autor foi dominado pelo jogo por volta de 1866 e usou sua experiência de servidão à cultura da sorte para escrever. Naquela época, Dostoiévski precisou de uma roleta e, hoje, basta um celular para se ter o mesmo dano.

Quero aqui deixar claro que não tenho a mínima vontade de dar um desagradável spoiler. Contudo, pretendo contribuir com a leitura de quem irá iniciá-la, ao mesmo tempo em que busco reavivar a memória dos que já leram.

Acredito que um dos pontos que merecem destaque é o motivo pelo qual se joga. Nosso protagonista, Alexei, ao longo da história, aponta uma série de motivos: conquistar um amor, deixar de ser dependente, sair de uma condição de escassez financeira e alcançar a fortuna. Porém, com o passar do tempo, todos eles parecem nulos diante do principal motivo para se apostar, que é estar no jogo.

Nesse ponto, acho que todos começam assim. É uma dívida que precisa ser paga, uma grana para inteirar a feira, um gás ou qualquer necessidade imediata. Objetivos concretos que podem esconder algo muito mais poderoso: a excitação de estar no jogo, a expectativa da recompensa e a possibilidade permanente de que a próxima aposta seja justamente aquela que vai mudar tudo.

Quando ouvimos uma pessoa viciada em jogo, ela sempre tem um relato exitoso que justifica a manutenção do vício e a perspectiva de um futuro e incerto sucesso, o que caracteriza a cultura da sorte. O que ela deixa de contar são as inúmeras derrotas e as dívidas acumuladas durante o processo.

Alexei esteve em todas as posições e, até diante da fortuna, não se empolgou. Na verdade, sofreu com a ausência da roleta como se ela fosse uma linda senhora, daquelas presentes em romances clichês. Então, deixou a vida correr em tédio e, torcendo contra ele mesmo, seguiu caminhos que o levariam ao fim dos recursos e ao retorno aos cassinos.

Eu sei que este artigo de poucas linhas não reflete todas as perspectivas do livro. Mas acredito que contribui para o entendimento desse vício, que sempre foi invisibilizado. Acho que, até na época das operações de combate ao jogo do bicho, que foram mais recentes, falou-se muito sob as perspectivas da ilegalidade e da contravenção criminal. A discussão sobre dependência e saúde pública ocupou um espaço muito menor.

Vale aqui lembrar que não falar sobre o vício em jogo não significa que ele seja novo. O livro O Jogador foi publicado em 1866 e, naquela época, o problema já era velho e acontecia sobre a mesa da roleta ou do carteado. Agora, está na palma da mão.

*Caroline Rodrigues é jornalista há mais de 20 anos, mestre em Comunicação, tenta praticar esportes desde que se entende por gente, chora em filmes em que o cachorro morre no final e conta causos em boteco. É acadêmica de Nutrição, fala de tudo e se especializou em muitos nadas.

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