Boa Midia

Conexão sim, mas à vida

Rui Perdigão*

CUIABÁ

Aprendi que melhoramos a escrita com as leituras que fazemos e que aprimoramos a complexidade do pensamento com o uso de mais palavras. Com o tempo palavras caem em desuso, palavras novas entram no vocabulário e algumas outras são resignificadas. Um bom exemplo dessa ressignificação penso poder ser a palavra conexão. Uma palavra que atualmente alude a algo mais. Hoje, ela transporta consigo a sensação de se ter e de poder, bem como a ideia de que não é mais importante estar antenado, mas sim necessário estar conectado.

Eu, particularmente, pretendo manter-me antenado com o passado, presente e futuro, por onde me educado, sonho e faço opções. Estar conectado desvia muito a minha atenção da realidade e o facto de ser constantemente instigado a substituir o “penso, logo existo” por “vejo, logo existe”, fez-me perder o interesse em ter uma relação de intimidade com a conexão. Esse meu desapego a uma conectividade de cariz obsessivo compulsivo, acabou também por me fazer parar de ter conversas com o principal astro do universo digital, a inteligência artificial degenerativa. O diálogo não fluía, principalmente por considera-la desonesta. Não acho sério que ela se aproprie de tudo o que já foi escrito, falado ou gravado até hoje e não pague nada por isso. Considero-a também muito preconceituosa quando me propõe sempre algo estritamente ajustável à “minha condição”. Mas, pior que isso, é a sua arrogância em afirmar um futuro que “eu quero”, sem nunca antes me questionar. A sua enorme vocação para o controlo social e capacidade em projetar os do topo para a estratosfera, num agravar de desigualdades, levou-me ao limite. Decididamente interpreto essa personalidade e esse ambiente, como horrivelmente diabólico, insuportável e deveras suspeito.

Quando nos conectamos fundo, junto com a IA, submergimos num outro mundo. Um mundo que olhamos com os olhos de uma criança nos seus primeiros anos de vida. Tudo se apresenta extraordinário e deslumbrante, até as rachaduras nas paredes. Tudo havia, somos adultos com obrigações e responsabilidades que não nos permitem bebedeiras de um azul que nos deixa perdidos sem saber o que ensinar aos jovens. Uma situação desastrosa que penso estar a ocorrer, na qual permanecemos estáticos, abraçados à vergonha, prontos para saltar sem paraquedas para um vazio em busca de uma inimputabilidade.

Independente das precauções que é preciso ter com a informação que nos chega via conexão digital, reconheço que através dela fica mais fácil obter conhecimento sobre os mais recentes avanços científicos e tecnológicos. Avanços que no âmbito da computação algorítmica, estão a produzir já os instrumentos operativos para toda a investigação científica de ponta, para a gestão dos mais importantes serviços públicos, para os volumosos investimentos na indústria, na saúde, defesa, energia e em tantos outros aspectos cruciais à vida humana. Fico imaginando quando a isso se integrar a computação biológica, neural e cognitiva que está sendo intensa e intencionalmente pesquisada.

Nasci sem tecnologia digital disponível e hoje vejo-a conduzir-me sem eu saber para onde. Ver o artificial sobrepor-se ao natural e pensar que num curto espaço de tempo muitas coisas pré-formatadas serão conectadas a nós, inquieta-me. A capacidade que hoje temos de modificar geneticamente a natureza humana deita por terra a teoria de Darwin e reforça o “cientificamente claro e filosoficamente obscuro” que Kuhn discute na sua Mudança de Paradigma. O conhecimento bruto não tem determinado o comportamento ético, mas se interferirmos na consciência humana certamente mudar-se-á a essência da nossa existência, e com ela, o estado de direito que vimos construindo, as escalas e relações. Sem uma bola de cristal que nos permita enxergar o futuro, factos há que consubstanciam prognósticos preocupantes. O esvaziamento de importantes organizações internacionais globais, com destaque para a OMS, na sua competência para exercer biossegurança, bem como o resfriamento do perverso e hegemônico modelo econômico, aquecido por um maior multilateralismo que se apresenta aos povos sem plano para a transição tecnológica em curso, são por si só cenários suficientes para uma análise crítica e um posicionamento que, no mínimo, esclareça a quem isso serve e quem se beneficia com isso. Para retirar o poder de se decidir em consciência, muda-se a consciência, mas não a de todos, obviamente, alguém precisa ficar no poder, né!

Nesta rocha onde me sento e descanso, afortunado por sentir, pondero poder dizer: conexão sim, mas à vida. E nesta rocha que não pára de girar, não quero ficar tonto nem parar de lutar para que o meu legado, por insignificante que seja, não deixe de existir. E para isso escrevo, PAREM, PENSEM.

*Rui Perdigão – Administrador, geógrafo, presidente da Associação Cultural Portugueses de Mato Grosso – Escreve sem Acordo Ortográfico e sem Inteligência Artificial

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