Boa Midia

MT: Verso e reverso (163) – Professora Maria Lúcia é a cara da UFMT

Eduardo Gomes

@andradeeduardogomes

eduardogomes.ega@gmail.com

 

Capítulo 163 da série Verso e reverso de Mato Grosso, com postagem de segunda a sábado, abordando aleatoriamente fatos dos municípios mato-grossenses e figuras da nossa história recente. O texto mostra a trajetória da professora Maria Lúcia Cavalli Neder.

Pequena, franzina, a menina agarrava-se com as duas mãos na corda de bacalhau que amarrava os latões de leite de 50 litros, para que não dançassem pela carroceria. Sem poder segurar o embornal com os livros, cadernos, lápis e apontador, ela pisava sobre ele. A cada 500, 600 metros o motorista parava para receber mais leite. Assim, ao longo de 41 quilômetros o caminhão leiteiro no qual pegava carona concluía o percurso de ida ao laticínio. Depois retomava o caminho de volta, pela estradinha esburacada, ora coberta por um canudo de poeira ora transformada num atoleiro sem fim na ligação de Sandovalina, onde morava, com Pirapozinho, onde estudava, no interior paulista.

A aventura na carroceria do caminhão leiteiro não era diária. Acontecia quando o velho ônibus que fazia a linha naquele trecho, quebrava. Havia risco, mas ela sequer tinha consciência disso e junto ao grupo de outras crianças de sua idade, brincava com a pureza e inocência dos anjos.

Esse roteiro a levava para 5ª série em Pirapozinho. A aventura não era somente chegar: ela se completava com o malabarismo para manter impecavelmente limpo o uniforme escolar, coisa que todos do grupo tiravam de letra usando um guarda-pó – vestimenta de proteção muito comum à época.

Sua infância não foi fácil, mesmo assim encontrava tempo para devorar boa parte do acervo da biblioteca da prefeitura, onde palmilhou os textos de Dostoiévski, Tolstói, Victor Hugo, Machado de Assis, Jorge Amado, outros autores e gostosos contos e histórias infantis. Com uma pontada de orgulho seus pais acompanhavam suas proezas de leitora.

Entre uma viagem e outra a menina entrou na adolescência e depois de uma mudança de endereço escolar havia concluído o curso Normal em Presidente Prudente, a cidade mais importante da região de Sandovalina. Normalista e sonhadora, em 1971 deixou a Faculdade de Letras de Tupã, com um canudo debaixo do braço.

Recém-formada, em fevereiro de 1973 desembarcou em Cuiabá, foi enleada por uma conspiração amorosa formada pelo calor, o azul do céu e o quê de encanto dessa cidade que brotou bem no centro da América do Sul. À época, homens e máquinas trabalhavam “em ritmo de Brasília”, como se dizia, em alusão ao piscar de olhos que foi a construção da capital federal pela ousadia do visionário JK. A correria era para concluir a construção da UFMT criada em 10 de dezembro de 1970 no governo do presidente Médici.

Encantada pelo calor e o azul do céu, bateu às portas da UFMT. Foi atendida por Gervásio Leite. Esse encontro da menina-mulher com a Universidade em construção foi o primeiro passo de uma caminhada ditada por uma paixão avassaladora ao longo de 45 anos ininterruptos, que a cada segundo mais e mais as fez complemento uma da outra e vice-versa. Esse quase meio século de boa e salutar cumplicidade resultou numa arejada, fértil e fabulosa relação bem proveitosa para ambas. Para a normalista foi mais que uma função, pela multiplicidade de suas atribuições – sem renunciar à missão de professora – que lhe proporcionou amizades sinceras, alargou horizontes profissionais com conquistas iguais ao mestrado e doutorado. Para a Instituição virou marco referencial, pois aquela professora que no ontem era menina e se segurava na corda de bacalhau na carroceria do caminhão que a levava para a escola foi agente da sua maior guinada física no campus de sua sede em Cuiabá e nos demais campi, quando sua reitora em dois mandatos consecutivos entre 2008 e 2016.

Deputado constituinte em 1947, presidente da OAB regional, desembargador do Tribunal de Justiça, escritor com várias obras publicadas, membro e presidente da Academia Mato-grossense de Letras, jornalista e professor da UFMT, Gervásio Leite que a acolheu foi uma das figuras mais notáveis de Mato Grosso em sua época.

Palmo a palmo. Tijolo a tijolo Mato Grosso ganhou sua UFMT, uma Universidade que é centro irradiador de ciência, cultura e saber na amplitude da palavra. Essa Universidade tem na sua argamassa impressões digitais de figuras abnegadas que deram o melhor de sua juventude para sua criação e consolidação num período caracterizado enquanto ponto de transição entre o vazio populacional nos anos 1970 que foi substituído pela densidade demográfica que não parava de crescer e aos poucos povoou a territorialidade mato-grossense, reforçada com a chegada de levas e levas de brasileiros em busca do amanhã, e que se juntaram os filhos da terra.

As digitais da menina que se segurava na corda de bacalhau que prendia os latões de leite na carroceria do caminhão que tantas vezes foi seu improvisado ônibus escolar estão no histórico da UFMT, a exemplo das digitais do primeiro reitor Gabriel Novis Neves. Melhor: povoam mentes e corações de milhares de alunos e ex-alunos, de servidores e professores daquela Instituição.

Caminheira desde o nascimento em Nova América, interior paulista, a menina que se segurava na corda de bacalhau na carroceria do caminhão encontrou ninho em Cuiabá, onde inicialmente foi hóspede do hotel de dona Teresa e a cada nascer do sol conquistou fragmentos da cidadania cuiabana que adquiriu plenamente e feliz compartilha com o marido Renato e os herdeiros Luciana, Renatinho, Jansen e Janaína, pois no teto onde vive a verdadeira família não há distinção entre filhos e genros, e todos formam a Perradinha.

Aquela menina que se segurava na corda de bacalhau que prendia os latões de leite na carroceria do caminhão é tudo isso na UFMT e uma cidadã de posições ideológicas bem definidas. Filiada ao PCdoB, seu nome é Maria Lúcia Cavalli Neder, paulista de Nova América, nascida em 18 de junho de 1951.

 

POLÍTICA – Em 2018 Maria Lúcia candidatou-se ao Senado tendo na suplência o professor Gilmar Soares (PT) e Aluísio Arruda (PCdoB), numa coligação do PT com o PCdoB, PR, PV, PRB, PODEMOS, PMN, PROS e PP; o pleito elegeu dois senadores: Selma Arruda (PSL), com 678.542 votos e Jayme Campos (DEM), com 490.699 votos.

Na eleição suplementar em 2020 para o Senado, a coligação Defesa da Vida, Educação, Terra, Trabalho e Cidadania, formada pelo PT e PCdoB, lançou a chapa encabeçada pelo deputado estadual petista Valdir Barranco com os suplentes Maria Lúcia e Enelinda Scala (PT). O pleito foi vencido por Carlos Fávaro (PSD) com os suplentes José Lacerda (MDB) e Margareth Buzetti (PP). Fávaro venceu o pleito.

PS – Continuem lendo a série. Amanhã (29 de agosto), o capítulo 164.

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