Boa Midia

MT: Verso e reverso (147) – Oxente, o Sergipe é aqui!

Eduardo Gomes

@andradeeduardogomes

eduardogomes.ega@gmail

 

Capítulo 147 da série Verso e reverso de Mato Grosso, com postagem de segunda a sábado, abordando aleatoriamente fatos dos municípios mato-grossenses e figuras da nossa história recente. O texto focaliza o ex-governador Garcia Neto.

Garcia Neto escreveu importante página política em Mato Grosso. Creio que se ele pudesse escolher algum de seus feitos na vida pública, escolheria um episódio ocorrido em 1937, em Salvador, quando tinha 15 anos e militava na recém-criada União Democrática Estudantil (UNE). À véspera do Estado Novo ele e alguns colegas foram mantidos presos por seis dias, porque faziam oposição a Getúlio Vargas, ““Talvez eu tenha sido o preso político mais jovem do Brasil”, disse ao entrevistá-lo em seu escritório, em 2000.

José Garcia Neto nasceu em 1º de junho de 1922 no município sergipano de Rosário do Catete. Foi para Salvador onde formou-se engenheiro civil em 1944. Em Sergipe, por curto período, dirigiu o Departamento de Estradas e Rodagem (DER) e o Departamento de Saneamento. Porém, um após a formatura, com os bolsos vazios e a mente cheia de sonho, carregando na mala o diploma que a Escola Politécnica da Universidade Federal da Bahia lhe conferiu, desembarcou em Cuiabá. Estava empregado na empresa Coimbra Bueno, uma das felizardas para a realização do pacote de obras que o líder estadual Filinto Müller arrancou do presidente Getúlio Vargas, e que mudou o perfil urbanístico da capital mato-grossense.

 

Além da Coimbra Bueno, o Ministério da Fazenda também concorria para os bolsos de Garcia Neto. À época o governo federal absorvia os formandos em engenharia civil e outras áreas estratégicas. Além disso, ele tratou de dar aulas na Escola Técnica Federal de Cuiabá.

Quando botou os pés em Cuiabá Garcia Neto tinha 22 anos. Era solteiro, mas um ano depois subiu ao altar com a manauara Maria Lygia e juntos formaram um casal que somente se separou na sexta-feira, 20 de agosto de 2009, quando um acidente vascular cerebral fechou os olhos dele para sempre. O casamento de Maria Lygia e Garcia Neto foi celebrado pelo arcebispo Dom Aquino Corrêa.

Em 1948 apadrinhado por Odorico Tocantins, Garcia Neto foi contratado pelo então general Cândido Mariano da Silva Rondon, para construir a escola rural Santa Claudina, em Mimoso, município de Santo Antônio de Leverger. Claudina era o nome da mãe do contratante, e a obra foi edificada no local onde ele morou quando criança. Mais tarde Rondon será marechal. Odorico era pai do professor Aecim Tocantins.

Até 1954 os prefeitos das capitais eram nomeados. Naquele ano estabeleceu-se eleição direta ao cargo. Pela UDN que o levou à cadeia quando adolescente, Garcia Neto disputou e venceu a disputa para prefeito de Cuiabá. Em 1966, pela UDN, elegeu-se vice-governador numa chapa partidária encabeçada pelo médico Fernando Corrêa da Costa; à época havia votação para governador e vice.

Garcia Neto era o nome mais citado para o governo em 1970, mas o governo militar passou a indicar os governadores e a escolha recaiu sobre José Fragelli. Naquele ano, pela Arena, foi o deputado federal mais votado de Mato Grosso e repetiu o feito, no mesmo partido, quatro anos depois.

Em 12 de dezembro de 1970 o presidente Médici e o ministro da Educação Jarbas Passarinho criaram a Universidade Federal de Mato Grosso, em Cuiabá. Pedro Pedrossian, principal líder político da área que mais tarde seria Mato Grosso do Sul, a queria em Campo Grande, mas um projeto de Garcia Neto na Câmara a arrastou para a cidade do bandeirante Moreira Cabral.

Em 1974 Garcia Neto estava no auge político e a classe política apostava que o presidente Ernesto Geisel o nomearia governador por meio do Colégio Eleitoral. Os políticos não estavam errados. Geisel o chamou para a boa notícia, mas a temperou com um amargo sobre o qual ele teria que engolir em seco e em silêncio: Mato Grosso seria dividido.

Em silêncio Garcia Neto voou de Brasília para Cuiabá. A divisão era o pior dos mundos para Cuiabá, mas motivo de festa e ironia em Campo Grande, que aproveitava o auge da guerra fria para ferir o sentimento cuiabano sugerindo sarcasticamente: tomara que a Rússia lance uma bomba atômica no centro da América.

Garcia Neto fez um governo desenvolvimentista. Construiu os distritos industriais de Cuiabá, Rondonópolis, Barra do Garças e Cáceres, e o terminal rodoviário de Cuiabá, criou o primeiro programa de incentivo para estimular a indústria, pavimentou a MT-270 de Rondonópolis a Guiratinga, criou o Centro de Reabilitação Integral Dom Aquino Corrêa (Cridac) e a Prosol. Dona Maria Lygia, a primeira-dama trouxe a primeira vaca mecânica para produzir leite de soja mato-grossense em Cuiabá. O bordão de seu governo foi: Mato Grosso Estado Solução.

Cuiabá recebeu a notícia que a divisão aconteceria. Garcia Neto estava em Brasília e retornou à noite. No desembarque, jornalistas o ouviram ao pé da escada (ainda não se falava sobre finger, por aqui). Ele, tenso, engolia palavras como evidenciava seu semblante. Alguém perguntou o que ele faria já que Geisel vestia a camisa da criação do Estado do Pantanal (primeiro nome de Mato Grosso do Sul). A resposta foi a mais difícil de sua vida: eu também a visto!

‘Eu também a visto!”. Mato Grosso não engoliu aquilo e não faltaram vozes bairristas citando que “ele é sergipano”.

Político, Garcia Neto renunciou ao cargo em 1978 para disputar a eleição ao Senado naquele ano, pela Arena. O vice-governador e correligionário Cássio Leite de Barros, de Mato Grosso do Sul, assumiu o Palácio Paiaguás. As urnas lhe disseram “não”. José Benedito Canellas, também da Arena, venceu a disputa com apoio do então presidente indicado e à espera da faixa presidencial João Batista Figueiredo. Quatro anos depois, Garcia Neto novamente concorreu para senador: Roberto Campos (PDS) em sublegenda venceu com 147.203 votos e ele cravou 106.734. A eleição de Roberto Campos é considerada a mais viciada em Mato Grosso, pela compra de votos e abuso do poder econômico.

Na disputa eleitoral em 1978, Garcia Neto foi duramente agredido pela oposição. Um cartaz apócrifo o chamava de Don Ratão e estampava um rato com seu rosto numa árvore simbolizando o governo e repleta de ratos a corroendo.

Garcia Neto é nome de escolas em vários municípios e da principal sala de reunião do Palácio Paiaguás. A Assembleia Legislativa criou a Medalha José Garcia Neto do Mérito Industrial e o Distrito Industrial de Cuiabá leva seu nome. O Estádio Governador José Fragelli (Verdão) foi concluído em seu governo.

FAMÍLIA – Governador, Garcia Neto nomeou o genro Rodrigues Palma, prefeito de Cuiabá. À época não havia eleição direta para prefeitura nas capitais, nos municípios da faixa de fronteira e de segurança nacional. Palma foi deputado estadual, deputado federal e suplente de senador. Seu neto Fábio Garcia (União Brasil) foi deputado federal em 2014, em 2018 elegeu-se primeiro suplente do senador Jayme Campos e em 2022 voltou à Câmara dos Deputados, com 98.704 votos – a maior votação ao cargo entre os eleitos, mas a Professora Rosa Neide (PT) recebeu 124.671 votos, porém o PT não conseguiu legenda para eleger à Câmara.

PS – Continuem lendo a série. Amanhã (11), o capítulo 148.

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