Boa Midia

Pecando em gravidade

Caroline Rodrigues*

CUIABÁ

Às seis da manhã, o padre Antônio foi acordado por batidas desesperadas na porta. Do outro lado estava Damião, convencido de que havia cometido um pecado grave: não acreditava que o homem tinha ido à Lua.

Naquela hora, o padre, recém-ordenado e cheio de vontade de atuar na comunidade, pensou que os caminhos propostos pelo grande arquiteto da humanidade eram realmente incertos.

 Então, o fiel insistiu:

 — Aqui é o Damião, padre! Preciso falar com o senhor. Acho que estou em pecado. Minha mente está me traindo.

 Movido pela obrigação espiritual e pela curiosidade, o religioso abriu a porta e ouviu Damião dizer que precisava se confessar porque não acreditava que o homem tinha ido ao espaço, muito menos à Lua. Uma constatação que o colocara em terrível aflição, já que havia debatido a questão com um amigo e ouvira dele que pensar uma sandice dessas era pecado.

 Como a ideia ficou martelando em sua cabeça, roubando-lhe o descanso e o juízo, Damião esperou as primeiras horas da manhã para procurar quem, na cidade, era especialista em pecado: o padre.

 Damião começou sua fala pedindo desculpas pelo horário e logo iniciou o desatino:

 — Padre, pensei em todas as formas possíveis de o homem ir à Lua e obtive apenas mais perguntas, nenhuma resposta. A primeira delas é a seguinte: a nave sai daqui empurrada por foguetes e, lá, não tem foguetes para empurrá-la de volta para a Terra. Não é mesmo?

 A partir daí começaram as indagações:

 — Como eles acharam o caminho sem Google Maps? Onde reabasteceram? Como frearam para chegar e aceleraram para sair da Lua?

 A paciência do pároco foi se esvaindo até que veio a resposta:

 — Damião, presta atenção. Você não sabe que, na descida, todo santo ajuda? Então foi isso. Na hora de voltar, eles colocaram no ponto morto e desceram na banguela. Sua penitência será rezar 20 pais-nossos e 20 ave-marias. E a oração não é pelo pecado; é pela burrice. E tem mais: vá rezar na sua casa, porque eu vou tomar meu café em paz.

 E o leitor que chegou até aqui talvez esteja pensando:

 — Mas ele quebrou o sigilo da confissão?

 A resposta é não.

 Quem se encarregou de espalhar a história e registrá-la nos anais etílicos dos botecos do município foi o próprio fiel. Indignado, ele continuou relatando o caso em todo agrupamento de pessoas que encontrava pelo caminho.

 Vale ressaltar que, até hoje, Damião não obteve uma resposta que considere plausível. Já o padre reza diariamente para nunca mais ser acordado por dúvidas astronômicas às seis da manhã.

 Os nomes deste texto são fictícios para preservar a identidade dos envolvidos. Embora, na cidade, praticamente todo mundo já sabe quem eles são.

*Caroline Rodrigues é jornalista há mais de 20 anos, tenta praticar esportes desde sempre, chora em filmes em que o cachorro morre no final e conta causos em boteco. É acadêmica de Nutrição e escreve sobre temas diversos. Resumindo: fala de tudo e se especializou em muitos nadas

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