Cattani na porta da Assembleia em 15 de março de 2021
Capítulo 77 da série Verso e reverso de Mato Grosso, com postagem de segunda a sábado, abordando aleatoriamente fatos dos municípios mato-grossenses e figuras da nossa história recente. O texto focaliza o deputado estadual Gilberto Cattani (PL), pré-candidato à reeleição.
Cuiabá, 9 horas da segunda-feira, 15 de março de 2021, o suplente de deputado estadual Gilberto Cattani (PSL) chega à Assembleia Legislativa para se reunir com o deputado Elizeu Nascimento, de seu partido, para articularem sua posse e sua defesa caso seja ajuizada alguma ação contra sua posse na vaga aberta no plenário com a morte de Sílvio Fávero, da sua sigla, na tarde do sábado, 13, numa unidade de terapia intensiva em Cuiabá, vítima da covid-19. Bolsonarista, Cattani traçou como seria seu desempenho parlamentar, “Tenho meu rumo e vou segui-lo”.
Cattani entendia que a vaga de Fávero era sua, apesar de ter saído do PSL após a eleição de 2018. “Acontece que retornei em fevereiro deste ano (2021). Sou do partido, sou suplente e vou assumir”, disse confiante, enquanto aguardava liberação da portaria da Assembleia, que se encontrava fechada em luto pela morte de Fávero e por medida de prevenção contra a covid-19, por uma portaria de 25 de fevereiro.
Em 2018 Cattani se candidatou a deputado estadual e cravou 16.629 votos, o que lhe garantiu a primeira suplência do PSL. Na eleição suplementar ao Senado em 2020 o candidato Reinaldo Morais (PSC) o convidou para a primeira suplência e ele aceitou. À época, rompido com o partido em Mato Grosso, Cattani se filiou ao PRTB, pelo qual concorreu enquanto suplente e sua chapa recebeu 36.545 votos ficando em nono lugar da disputa travada por 11 candidaturas sendo que Carlos Fávero (PSD) se elegeu ao cargo.
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Após o pleito em 2020 e superados problemas internos no PSL, Cattani voltou à antiga sigla, que recebeu a filiação do deputado estadual Elizeu Nascimento, que se elegeu pela Democracia Cristã. O vaivém de um para outro partido abriu brecha para questionamento sobre a legitimidade ou não da vaga para Cattani, mas segundo ele, na conversa que tivemos na porta da Assembleia, em 15 de março de 2021, essa questão estaria pacificada no plano da Justiça Eleitoral.
CATTANI – Paranaense de Toledo, Gilberto Moacir Cattani completa 54 anos neste dia 20 de maio, é parceleiro da reforma agrária do Incra, em Pontal do Marape, município de Nova Mutum, onde cultiva numa área de 40 hectares.
Bolsonarista convicto, Cattani é autor do livro “A Socialização da Reforma Agrária e a Distribuição da Miséria”, prefaciado pelo ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL/SP) e a ex-senadora e juíza de direito aposentada Selma Arruda. A diretriz de seu mandato, segundo ele, seria baseada no teor de sua obra literária. “Vou lutar contra essa separação pregada pela esquerda, que bota assentados de um lado e o agronegócio do outro; héteros para lá e homossexuais para cá; rico ‘assim’ e pobre ‘assado’; negros para cima e brancos para baixo”.
Cattani mesmo sem mandato dizia que conhecia o mecanismo da Assembleia, que quase sempre a leva em bloco para a direção governista. Com ele, segundo suas palavras – antes da posse em 2021 – não seria assim. “Tenho meu rumo e vou segui-lo em defesa de políticas justas para que todos tenham seu lugar ao sol, com liberdade e sem pressão ideológica”, resumiu.
Vendo um apavorado Cattani querendo entrar na Assembleia para assumir a cadeira de Fávero. Assim foi meu primeiro contato com ele, que me presenteou com um exemplar de seu livro. A primeira imagem que tive dele foi a pior possível: um homem louco pelo poder, que não esperou sequer terminar o sepultamento de Fávero e correu em busca de uma cadeira de deputado.
Cattani cumpre um mandato voltado para a defesa do bolsonarismo, do qual é um dos líderes em Mato Grosso. Sua posse foi questionada pelo primeiro suplente do PSL, o médico e empresário Emílio Populo, mas a Justiça Eleitoral assegurou a cadeira para Cattani.
Em 2022 Cattani foi eleito – no primeiro mandato ele era suplente e assumiu – com 44.705 votos pelo PL, que era o novo partido de Bolsonaro. Cattani não apresentou nenhum projeto que tenha se transformado em lei relevante.
Em maio de 2023, na abertura da Frente Parlamentar de Combate ao Aborto – Pró-Vida, Cattani comparou a gravidez à prenhez de suas vacas. A fala teve grande repercussão. O Ministério Público e a presidente da OAB de Mato Grosso, Gisela Cardoso, pediram que a Assembleia cassassem seu mandato de deputado por quebra de decoro parlamentar; porém, a única deputada, Janaína Riva (MDB), fez coro com a maioria e o caso terminou na galeria do esquecimento com uma advertência formal.
Em abril de 2025, o deputado Lúdio Cabral (PT) apresentou um requerimento pedindo esclarecimento ao governador Mauro Mendes (União) sobre o custeio de suas viagens ao Rio de Janeiro e São Paulo para participar das manifestações bolsonaristas naquelas cidades e Cattani votou contra. Lúdio o chamou de “frouxo” e Cattani respondeu com rispidez que: “frouxo é seu rabo”.
Em junho do ano passado, num pronunciamento onde focalizou o vereador por Canarana, Thiago Ianhes Bitencourt Barbosa (PL), acusado por crimes sexuais, Cattani disse que é preciso “arrancar os bagos e executar estupradores”.
Os pronunciamentos de Cattani agradam os bolsonaristas, que o consideram forte e raiz.
ESCÂNDALOS – Cattani tem seu nome no centro de dois escândalos, sobre os quais tanto ele quanto o bolsonarismo fazem silêncio.
Silêncio sobre a Seaf
Em 24 de setembro de 2024, a Delegacia Especializada de Combate à Corrupção (DECOR) da Polícia Civil deflagrou a Operação Suserano, com alvo na Secretaria de Estado de Agricultura Familiar (Seaf), cumprindo 50 ordens judiciais, das quais 28 mandados de busca e apreensão, e decretou o bloqueio de bens dos investigados até o montante de 28 milhões. O escândalo resultou na demissão do secretário da Seaf, Luluca Ribeiro, e de sua equipe, pelo governador Mauro Mendes (União). Luluca foi indicado ao cargo pela deputada estadual Janaína Riva (MDB), trabalha em seu gabinete, e sua mulher, Kézia Limoeiro, é chefe do gabinete da deputada.
À época da Operação Suserano, manchetes davam conta de que a empresa Instituto de Natureza e Turismo (PRONATUR) teria recebido mais de R$ 28 milhões para a compra de kits para a agricultura familiar, por meio de recurso de emendas parlamentares estaduais. PRONATUR teria sido contratada pela Seaf, sem licitação. Com base nos fatos apontados, Mauro Mendes demitiu a cúpula da Seaf.
Após as demissões, o caso foi abafado perante a opinião pública. O fato é extremamente grave e por todos os ângulos deixa a Assembleia no centro do fogaréu, embora não haja nenhuma decisão judicial com trânsito e julgado nesse sentido. Porém, por se tratar de suposta corrupção envolvendo emendas e consequentemente deputados estaduais a Assembleia teria que se manifestar de imediato, exigindo a apuração policial, a ativação do Ministério Público e instalando uma CPI, mas nada aconteceu. Vigora o silêncio.
O portal UOL, que divulgou o escândalo, citou o envolvimento de 14 deputados, sendo Cattani um deles. Deputado com discurso pronto para tudo e sempre apontando corrupção e outros erros da esquerda, Cattani está em silêncio há quase dois anos sobre as emendas, com um detalhe: o PT tem dois deputados estaduais: Lúdio Cabral e Valdir Barranco, e nenhum foi citado nesse vergonhoso caso.
Silêncio sobre queijo
Cattani é investigado pela Delegacia de Polícia Especializada em Crimes contra a Administração Pública, para que os policiais apurem a denúncia formulada contra ele pelo promotor de Justiça Marcelo Caetano Vacchiano, de que a servidora de seu gabinete na Assembleia, Nathalia Jovelina Rogério dos Santos, teria recebido 4,5 diárias do Parlamento para viajar e permanecer alguns dias em Lucas do Rio Verde, cuidando de assuntos institucionais, quando na verdade Nathalia foi vista e fotografada na feira Show Safra, em março deste ano, naquela cidade, vendendo queijos produzidos pela família de Cattani em sua parcela da reforma agrária no Projeto de Assentamento Pontal do Marape, em Nova Mutum, município vizinho de Lucas.
Por ser deputado, Cattani tem prerrogativa de foro e para ser investigado, somente com consentimento do Tribunal de Justiça, e foi exatamente isso o que aconteceu no dia 9 de abril. O desembargador Marcos Machado, acatando pedido do Ministério Público, determinou a investigação sobre ele.
RESUMO – No universo do bolsonarismo em sua corrente mais radical, Cattani é referencial. Na prática parlamentar, um deputado que não apresenta saldo legislativo positivo. Para denunciar supostas improbidades por políticos da esquerda Cattani é o maior na Assembleia e ele faz algumas denúncias interessantes e importantes. Para responder publicamente sobre as denúncias de improbidade administrativas contra ele, Cattani faz silêncio tumular.
Em capítulos anteriores a série focalizou:
Zé do Pátio (PV federado com o PT e o PCdoB)
Neri Geller (Podemos)
Nilson Leitão (UP)
Dilmar Dal Bosco (UP)
Procurador Mauro (PSD)
Lúdio Cabral (PT federado com o PCdoB e o PV)
Valdir Barranco (PT federado com o PCdoB e o PV)
Gisela Simona (UP)
Moisés Franz (PSOL)
Cezare Pastorello (PT federado com o PCdoB e o PV)
Natasha Slhessarenko (PSD)
PS – Continuem lendo a série. Amanhã (21), o capítulo 78.
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