Boa Midia

Mato Grosso ganha o governo Pivetta

Eduardo Gomes 

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O governador Otaviano Pivetta

Otaviano Olavo Pivetta (Republicanos), 66 anos, produtor rural, rempresário, industrial e vice-governador assume o governo de Mato Grosso nesta terça-feira, 31 de março, substituindo Mauro Mendes (União Progressista) que deixa o cargo para concorrer ao Senado. Visionário, objetivo e dedicado ao trabalho, Pivetta se intitula cidadão três em um: empresário, político e voluntário social. Para o governo ele levará pouco, pois parte da administração estadual nos últimos sete anos – período em que foi vice-governador – teve seu perfil, seu DNA de administrador. Porém, além da marca que todo governante imprime em sua gestão, o novo governador terá que recompor o secretariado, que em parte deixou suas funções para entrar na disputa eleitoral, e essa recomposição passará pela espinha dorsal no Palácio Paiaguás, formada pelas secretarias de Educação, Saúde e Segurança Pública. Ao longo do tempo Pivetta mostrou que é capaz de se desdobrar em mais de uma ação ao mesmo tempo. Assim será seu governo, com um olho na administração e outro na política por conta de sua pré-candidatura a governador. Mato Grosso não precisa esperar pelo chamado choque de gestão, pois a engrenagem que funciona desde 2019 com Mauro Mendes à frente continuará em ação pelo 16º governador mato-grossense após a divisão territorial que em 1977 criou Mato Grosso do Sul e o primeiro gaúcho a administrar a Terra de Rondon.

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BR-163, município de Diamantino, 26 de agosto de 1982. O caminhão pára. O motorista, de bolsos vazios, desce, pisa na estrada, olha em todas as direções e vê a vila cercada pela imensidão do cerrado à espera de braços para fazê-lo produzir. O vento bate forte, a poeira levanta e cobre a paisagem de vermelho. Aos poucos, tudo volta ao normal ao seu redor. “Que coisa fantástica esse lugar!” – Pensou. Empolgado com o cenário da natureza emoldurado pelas pessoas em movimento, o peito queima e o coração lhe diz: o lugar é aqui! Esse foi o primeiro contato de Otaviano Olavo Pivetta com Lucas do Rio Verde, no Nortão. O possante que o trouxe de Caiçara, no Rio Grande do Sul, virou lavoura. Os primeiros passos foram difíceis, mas nunca o esmoreceram. Ao contrário, a cada dia conscientemente buscava mais força nos ensinamentos do pai, Tilídio, que era pequeno agricultor em Caiçara. E inconscientemente também se inspirou na paixão do velho pela política, afinal seo Tilídio foi prefeito de Caiçara por dois mandatos. Com um olho no campo e outro na vida pública, Pivetta construiu um império que o situa entre os maiores produtores mundiais de grãos e os grandes exportadores brasileiros de carne suína, e transformou-se em líder político.

ELE – Otaviano Olavo Pivetta nasceu em Caiçara (RS) no dia 10 de maio de 1959. É um dos principais líderes do agronegócio nacional. Fez fortuna em Mato Grosso e seu primeiro passo para a riqueza foi a compra da fazenda Ribeiro do Céu, que pertencia ao advogado, agropecuarista e fundador de Nova Mutum, José Aparecido Ribeiro, o Dr. Ribeiro. Procurado pelo dono da área que queria vendê-la, Pivetta disse que não tinha dinheiro para pagamento à vista. O Dr. Ribeiro facilitou a transação com parcelamento. Assustado com o negócio, Pivetta disse a ele: Ribeiro do céu, agora terei que trabalhar em dobro para pagá-lo – trabalhou. Dessa expressão surgiu o nome Ribeiro do Céu.

VIDA PÚBLICA – A carreira de Pivetta começou em 1996 quando se elegeu prefeito de Lucas do Rio Verde; em 2000 foi reeleito, e em 2012 Pivetta voltou à prefeitura. Em 2016 Pivetta tentou a reeleição, mas tombou vítima de ‘fogo-amigo’. Pivetta foi um dos pilares da campanha de Pedro Taques (PDT) ao governo em 2014, e na sua eleição ao Senado em 2010, mas Taques não levou isso em conta na eleição municipal em 2016 em Lucas.

Pivetta esperava contar com apoio de Taques, porém, isso não aconteceu. Segundo os bastidores políticos, Taques mandou o então vice-governador Carlos Fávaro lançar um candidato a prefeito pelo PSD. Fávaro indicou Flori Luiz Binotti. Flori recebeu 14.408 votos e Pivetta 14.166. Pivetta teve o registro de sua candidatura cassado pelo Tribunal Regional Eleitoral na antevéspera do pleito e quando reverteu a situação foi tarde demais – a decisão judicial prejudicou seu desempenho nas urnas e por 242 votos não foi prefeito pela quarta vez.

Eleição em Lucas sempre é muito disputada, mas em 2016 aconteceu um fato atípico que também contribuiu para a derrota de Pivetta. Operários maranhenses contratados por um complexo industrial foram estimulados a transferirem seus títulos, e teriam recebido generosas injeções de mimos para votarem em Binotti. Fávaro estaria por trás dessa jogada, que foi fatal.

Pivetta, sem dúvida, foi o melhor prefeito mato-grossense em todos os tempos. A saúde pública, a rede escolar, pavimentação total da cidade e outras obras e projetos atestam isso. Jamais permitiu culto à personalidade. Sua administração inovou ao lançar e construir agroestradas – vicinais pavimentadas e asfaltou toda a área urbana.

SECRETÁRIO – Ao assumir o governo em janeiro de 2003, Blairo Maggi nomeou Homero Pereira secretário de Desenvolvimento Rural (Seder). Em 2005, portanto dois anos depois, Homero deixou a Seder para reassumir a presidência da Federação da Agricultura e Pecuária (Famato), da qual estava afastado para integrar o secretariado.

Para o lugar de Homero o governador nomeou Pivetta, que ficou na secretaria somente até 25 de junho daquele ano. Jilson Francisco da Costa, o Jilson da Fetagri, era secretário-adjunto e assumiu interinamente a Seder, que ganhou novo nome: Secretaria de Estado de Desenvolvimento Rural e Agricultura Familiar (Sedraf).

DEPUTADO – Em 2006 Pivetta estava nos palanques pedindo votos para deputado estadual e recebeu 35.901 votos ficando em quinto lugar sendo o campeão José Riva (PP), com 82.799 seguido por Walter Rabello (PMDB), Zé Carlos do Pátio (PMDB) e Percival Muniz (PPS).

Na Assembleia Pivetta enfrentou o mandachuva José Riva, que controlava aquele Legislativo com mão de ferro. Pivetta ficou quatro anos em plenário e saiu de cabeça erguida sem se curvar ao poderio de Riva.

DERROTA – Mauro Mendes (PSB) disputou o governo em 2010 com Pivetta (PDT) de vice e sua chapa recebeu 472.475 votos. Silval Barbosa (PMDB) com o vice Chico Daltro (PP) venceu o pleito em primeiro turno com 759.805 votos (51,21%). Wilson Santos (PSDB) dobrou com o deputado estadual Dilceu Dal’Bosco (DEM) e recebeu 245.527 votos. Marcos Magno formou chapa com o vice José Roberto, ambos do PSOL, e cravou 5.771 votos.

VICE – Na eleição ao governo em 2018 Mauro Mendes (DEM) elegeu-se em primeiro turno com 840.094 votos (58,69%) tendo Pivetta (PDT) de vice.

Em 2022 ao vencer a reeleição em primeiro turno, com 1.114.549 votos, a chapa Mauro Mendes (União) e Pivetta (Republicanos) quebrou um recorde eleitoral que durava 12 anos: em 2010 Blairo Maggi (PR) ganhou a disputa ao Senado com 1.073.039 votos.

Filiado ao Republicanos presidido regionalmente pelo ex-deputado federal Adilton Sachetti, Pivetta acompanhou Mauro Mendes no apoio à tentativa de reeleição do presidente Jair Bolsonaro.

PULMÃO – Nunca vice-governador teve tamanha influência no governo mato-grossense quanto Pivetta, que é considerado pulmão e cérebro da administração. Articulador, seu gabinete é o destino certo de prefeitos, vereadores, sindicalistas, empresários e indígenas em busca de solução para problemas estruturais e por investimento nos municípios. Habilidoso, está sempre pronto para ouvir e, quando possível, atender, mas sempre tem o cuidado de não criar melindres com deputados, pois existe um oculto e estranho zoneamento regional que estabelece verdadeiras capitanias parlamentares, nas chamadas bases eleitorais.

ACUSAÇÃO – Citar Cooperlucas em Lucas é o mesmo que falar em corda na casa de enforcado. Cooperlucas é a sigla da extinta Cooperativa Agropecuária de Lucas do Rio Verde, que entre 1994 e 2000 causou um rombo de R$ 230 milhões (em valores da época) ao governo federal em transações criminosas. A Cooperlucas era fiel depositária da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab). Produtores faziam entrega fictícia de grãos, contratavam Empréstimo do Governo Federal (EGF) e quitavam tais dívidas por meio de operação mata-mata (um financiamento para pagar outro) e adotavam outras práticas que juntas causaram aquele que foi considerado o maior golpe na área agrícola nacional.

Estariam envolvidos no esquema grandes produtores rurais e dentre eles Pivetta; funcionários do Banco do Brasil incluindo o então superintendente em Mato Grosso, Milton Luciano dos Santos; e os então senadores Carlos Bezerra e Jonas Pinheiro, além de outras figuras.

Pivetta não aceita a pecha de ligação com a Cooperlucas e alega que sequer foi seu diretor. Milton Luciano, após a denúncia foi superintendente do Banco do Brasil em Santa Catarina e seu vice-presidente; se a denúncia tivesse consistência ele não teria exercido tais cargos.

Bezerra nega participação. Jonas Pinheiro, já falecido, também negava. O mesmo faz Milton Luciano, que além de outros cargos exercidos no banco recebeu convite do então governador Blairo Maggi para presidir à época a recém-criada agência de fomento MT Fomento, mas que o recusou.

ALTO LÁ – Pivetta era prefeito de Lucas do Rio Verde quando o governo construiu o linhão de energia ligando Cuiabá a Alta Floresta e a interligando ao sistema nacional. Dante de Oliveira era governador e não engolia Pivetta. As torres foram levantadas e os fios estendidos, mas ninguém pode afirmar que por pirraça Dante deixou Lucas sem estação de rebaixamento. Enquanto as demais cidades recebiam a energia firme, a população luverdense se enfumaçava com lamparinas.

Uma manhã Mato Grosso foi sacudido com uma notícia policial, com cheiro de terrorismo: torres de energia próximas a Lucas foram dinamitadas. Equipes foram para o local e a Polícia Federal passou a investigar o caso. Dias depois, na mesma região, outras torres foram dinamitadas. Dante engoliu em seco. Além da equipe para reconstruir as torres, também foi enviada outra, para rebaixar a energia. Não se sabe quem lançou mão do radicalismo.

PITICO – Em 2010 Pivetta perdeu para vice-governador. Em 2014 foi um dos gurus da candidatura vitoriosa do senador Pedro Taques (PDT) ao governo e durante os dois primeiros meses de seu mandato foi eminência parda – mandava e desmandava. Ao ser traído na eleição de 2016 pelo vice Carlos Fávaro, Pivetta afastou-se de Taques, ao qual chamava de Pitico.

Foto:

Tonico Pinheiro/Governo de Mato Grosso

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