SÉRIE – Verso e reverso de Mato Grosso
EDUARDO GOMES
@andradeeduardogomes
eduardogomes.ega@gmail.com

No triste ciclo da escravidão, nas nas fazendas e sítios em Vila Bela da Santíssima Trindade, mães, tias, irmãs, cunhadas, primas e amigas dos escravos que seriam levados ao suplício descobriram um meio de amenizarem e até mesmo de evitarem a tortura dos seus. Inventaram a Dança do Chorado, que como o nome diz é um bailado permeado com lágrimas. Ao som dos profanos tambores e instrumentos de cordas, dançavam alucinadamente belas e sedutoras para os lacaios da casa-grande e até para os seus ocupantes.
A mulher do Chorado botava vestido de chita colorida com providenciais aberturas e decote para mostrar aos olhos gulosos dos gajos suas coxas grossas, seus seios arrebitados e sua bunda torneada.
Uma rosa vermelha ou amarela no cabelo pixaim.
Um colar de miçangas feito com cascas e frutos secos do mato.
Um perfume extraído de flores. A anca perfeita e tentadora.
Os dentes de brancura inigualável.
A boca carnuda.
Requebrava e em gemidos lascivos despertava desejos.
Atiçava ainda mais a tara dos homens que tinham poder para punir ou absolver os escravos a um passo da tortura ou sendo submetidos a ela: gingava com uma garrafa de Canjinjin sobre o cabelo crespo reluzente e dava doses aos extasiados espectadores.
…
Esta série não tem patrocínio. Este blog não tem mídia pública e recebe colaboração pelo PIX 13831054134 do editor Eduardo Gomes de Andrade
…
O forte teor alcoólico das talagadas com gosto agridoce, corpos bonitos a lhes esfregar… era um ai Jesus!O que acontecia com uma e outra mulher enquanto as demais dançavam ninguém nunca registrou. Também não há detalhamento do que elas faziam quando cessava a dança e o som dos instrumentos musicais tocados por negros que as acompanhavam. De igual modo nada se escreveu sobre o comportamento de brancas portuguesas e nascidas em Mato Grosso, com os jovens negros. Enquanto seus homens se esbaldavam com as negras, um fuzuê silencioso acontecia entre quatro paredes nas casas-grandes ou em seus quintais. Não havia IBGE para recensear a quantidade de bebês mulatinhos que nasciam de mães brancas e negras. Literalmente era o toma lá dá cá; ora, pois, pois! Davam e se davam bem matrimonialmente as patroas. Puritanas senhoras brancas devotadas à Santa Madre e fiéis quando de pernas fechadas.
O que era dança de dor virou cultura e tradição. É o Chorado, a mais bela manifestação cultural mato-grossense, porém pouco valorizada pelos governantes através dos tempos. Se a expressão corporal ao ritmo musicado que nos remete à Mama África for apresentado ao Brasil, não somente o país, mas o mundo se renderá àquela mistura de amor familiar com história e a rica cultura vila-belense, que um dia em parte de seu território foi o reino de Tereza de Benguela, numa área de resistência chamada de Quilombo do Piolho ou do Quariterê.
Na Dança do Chorado e fora dela a bebida mais consumida naa cidade depois da cerveja é o Canjinjin, à base de cachaça, gengibre, mel, canela, ervas aromáticas e outros componentes. A fórmula é guardada a sete chaves pelas mulheres que o fazem, mas a transmitem às suas herdeiras.
A sabedoria popular em Vila Bela da Santíssima Trindade diz que Canjinjin foi um jovem, forte e belo príncipe africano filho do rei do Congo. Ao batizarem a bebida com seu nome, as mulheres buscaram uma referência masculina para o produto, que dizem ser afrodisíaco na acepção da palavra.
REALIDADE – Mato Grosso precisa voltar o olhar – no mais amplo sentido de expressão – para sua primeira capital, Vila Bela da Santíssima Trindade, fundada à margem do rio Guaporé, aos pés da Serra Ricardo Franco, a um passo da Bolívia e erguida arquitetonicamente observando uma planta elaborada em Lisboa – foi a primeira cidade brasileira planejada.
A América Latina era feudo dos reis de Espanha e Portugal quando em 9 de maio de 1748 a Coroa portuguesa criou a Capitania de Mato Grosso numa área de São Paulo. O nepotismo luso mostrou sua força e o rei Dom João VI nomeou seu primo e capitão-general Dom Antônio Rolim de Moura Tavares para governar o território recém-emancipado.
Mato Grosso era um imenso vazio demográfico. Cuiabá tinha 32 anos e a aventura em busca do ouro empurrava a fronteira Oeste psra dentro dos domínios espanhóis quando Rolim de Moura fundou Vila Bela da Santíssima Trindade em 19 de março de 1752 para ser capital da Capitania rica em ouro e que assegurava a nacionalidade brasileira a Oeste, numa área onde os espanhóis não sabiam onde terminava seu território nem Portugal tinha conhecimento onde começava o seu. Somente em 1905, contratado pelo governo boliviano, o coronel inglês Percy Harrison Fawcett iniciou a demarcação da fronteira daquele país com o Brasil.
Fawcett entrou para a história mato-grossense não somente pela demarcação, mas por conta de seu desaparecimento em 1925, na Serra do Roncador, em Barra do Garças, quando tentava localizar a cidade “Z”, sob Roncador, onde se acreditava, vivia uma população evoluída. Com ele também desapareceu seu filho Jack Fawcett e um amigo da família, chamado Raleigh Rimmell. O sumiço de Fawcett inspirou o diretor Steven Spielberg e o produtor George Lucas a criarem o personagem Indiana Jones interpretado na telona por Harrison Ford.
Antes de Fawcett, quem garantia a presença brasileira nas bandas do Guaporé eram os negros vila-belenses, muitos dos quais de linhagens da nobreza africana e descendentes dos círculos intelectuais daquele continente. Isso porque a população branca fugiu de Vila Bela da Santíssima Trindade e em 28 de agosto de 1835 participou da instalação da capital em Cuiabá, deixando a antiga capital a ver navios. A fuga dos brancos foi puxada pelos governantes, aspones, magistrados e senhores escravagistas.
Além do projeto para o fortalecimento urbano de Cuiabá por conta da logística de transporte, pois a mesma tinha rota segura ao mar, pelo rio que lhe empresta o nome, e em seu entorno havia muitas lavras de ouro, os brancos fugiram temendo o maculo, doença que se propagava por falta de saneamento.
Os brancos fugiram. Ficaram os negros com sua crença, sua força. Em julho eles cobrem a cidade de cor e a inundam ao som da Festança, que reúne num só período as festas dedicadas ao Glorioso São Benedito, ao Divino Espírito Santo e às Três Pessoas da Santíssima Trindade. No evento se misturam a Dança do Congo, a Dança do Chorado, ladainhas, celebração de missas, procissão, quermesse e onde ninguém sabe onde começa o santo nem onde termina o profano. É a mais pura idiossincrasia.
Forte, Vila Bela da Santíssima Trindade é um dos destaques da pecuária bovina nacional e está em campo abrindo um corredor pavimentado para o Pacífico, em Arica, no Chile, via Bolívia. Quando essa obra for concluída, aquela cidade que perdeu o título de capital por conta da suposta melhor logística de Cuiabá, suplantará a tricentenária capital mato-grossense no quesito transporte terrestre voltado para o mercado internacional, sobretudo para a Ásia, que é o grande importador das commodities agrícolas de Mato Grosso.
O Chorado encanta a todos e mais graça ainda ganha ao som do Conjunto Aurora do Quariterê, formado por mulheres negras com suas vozes roucas e seu ritmo afro-vila-belense saudando o Campo Verde, como a cidade é chamada pelos filhos negros:
Campo Verde Serenado
“O campo verde é serenado
O campo verde é Vila Bela
Campo verde é serenado
Campo verde é Vila Bela
Eu vou-me embora pra cidade
Da Santíssima Trindade
Vou-me embora pra cidade
Da Santíssima Trindade
Se eu soubesse que tu vinha
Fazia o dia maior
Dava o nó na fita verde
Outro no raio do sol
A folha da bananeira
De tão verde amarelou
O beijo da tua boca
De tão doce açucarou”
“O campo verde é serenado