Boa Midia

Coisas da vida

EDUARDO GOMES
@andradeeduardogomes
eduardogomes.ega@gmail.com

 

Mato Grosso sonhava acordado e contava as horas para a conclusão das obras de pavimentação que ligariam Cuiabá ao Centro-Sul, pela BR-364 via Goiás e pela BR-163 cruzando Campo Grande. Essas duas rodovias tinham o ponto de interseção em Sete Placas, próximo à Rondonópolis. Além do sonho coletivo havia outros, regionalizados, a exemplo de Pedra Preta, que queria sua inclusão à malha rodoviária federal e sua emancipação política de Rondonópolis – o primeiro sonho completa 53 nesta data (19) e o outro foi conquistado em 13 de maio de 1976. Por mera coincidência, na condição de usuário da BR-364, fui protagonista popular da primeira vitória ao dirigir o  carro que cruzou pela primeira vez o trecho recém-pavimentado da BR-364 entre Goiás e Rondonópolis.

Até o começo dos anos 1970 Pedra Preta era isolada – uma espécie de vai e volta. Com a pavimentação da BR-364 houve mudança em parte de seu traçado. No sentido Sul-Norte a rodovia deixou a Serra da Jiboia à esquerda e avançou rumo a Serra da Petrovina, cruzou o rio Jurigue e chegou no distrito de Pedra Preta.

Cruzei a BR-364 por várias vezes no período de sua pavimentação. Na medida em que as obras avançavam as construtoras liberavam os trechos concluídos. Na madrugada da segunda-feira, 19 de fevereiro de 1973 seguia de Mineiros para Rondonópolis imaginando que desceria a Jiboia e faria a parada habitual no Restaurante da Nininha. Porém, no ponto onde a rodovia despencava para a Jiboia, um funcionário da construção orientava o trânsito, para que os motoristas seguissem adiante, no trecho pavimentado que cruza a Petrovina; ele explicou que faltava somente a liberação da pequena ponte sobre o córrego Goiano, no Km 138, mas que isso aconteceria em poucas horas. Assim, ao volante de uma camionhete Toyota Bandeirante e tendo ao meu lado o passageiro Paulo de Santa Cecília – o Paulinho Linhares, de saudosa memória, embiquei o possante no rumo sugerido.

Uma barreira no ponto onde começa a descida da Petrovina aguardava o sinal para a liberação, o que aconteceu bem rápido. Puxando uma fila de caminhões, serra abaixo, sentindo o cheiro de asfalto novo, cheguei à ponte. Operários recolhiam ferramentas e deram sinal para avançar. Perguntei quantos já haviam atravessado a ponte. Alguém respondeu que eu seria o primeiro. Então observei que não cruzei com nenhum veículo, o que era natural, pois o bloqueio no sentido contrário era no Posto Trevão, na área urbana de Rondonópolis, distante 140 km.

Com a ponte, a ligação pavimentada de Rondonópolis com Goiás estava concluída. Restavam ainda algumas intervenções até Cuiabá, sobretudo na Serra de São Vicente. Alguns meses depois, diante de uma Cuiabá extasiada,  o presidente Emílio Garrastazu Médici – idealizador e realizador da obra – descerrou a placa de sua inauguração.

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A emancipação foi uma luta coletiva liderada pelo capataz de fazenda Joaquim Inácio, que em 1966 se elegeu vereador por Rondonópolis, com votação maciça em Pedra Preta, onde residia e trabalhava. O mandato de Joaquim Inácio chegou ao fim, mas a luta não. O grito por independência ecoou na Assembleia, na voz do deputado Afro Stefanini, então principal líder político rondonopolitano.

Afro apresentou um projeto pela emancipação e a Assembleia o aprovou. Em 13 de maio de 1976 o governador Garcia Neto o sancionou, juntamente com outros que criaram São Félix do Araguaia, Tangará da Serra e Vicentina, que pertence a Mato Grosso do Sul, que à época era base territorial mato-grossense.

Pedra Preta é sede de uma comarca com 19 mil habitantes e um dos principais polos brasileiros na produção de sementes, graças à altitude no planalto na Serra da Petrovina, e tem importante rebanho bovino no Vale do Jurigue, que já foi considerado santuário do boi.

A pavimentação da BR-364 foi um dos marcos da logística de transporte brasileira. A luta pela emancipação de Pedra Preta resultou na criação de um importante município. Seria bom se todos os que conhecessem esses fatos reverenciassem a memória de Médici, no plano nacional, e de Joaquim Inácio e Afro na esfera estadual. Quanto aos nossos, observo que certa vez em Primavera do Leste, encontrei-me com Augustinho de Freitas, que era prefeito de Pedra Preta e lhe falei que seu município deveria render relevantes homenagens a Joaquim Inácio, Afro Stefanini e Garcia Neto. Ele concordou, pois político sempre concorda, mas nada de prático foi feito.

Quanto ao fato da inauguração extraoficial da ponte nada a acrescentar. Foi apenas uma dessas coincidências. Porém, ontem, retornando de Goiás, voltei a cruzá-la. Instintivamente buzinei o carro. Acho que foi um gesto de cumprimento ao passado. Coisas da vida.

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