Quinto capítulo do livro sobre a vida pública de Júlio Campos
PREÂMBULO – Posto o quinto dos 10 capítulos do livro que escrevi narrando a vida pública do deputado estadual Júlio Campos (União) – que em boa parte se funde e se confunde com a própria existência dele.
Nove capítulos estão editados e revisados. O décimo e último depende do desenrolar dos fatos políticos, sobretudo quanto à pretensão do seu irmão, o senador Jayme Campos (União), em concorrer ao governo. O governador Mauro Mendes e a cúpula que verdadeiramente dá as cartas no União Brasil não apoia Jayme e defende o nome do vice-governador Otaviano Pivetta (Republicanos) para o Palácio Paiaguás. Aparentemente, quanto ao sonho de Jayme, Inês é morta. Porém, para o complemento e título da obra não basta a crença de que Jayme dançou: é preciso citar o caminho que os irmãos Campos tomarão e qual será o papel político de Jayme e Júlio.
No cenário de agora não é possível concluir a obra, mas em breve teremos o fim do impasse, o que me permitirá escrever o décimo capítulo e dar o nome ao livro. Aguardem!
Sugiro que leiam os quatro primeiros capítulos neste blog buscando os títulos: Livro narra a vida e obra de Júlio Campos, o aniversariante de hoje (o primeiro); Segundo capítulo do livro sobre a vida pública de Júlio Campos; Terceiro capítulo do livro sobre a vida pública de Júlio Campos; e Quarto capítulo do livro sobre a vida pública de Júlio Campos.
Observo que o quinto capítulo é ilustrado por oito fotos, mas que nesta amostragem há somente três – e lamentavelmente sem o tratamento que lhes foi dado para a obra.
Quinto capítulo do livro sobre a vida pública de Júlio Campos

Em maio de 1986 Júlio Campos se desincompatibilizou transmitindo o cargo de governador para o vice Wilmar Peres de Farias. Duas vagas no Senado estavam em disputa, mas ele entendeu que aquele era o momento em que o PMDB do Dr. Ulysses elegia até poste, recuou da candidatura majoritária e se candidatou a deputado federal pelo PFL, tendo sido o mais votado, com 61.002 votos, mas a oposição foi a vencedora no cômputo geral. As legislaturas no Congresso e na Assembleia Legislativa seriam constituintes, em busca de ordenamento constitucional após o fim do regime militar de 1964.
Júlio Campos realizou um governo positivo, com obras e programas sociais, mas a oposição tratou de desconstruí-lo. Nos meios universitários criou-se a pecha de Julinho Bereré. O MDB debitava o deboche a suposta corrupção recorrente. Aliados dele contra-atacaram dando a versão de que se tratava de crítica à montanha de dinheiro que o embaixador Roberto Campos despejou na campanha em 1982, quando foi eleito senador, com a votação vinculada que obrigava ao voto de cabo a rabo no mesmo partido, sob pena de anulação; a vinculação, sem dúvidas, favoreceu a Júlio Campos, pois o eleitor de Roberto Campos também seria seu, pela lógica.
Mesmo com o Palácio Paiaguás irrigado pelos recursos canalizados por Roberto Campos, o governo teve problema em várias ocasiões para quitar a folha salarial. A justificativa para o atraso era a de que a União não cumpria o compromisso de transferir recursos para Mato Grosso e Mato Grosso do Sul como forma de compensação pela divisão territorial que criou Mato Grosso do Sul. Além das obras que realizou, Júlio Campos ainda foi beneficiado politicamente pela instalação do Hospital Universitário Júlio Müller, em Cuiabá, em 31 de maio de 1984.
O Júlio Müller foi criado para funcionar também como hospital-escola para o curso de Medicina da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT). Para sua instalação, o governo estadual cedeu as dependências de um antigo hospital estadual e o reformou para tanto.
Na verdade, o hospital não foi criado por Júlio Campos, mas nasceu de uma parceria entre o governo estadual e a UFMT, o que resultou numa cessão de uso por 20 anos, renováveis. O acordo foi firmado entre o governador Frederico Campos e o reitor Benedito Pedro Dorileo. Em 14 de setembro de 1982, arredondando o entendimento, Frederico Campos assinou o Decreto 2.025 que homologou a cessão. A morosidade administrativa manteve o hospital em obras por quase dois anos.
Mesmo com as críticas, muitas ácidas, Júlio Campos nunca respondeu processo por improbidade administrativa, que à época era chamada de crime de colarinho branco. E ele sempre negou que houvesse praticado atos ilícitos. A oposição também o acusou de fraudar a eleição, mas isso não procedia. Ao contrário de agora, que a votação é eletrônica e sofre questionamentos, em 1982 o voto era dado em cédula impressa rubricada pelos mesários e a apuração era feita com o chamado voto cantado. Os votos de cada candidato eram empilhados à frente de todos, com fiscais dos partidos conferindo tudo. Encerrada a contagem a urna era fechada e uma ata era lavrada, assinada pelos presentes e encaminhada à Zona Eleitoral. A fiscalização era intensa, principalmente pelo PMDB, que reunia mais figuras dos meios jurídicos e a juventude universitária. Sobre 1982 não é certo falar em fraude nas urnas, mas é correto afirmar que o dinheiro de Roberto Campos foi o maior cabo eleitoral de todas as eleições mato-grossenses.
Roberto Campos era o brasileiro com maior trânsito internacional e tinha influência sobre banqueiros e empresários, o que facilitou a captação dos recursos que foram distribuídos generosamente nos quatro cantos de Mato Grosso. Foi muito bereré.
As eleições mostraram que em Mato Grosso não foi diferente do restante do Brasil. Carlos Bezerra e Edison de Freitas, ambos do PMDB foram eleitos governador e vice. Louremberg Nunes Rocha e Márcio Lacerda, também do PMDB, venceram para o Senado. Os peemedebistas foram maioria para a Câmara, com Osvaldo Sobrinho, Joaquim Sucena, Antero Paes de Barros, Rodrigues Palma e Percival Muniz. Júlio Campos e Jonas Pinheiro foram eleitos pelo PFL e Ubiratan Spinelli pelo PSD.
Para a Assembleia o PMDB elegeu Roberto França, Luiz Soares, Antônio Amaral, Hermes Gomes de Abreu, Thais Barbosa, José Lacerda, William Dias, Osvaldo Paiva, Augusto Mário Vieira, João Bosco, Kazuo Sano, Sebastião Alves Júnior e José Arimateia; o PDT, Antônio Joaquim; o PDS, Roberto Cruz e Ninomiya Miguel; o PL, Hermínio Barreto; e o PFL, Moises Feltrin,Teócles Maciel, Eduíno Orione, Haroldo Arruda, João Teixeira, Branco de Barros e Hilton Campos.
Eleito e empossado, Júlio Campos foi para Brasília. Era deputado do baixo clero, mas nem por isso menos falante e sempre disposto a ocupar lugar na mídia. Constituinte, foi dele a proposta que transformou o Pantanal em Reserva da Biosfera. Na Constituinte, votou a favor da proteção ao emprego contra demissão sem justa causa, e pela criação do aviso prévio proporcional. Também firmou posicionamento pela soberania popular, pelo regime presidencialista e pela nacionalização do subsolo.
As intensas articulações, longas reuniões e intermináveis sessões para a elaboração da Constituição não impediam que Júlio Campos mantivesse permanente contato com Mato Grosso e sua classe política. Em Brasília, percorria gabinetes ministeriais e de órgãos da administração federal defendendo interesse dos municípios e do governo estadual que tinha à frente o governador Carlos Bezerra (PMDB), seu adversário.
Com a promulgação da Constituição que o Dr. Ulysses Guimarães chamou de “Cidadã”, Júlio Campos entrou em cena para disputar a eleição ao Senado em 1990, uma dobradinha com Jayme Campos, que até dois anos antes era prefeito de Várzea Grande.
Júlio Campos não quis ser vice de Collor

Fernando Collor encantou o Brasil com seu discurso de combate aos marajás. Jovem, dono de convincente oratória e prometendo mundos e fundos, esse fluminense criado nas Alagoas, depois de ser governador daquele estado, queria a Presidência da República. Collor tinha muito, mas faltava um bom vice. No começo de 1989, em busca do companheiro de chapa ideal, o Caçador de Marajá desembarcou em Brasília. Nas noites do poder e dos poderosos ele vislumbrou aquele que seria o nome ideal para uma dobradinha: o xomano Júlio Campos.
Collor sabia que seu desafio seria muito grande. Estavam em articulação as candidaturas de Ulysses Guimarães, Leonel Brizola, Paulo Maluf, Afif Domingos, Lula da Silva, Mário Covas, Roberto Freire, Aureliano Chaves, Enéas Carneiro, Marronzinho, Fernando Gabeira, Ronaldo Caiado e outros nove menos cotados. A ele não bastava uma chapa, mas a chapa. Nas intermináveis noites do Planalto Central, Collor chegou a Júlio Campos, um jovem político que foi governador de Mato Grosso e cumpria com destaque seu segundo mandato de deputado federal.
Collor e Júlio Campos conversaram uma, duas, cinco, 10, muitas vezes, mas o xomano mato-grossense não aceitou o convite, muito embora estivesse seduzido pela vontade de ser vice-presidente da República. O convidado explicou que em 1990 disputaria a eleição para o Senado, com ampla possibilidade de eleição.
Mesmo sem aceitar compor a chapa, Júlio Campos trouxe Collor a Mato Grosso. Juntos percorreram o Vale do Araguaia e o Nortão. Em Canarana ouviram o chororô dos produtores de arroz. Em Apiacás e Paranaíta, presenciaram a terra sem lei nos garimpos de ouro.
Collor engoliu em seco a decisão de Júlio Campos, mas pediu a ele que sugerisse um nome para sua chapa. O xomano disse que a melhor escolha seria a deputada federal sua colega de legislatura, Márcia Kubitschek, eleita pelo Distrito Federal e filha do lendário presidente Juscelino Kubitschek.
